1ª Parte - Cap. 3: Em Jerusalém
Descan sando aqui e ali, somente na manhã seguinte o veículo parou à porta de um casarão de grandes proporções, aliás paupérrimo em sua feição exterior. Um rapaz de semblante alegre veio atender ao recém -vindo, que o interpelou com intimidade: - Urias, poderás dizer-me se Simão Pedro está? - Está, Sim. - Poderás chamá-lo em meu nome? - Vou já. Acompanhado de Tiago, irmão de Levi, Simão apareceu e recebeu o visitante com efusivas demonstrações de carinho. Efraim esclareceu o motivo da sua presença. Dois desamparados do mundo requeriam auxílio urgente. - Mas é quase impossível - atalhou Tiago. - Estamos com quarenta e nove doentes acamados. Pedro esboçou um sorriso generoso e obtemperou: - Ora, Tiago, se estivéssemos pescando, seria justo nos eximíssemos desse ou daquele dever que exorbitasse a esfera das obrigações inadiáveis de cada dia, junto da família, cuja organização vem de Deus; mas agora o Mestre nos legou o trabalho de assistência a todos os seus filhos, no sofrimento. Presentemente, nosso tempo se destina a isso; vejamos, pois, o que é possível fazer. E o bondoso Apóstolo adiantou -se para acolher os dois infelizes. Desde que viera do Tiberíades par a Jerusalém, Simão transformara -se em célula central de grande movimento humanitarista. Os filósofos do mundo sempre pontificaram de cátedras confortáveis, mas nunca desceram ao plano da ação pessoal, ao lado dos mais infortunados da sorte. Jesus renovara, com exemplos divinos, todo o sistema de pregação da virtude. Chamando a si os aflitos e os enfermos, inaugurara no mundo a fórmula da verdadeira benemerência social. As primeiras organizações de assistência ergueram -se com o esforço dos apóstolos, ao influxo amoroso das lições do Mestre. Era por esse motivo que a residência de Pedro, doação de vários amigos do "Caminho", regurgitava de enfermos e desvalidos sem esperança. Eram velhos a exibirem úlceras asquerosas, procedentes de Cesaréia; loucos que chegavam das regiões mais longínquas, conduzidos por parentes ansiosos de alívio; crianças paralíticas, da Iduméia, nos braços maternais, todos atraidos pela fama do profeta nazareno, que ressuscitava os pró prios mortos e sabia restituir tranqüilidade aos cora ções mais infortunados do mundo. Natural era que nem todos se curassem, o que obri gava o velho pescador a agasalhar consigo todos os neces sitados, com carinho de um pai. Recolhendo-se ali, com a família, era auxiliado particularmente por Tiago, filho de Alfeu, e por João; mas, em breve, Filipe e suas filhas instalavam -se igualmente em Jerusalém, cooperando no grande esforço fraternal. Tamanho o movimento de ne cessitados de toda sorte, que há muito Simão não mais podia entregar-se a outro mister, no conce rnente à pregação da Boa Nova do Reino. A dilatação desses mis teres vinculara o antigo discípulo aos maiores núcleos do judaísmo dominante. Obrigado a valer -se do socorro dos elementos mais notáveis da cidade, Pedro sentia -se cada vez mais escravo dos seus amigos benfeitores e dos seus pobres beneficiados, acorridos de toda parte, em grau de recurso supremo ao seu espírito de discípulo abnegado e sincero. Atendendo às solicitações confiantes de Efraim, pro videnciou para que ambos os enfermos fossem insta lados na sua casa pobre. Jeziel ocupou leito asseado e singelo, em estado de completa inconsciência, no delírio da febre que o pros trava. Suas palavras desconexas, entretanto, revelavam tão exato conhecimento dos textos sagrados, que Pedro e João se interessaram de modo especial por aquele jovem de faces macilentas e tristes. Mormente Simão, passava longas horas entretido em ouvi lo, anotando-lhe os conceitos profundos, embora filhos da exaltação febril. Decorridas duas semanas exaustivas, Jeziel melho rou, rearmonizando as próprias faculdades para melhor analisar e sentir a nova situação. Afeiçoara -se a Pedro, como um filho afetuoso ao legitimo pai. Notando -lhe o carinho, de leito em leito, de necessitado a necessitado, o moço hebreu experimentava deliciosa e íntima surpresa, O ex-pescador de Cafarnaum, relativamente moço ainda, era o exemplo vivo da renúncia fraterna. Tão logo convalescente, Jeziel foi transferido a am biente mais calmo, à sombra amena de vetustas tama reiras que circundavam a velha casa . Entre ambos estabelecera -se, desde os primeiros dias, a corrente magnética das grandes atrações afetivas. Nessa manhã, as observações amáveis sucediam -se e, não obstante a justa curiosidade que lhe pairava nal ma, a respeito do interessante hóspede, Simão ainda não tinha logrado o ensejo de um intercâmbio de idéias, mais íntimo, de maneira a sondar -lhe os pensamentos, inteirando -se dos seus sentimentos e da sua origem. Ao sopro generoso da aragem matinal, sob as árvores frondosas, o Apóstolo criou ânimo e , a certa altura, depois de distrair o convalescente com alguns ditos afetuosos, buscou penetrar -lhe o mistério, cuidadosamente: — Amigo — disse com jovial sorriso —, agora que Deus te restituiu a saúde preciosa, regozijo-me