Em nosso último número apresentamos o quadro da vida espírita em conjunto; seguimos os Espíritos desde o instante em que deixam o corpo terreno e fizemos um rápido esboço de suas ocupações. Propomo-nos hoje mostrá-los em ação, reunindo num mesmo quadro diversas cenas íntimas, cujo testemunho nos foi dado através das comunicações. As numerosas conversas familiares de além-túmulo, já publicadas nesta revista, podem dar uma idéia da situação dos Espíritos, conforme o seu grau de adiantamento, mas aqui há um caráter especial de atividade, que nos faz conhecer ainda melhor o papel que, mau grado nosso, representam entre nós. O tema do estudo, cujas peripécias vamos relatar, se nos ofereceu espontaneamente; apresenta interesse maior porque tem, como herói principal, não um desses Espíritos superiores que habitam mundos desconhecidos, mas um desses que, por sua própria natureza, ainda estão presos à Terra, um contemporâneo que nos deu provas manifestas de sua identidade.
É entre nós que a ação se passa e cada um de nós nela representa um papel.
Além disso, esse estudo dos costumes espíritas tem de particular o fato de nos mostrar a progressão dos Espíritos na erraticidade e como podemos concorrer para a sua educação.
Um de nossos amigos, após longas experiências infrutíferas, das quais triunfou a sua paciência, de repente tornou-se excelente médium escrevente e audiente. Certa vez ele estava ocupado a psicografar com outro médium, seu amigo, quando, a uma pergunta dirigida a um Espírito, obteve resposta bastante estranha e pouco séria, na qual não reconhecia o caráter do Espírito evocado. Tendo interpelado o autor da resposta, depois de o haver intimado em nome de Deus para se dar a conhecer, aquele assinou Pierre Le Flamand, nome completamente desconhecido do médium. Estabeleceu-se, então, entre ambos, e mais tarde entre nós e esse Espírito, uma série de conversas que passaremos a relatar.
PRIMEIRA CONVERSA 1. Quem és? Não conheço ninguém com esse nome.
Resp. – Um de teus antigos camaradas de colégio.
2. Não tenho a menor lembrança.
Resp. – Lembra-te da surra que um dia levaste?
3. É possível; entre escolares isso acontece algumas vezes. Realmente, lembro-me de algo assim, mas também me recordo de ter pago com a mesma moeda.
Resp. – Era eu; mas não te quero mal.
4. Obrigado. Tanto quanto me recordo, tu eras um biltre bastante mau.
Resp. – Eis tua memória que volta. Enquanto vivi não mudei. Eu tinha a cabeça dura, mas no fundo não era mau; batia-me com o primeiro que aparecesse: em mim isso era uma necessidade. Depois, ao dar as costas, já não pensava em nada.
5. Quando e com que idade morreste?
Resp. – Há quinze anos; eu tinha cerca de vinte anos.
6. De que faleceste?
Resp. – Uma leviandade de rapaz... conseqüência de minha falta de juízo...
7. Ainda tens família?
Resp. – Perdi meus pais há muito tempo; morava com um tio, meu único parente...; se fores a Cambrai promete procurá-lo; é um bravo homem, a quem muito aprecio, embora me tenha tratado duramente; mas eu o merecia.
8. Ele tem o teu mesmo nome?
Resp. – Não; em Cambrai não há mais ninguém com o meu nome; ele se chama W...; mora na rua... no...; verás que sou eu mesmo que te falo.
Observação – O fato foi verificado pelo próprio médium numa viagem que empreendeu algum tempo depois. Encontrou o Sr. W... no endereço indicado; disse-lhe este que realmente havia tido um sobrinho com esse nome, bastante estouvado e inconveniente, falecido em 1844, pouco tempo depois de ter sido sorteado para o serviço militar. Esta circunstância não havia sido indicada pelo Espírito; mais tarde ele o fez espontaneamente.
Veremos em que ocasião.
9. Por obra de que acaso vieste à minha casa?
Resp. – Por acaso, se quiseres; creio, porém, que foi o meu bom gênio que me impeliu a ti, por me parecer que só teremos a ganhar com o restabelecimento de nossas relações... Eu estava aqui ao lado, na casa do teu vizinho, ocupado em olhar os quadros...
nada de retratos de igreja...; de repente eu te avistei e vim. Percebi que estavas ocupado, a conversar com outro Espírito, e quis intrometer-me na conversa.
