1ª Parte - Cap. 3: Em Jerusalém
O generoso amigo de Jesus, tão incompreendido em Jerusalém, experimentava uma alegria orgulhosa por haver encontrado um jovem que se entusiasmava com os exemplos e ensinamentos do Mestre incomparável. — Desde que dei acordo de mim em vossa casa —disse Jeziel —, verifiquei que participais de princípios que me não são conhecidos. Tanta preocupação em amparar os desfavorecidos da sorte representa uma lição nova para minha alma. Os doentes que vos abençoam, qual o faço agora, são tutelados desse Cristo que eu não tive a ventura de conhecer. — O Mestre amparava a todos os sofredores e nos recomendou que o mesmo fizéssemos em seu nome, escla receu o Apóstolo enfaticamente. — De acordo com as instruções do Levítico — disse Jeziel —, toda cidade deve possuir, longe de suas portas, um vale, destinado aos leprosos e pessoas consideradas imundas; entretanto, Jesus nos deu um lar no coração daqueles que o seguem. — O Cristo nos trouxe a mensagem do amor — explicou Pedro —, completou a Lei de Moisé s, inaugurando um novo ensinamento. A Lei Antiga é justiça, mas o Evangelho é amor. Enquanto o código do passado pre ceituava o “olho por olho, dente por dente”, o Messias ensinou que devemos “perdoar setenta vezes sete vezes” e que se alguém quiser tirar -nos a túnica devemos dar -lhe também a capa. Jeziel sensibilizou-se e chorou. Aquele Cristo amo roso e bom, suspenso na cruz da ignomínia humana, era a personificação de todos os heroísmos do mundo. Como se aliviava ao analisá -lo! Sentia-se bem por não haver reagido contra o despotismo de que fora vítima. Cristo era o Filho de Deus e não desdenhara o sofrimento. Seu cálice transbordara e Pedro lhe fazia sentir que, nos instantes mais acerbos, aquele Mestre desconhecido e humilde, no mundo, sabia transmitir a lição da coragem, da renúncia e da vida. Como exemplo do seu amor, ali estava aquele homem simples e carinhoso, que lhe chamava irmão, que o acolhia como pai dedicado. O rapaz lembrou seus últimos dias em Corinto e chorou longamente. Foi aí que, abrindo o coração, tomou as mãos de Pedro e contou-lhe toda a sua tragédia, sem nada omitir e rogando -lhe conselhos. Finalizando a narrativa, acrescentou comovido: - Revelastes-me a luz do mundo; perdoai, pois, se vos revelo meus sofrimentos, que devem ser j ustos. Tendes no coração as claridades da palavra do Salvador e haveis de inspirar minha pobre vida. O Apóstolo abraçou-o e murmurou: — Julgo prudente guardares o anonimato, pois Je rusalém regurgita de romanos e não seria justo com prometer o generoso am igo que te restituiu à liberdade. Teu caso, entretanto, não é novo, meu amigo. Estou nesta cidade há quase um ano, e, por estes leitos sin gelos, têm passado as mais singulares criaturas. Eu, que era um paupérrimo pescador, tenho adquirido ampla experiência do mundo, nestes poucos meses! A estas portas têm batido homens esfarrapados, que foram po líticos importantes; mulheres leprosas, que foram quase rainhas! Em contacto com a história de tantos castelos desmoronados, no jogo das vaidades mundanas, agora r econheço que as almas necessitam do Cristo, acima de tudo. Essas explicações singulares constituíam conforto para Jeziel, que interrogou agradecido: — E achais que vos poderia servir em alguma coisa? Eu, que era cativo dos homens, desejaria escra vizar-me ao Salvador, que soube viver e morrer por todos nós. — Serás meu filho, doravante — exclamou Simão num transporte de júbilo. — E já que preciso reformar -me em Cristo, como me chamarei? — perguntou Jeziel com olhos fulgurantes de alegria. O Apóstolo refletiu algum tempo e falou: — Para que não te esqueças da Acaia, onde o Senhor se dignou de buscar te para o seu ministério divino, eu te batizarei no credo novo com o nome grego de Estevão. Consolidaram-se ainda mais os laços de simpatia que os aproximavam desde o primeiro instante, e o moço jamais olvidaria aquele encontro com o Cristo, à sombra das tamareiras aureoladas de luz. Durante um mês, Jeziel, agora conhecido por Estevão, absorveu -se no estudo de