por havermos recebido tua visit a em nossa casa. Nosso júbilo é sincero, pois que, nos mínimos detalhes da tua perma nência entre nós, revelaste a condição espiritual de filho legítimo dos lares organizados com Deus, pelo conhecimento que tens dos textos sagrados. E tanto me im pressionei com as tuas referências a Isaías, quando deliravas com febre alta, que desejaria saber de que tribo descendes. Jeziel compreendeu que aquele amigo sincero, antes irmão carinhoso nas horas mais críticas da enfermidade, desejava conhecê -lo melhor, identificá-lo íntima e profundamente, com delicada argúcia psicológica. Achou justo e considerou que não devia desprezar o amparo de um coração verdadeiramente fraterno, para o acendra mento das próprias energias espirituais. — Meu pai era filho dos arredores de Sebaste e descendia da tribo de Issacar — esclareceu, atencioso. — E era tão altamente dedicado ao estudo de Isaías? — Estudava sinceramente todo o Testamento, sem preferências, talvez, de ordem particular. A mim, porém, Isaías sempre me impressionou profundamente pela beleza das promessas divinas de que foi portador, anun ciando-nos o Messias, sobre cuja vinda tenho meditado desde a infância. Simão Pedro esboçou um sorriso de viva satisfação e disse: — Mas, não sabes que o Messias já veio? Jeziel teve um brusco sobressalto na cadeira im provisada. — Que dizeis? — inquiriu ansioso. — Nunca ouviste falar em Jesus de Nazaré? Embora recordasse vagamente as palavras ouvidas de Efraim, declarou: — Nunca! — Pois o profeta nazareno já nos trouxe a mensa gem de Deus para todos os séculos. E Simão Pedro, olhos acesos na chama luminosa dos que se sentem felizes ao recordar um tempo ven turoso, falou-lhe da exemplificação do Senhor, traçando uma perfeita biografia verbal do Mestre sublime. Em traços de forte colorido, lembrou os dias em que o hospedava no seu tugúrio à margem do Genesaré, as excursões pelas aldeias vizinhas, as viagens de barca, de Cafarnaum aos sítios marginais do lago. Era de se lhe ver a emoção intraduzível da voz, a alegria interior com que rememor ava os feitos e prédicas junto ao lago marulhoso, acariciado pelo vento, a poesia e a suavidade dos crepúsculos vespertinoS. A imaginação viva do Após tolo sabia tecer comentários judiciosos e brilhantes ao evocar um leproso curado, um cego que recuperara a vista, uma criancinha doente e prestes restabelecida. Jeziel bebia-lhe as palavras, inteiramente empolga do, como se houvesse encontrado um mundo novo. A mensagem da Boa Nova penetrava -lhe o espírito desencantado, como um bálsamo suave. Quando Simão parecia prestes a terminar a narrativa, não pôde conter -se e perguntou: — E o Messias? Onde está o Messias? — Há mais de um ano — exclamou o Apóstolo apa gando a vivacidade com a lembrança triste — foi crucificado aqui mesmo em Jerusalém, entre os ladrões. Em seguida, passou a enumerar os martírios pun gentes, as dolorosas ingratidões de que o Mestre fora vítima, os ensinos derradeiros e a gloriosa ressurreição do terceiro dia. Depois, falou dos primeiros dias do apostolado, dos acontecimentos do Pentecostes e das últimas aparições do Senhor, no cenário sempre saudoso da Galiléia distante. Jeziel tinha as pupilas úmidas. Aquelas revelações sensibilizavam -lhe o coração, como se houvesse conhe cido o profeta de Nazaré. E, ligando o perfil deste aos textos que retinha de cor, enunciou, quase em voz alta, como se falasse consigo mesmo: — “Levantar-se-á (1) como um arbusto verde, na ingratidão de um solo árido... Carregado de opróbrios e abandonado dos homens. Coberto de ignomínias não merecerá consi deração. Será ele quem carregará o fardo pesado de nossas culpas e sofrimentos, tomando sobre si todas as nossas dores. Parecerá um homem vergado sob a cólera de Deus... Humilhado e ferido deixar -se-á conduzir como um cordeiro, mas, desde o instante em que oferecer su a vida, os interesses do Eterno hão de prosperar nas suas mãos.” Simão, admirado de tanto conhecimento dos sagra dos textos, terminou dizendo: — Vou buscar-te os textos novos. São as anotações de Levi (2) sobre o Messias redivivo. (1) Do Capítulo 53º, de Isaías. (2) Mateus. E, em breves minutos, o Apóstolo lhe punha nas mãos os pergaminhos do Evangelho. Jeziel não leu; devorou. Assinalou, em voz alta, uma a uma, todas as passagens da narrativa, seguido pela atenção de Pedro intimamente satisfeito. Terminada a rápida análise, o jovem advertiu: - Encontrei o tesouro da vida, preciso examiná -lo com mais vagar, quero saturar-me da sua luz, pois aqui pressinto a chave dos enigmas humanos. Quase em lágrimas, leu o Sermão da Montanha, secundado pelas comovedoras lembranças de Pedro. Em seguida, ambos passaram a comparar os ensinamentos do Cristo com as profecias que o anunciavam. O jovem hebreu estava comovidíssimo e queria conhecer os mí nimos episódios da vida do Mestre. Simão procurava satisfazê -lo, edificado e satisfeito.
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Capítulo 3
Nome do Capítulo Em Jerusalém
Parte Primeira Parte