A lei divina pede do ser, através de sua própria consciência, que ele se recomponha perante a sua vítima. Ante a lei humana, a prisão ou a indenização redimem o criminoso; a lei divina vai adiante e lhe pede a reconciliação, mesmo que, em face dos códigos terrenos, ele esteja quite. Por outro lado, a lei humana não leva em conta o fato de que o homem sofre justamente aquilo que está nos seus compromissos cármicos, respondendo por desatinos cometidos. E se não colocamos um ponto final nessa espiral de horrores, ela continuará a abrir-se para baixo e para o futuro, cada vez mais dolorosa e ampla.
Dessa forma, não haveria direito líquido e certo de cobrarmos, nós mesmos, as faltas cometidas contra nós, pois que direito é esse, que reabre o ciclo da culpa e nos obriga a pagar aquilo que consideramos simples reparação?
Mas, como explicar tudo isso, de forma convincente, ao Espírito tumultuado pela paixão da vingança? Como iremos mostrar-lhe a falácia da sua filosofia da reparação? Em muitos casos, ele já está convencido dessa realidade, ou seja, a de que, exercendo a vingança por suas próprias mãos, ele se inscreve novamente como culpado, no tribunal invisível da sua própria consciência.
Não importa. Ele quer cobrar, assim mesmo. Quando chegar a hora da dor, ele arcará com as suas responsabilidades, e as sofrerá, diz ele, com prazer, porque pelo menos terá saciado o seu rancor.
Não sabe ele, porém, que o rancor não se satisfaz nunca, muito menos pelos caminhos do sofrimento alheio. Por mais absurda que pareça a tese ao vingador, o seu ódio somente se estanca, e somente o libera da sua própria dor, pelo perdão. Sacudido pela tormenta das suas paixões, ele nem percebe que também sofre, e que continua retido, indefinidamente, no processo que ele próprio criou. Se conseguirmos despertá-lo para essas verdades, estaremos começando a ajudá-lo.
Nem sempre lhe adianta uma bela pregação moral, sobre as virtudes teológicas do perdão.
Ele não se mostrará sensível ao apelo, enquanto não se convencer de que isso é uma realidade irresistível, que o interessa pessoalmente.
Às vezes, basta uma pergunta bem colocada, no momento oportuno. Acha ele, por exemplo, que, com mais um século ou dois de rancor, vai conseguir o que não conseguiu em dois ou três? Pretende continuar preso à roda-viva da aflição? Por quanto tempo? Não está cansado?
Não deseja experimentar ao menos um pouco de paz? Pare e reflita, medite, procure encarar o processo, com objetividade e sangue-frio, como se estivesse apreciando um caso, não o seu caso.
Por que manter dois Espíritos amarrados, vida após vida, revezando-se nas posições de perseguidor e perseguido? Além do mais, a vítima às vezes se lhe escapa irrevogavelmente das mãos pelo próprio sofrimento que lhe é infligido, pelo despertamento de seu Espírito, pelo esforço que faz em ajustar-se perante as leis divinas. E então o perseguidor não terá mais como atingi-lo.
Poderá ainda insistir em persegui-lo indiretamente, através de seres que lhe são caros, mas isto é uma vingança frustrada e o satisfaz ainda menos do que a outra. Ao longo do tempo ele ficará falando sozinho, na alienação da sua vingança sem objeto. Um dia despertará, afinal, para retomar a sua caminhada. E por que esperar tantos desenganos, se esse dia pode ser hoje, agora?