toda a exemplificação e ensinos do Mestre que não chega ra a conhecer de modo direto. A casa dos apóstolos, em Jerusalém, apresentava um movimento de socorro aos necessitados cada vez maior, requerendo vasto coeficiente de carinho e dedicação. Eram loucos a chegarem de todas as províncias, anciães abandonados, crianças esquálidas e famintas. Não só isso. À hora habitual das refeições, extensas filas de mendigos comuns imploravam a esmola da sopa. Acumulando ar tarefas com ingente sacrifício, João e Pedro, com o concurso dos companheiros, haviam cons truído um pavilhão modesto, destinado aos serviços da igreja, cuja fundação iniciavam para difundir as mensa gens da Boa Nova. A assistência aos pobres, entretanto, não dava tréguas ao labor das idéias evangélicas. Foi quando João considerou irrazoável que os discípu los diretos do Senhor menosprezassem a sementeira da palavra divina e despendessem todas as possibilidades de tempo no serviço do refeitório e das enfermarias, visto que, dia a dia, multiplicava o número de doentes e infelizes que recorriam aos seguidores de Jesus como a última espe rança para os seus casos particulares. Havia enfermos que batiam à porta, benfeitores da nova instituição que requeriam situações especiais para os seus protegidos, amigos que reclamavam providências a favor dos órfãos e das vi úvas. Na primeira reunião da igreja humilde, Simão Pe dro pediu, então, nomeassem sete auxiliares para o ser viço das enfermarias e dos refeitórios, resolução que foi aprovada com geral aprazimento. Entre os sete irmãos escolhidos, Estevão foi designado co m a simpatia de todos. Começou para o jovem de Corinto uma vida nova. Aquelas mesmas virtudes espirituais que iluminavam a sua personalidade e que tanto haviam contribuído para a cura do patrício, que o restituira à liberdade, difundiam entre os doentes e indigentes de Jerusalém os mais santos consolos. Grande parte dos enfermos, recolhidos ao casarão dos discípulos, recobraram a saúde. Velhos desalentados encontravam bom ânimo sob a influência da sua palavra inspirada na fonte divina do Evangelho. Mães afl itas buscavam-lhe o conselho seguro; mulheres do povo, esgotadas pelo trabalho e angústias da vida, ansiosas de paz e consolação, disputavam o conforto da sua presença carinhosa e fraterna. Simão Pedro não cabia em si de contente, em face das vitórias do f ilho espiritual. Os necessitados tinham a impressão de haver recebido um novo arauto de Deus para alívio de suas dores. Em pouco tempo, Estevão tornou -se famoso em Jerusalém, pelos seus feitos quase miraculosos. Consi derado como escolhido do Cristo, sua a ção resoluta e sincera arrigimentara, em poucos meses, as mais vastas conquistas para o Evangelho do amor e do perdão. Seu nobre esforço não se limitava à tarefa de mitigar a fome dos desvalidos. Entre os Apóstolos galileus, sua palavra resplandecia nas pr egações da igreja, iluminada pela fé ardente e pura. Quando quase todos os companheiros, a pretexto de não ferirem velhos princípios estabelecidos, deixavam de ampliar os comentários públicos para além das considerações agradáveis ao judais mo dominante, Estevão apresentava à multidão, desas sombradamente, o Salvador do mundo na glória das novas revelações divinas, indiferente às lutas que iria provocar, comentando a vida do Mestre com o seu verbo inflamado de luz. Os próprios discípulos surpreendiam -se com a magia das suas profundas inspirações. Alma temperada na forja sublime do sofrimento, sua pregação estava cheia de lágrimas e alegrias, de apelos e aspi rações. Em poucos meses, seu nome era aureolado de uma veneração surpreendente. E, ao fim do dia, qua ndo chegavam as orações da noite, o moço de Corinto, ao lado de Pedro e João, falava das suas visões e das suas esperanças, cheio do espírito daquele Mestre adorável, que, através do seu Evangelho, lhe semeara no coração as estrelas abençoadas de um júbi lo infinito.
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Capítulo 3
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Parte Primeira Parte