10. Mas por que respondeste às perguntas que eu fazia a outro Espírito? Isso não parece provir de um bom camarada.
Resp. – Encontrava-me na presença de um Espírito sério e que não parecia disposto a responder; respondendo em seu lugar, eu imaginava que ele soltasse a língua, mas não tive êxito.
Não dizendo a verdade, eu queria obrigá-lo a falar.
11. Isto não é certo, pois poderia ter resultado em coisas desagradáveis, caso eu não tivesse percebido o embuste.
Resp. – Haverias de o saber sempre, mais cedo ou mais tarde.
12. Dize-me mais ou menos como entraste aqui.
Resp. – Bela pergunta! Acaso temos necessidade de puxar o cordão da campainha?
13. Podes, então, ir a toda parte, entrar em qualquer lugar?
Resp. – Claro!... E sem me fazer anunciar! Não somos Espíritos a troco de nada.
14. Entretanto eu julgava que certos Espíritos não tivessem o poder de penetrar em todas as reuniões.
Resp. – Acreditas, por acaso, que teu quarto é um santuário e que eu seja indigno de nele penetrar?
15. Responde com seriedade à minha pergunta e deixa de lado as graçolas de mau gosto. Vês que não tenho humor para suportá-las e que os Espíritos mistificadores são mal recebidos em minha casa.
Resp. – É verdade que há reuniões onde Espíritos tratantes, como nós outros, não podem entrar; mas são os Espíritos superiores que nos impedem e não os homens. Aliás, quando vamos a algum lugar, sabemos muito bem manter-nos calados e afastados, se necessário. Escutamos e, quando nos aborrecemos, vamo-nos embora... Ah!... sim! Parece que não estás satisfeito com a minha visita.
16. É que não recebo de bom grado o primeiro que aparece e, francamente, não fiquei satisfeito por vires perturbar uma conversa séria.
Resp. – Não te zangues..., não desejo perturbar-te... sou sempre um bom rapaz...; de outra vez far-me-ei anunciar.
17. Lá se vão quinze anos que estás morto...
Resp. – Entendamo-nos. Quem está morto é meu corpo; mas eu, que te falo, não estou morto.
Observação – Muitas vezes, mesmo entre os Espíritos levianos e brincalhões, encontram-se palavras de grande profundidade. Esse eu que não está morto é absolutamente filosófico.
18. É bem assim que compreendo. A propósito, conta-me uma coisa: tal como agora te encontras, podes ver-me com tanta clareza como se estivesses em teu corpo?
Resp. – Vejo-te ainda melhor; eu era míope; foi por isso que quis me livrar do serviço militar.
19. Lá se vão, dizia eu, quinze anos que estás morto e me pareces tão estouvado quanto antes; não avançaste, pois?
Resp. – Sou o que era antes: nem melhor, nem pior.
20. Como passas o tempo?
Resp. – Não tenho outras ocupações, a não ser divertir-me e informar-me dos acontecimentos que podem influenciar o meu destino. Vejo muito. Passo parte do tempo ora em casa de amigos, ora no teatro... Por vezes surpreendo coisas muito engraçadas... Se as pessoas soubessem que têm testemunhas quando pensam estar sós!... Enfim, procedo de maneira que o tempo me seja o menos pesado possível... Dizer quanto tempo isso haverá de durar, eu não o saberia e, entretanto, há algum tempo que vivo assim... Tens explicações convincentes para isso?
21. Em suma, és mais feliz do que eras quando estavas vivo?
Resp. – Não.
22. O que te falta? Não tens necessidade de coisa alguma; não sofres mais; não temes ser arruinado; vais a toda parte e tudo vês; não temes as preocupações, nem as doenças, nem as enfermidades da velhice. Não será isto uma existência feliz?
Resp. – Falta-me a realidade dos prazeres; não sou bastante evoluído para fruir uma felicidade moral; Desejo tudo que vejo, e é isso que me tortura; aborreço-me e procuro matar o tempo como posso!... Mas, até quando?... Experimento um mal-estar que não posso definir...; preferia sofrer as misérias da vida a esta ansiedade que me oprime.
Observação – Não está aqui um quadro eloqüente dos sofrimentos morais dos Espíritos inferiores? Invejar tudo quanto vêem; ter os mesmos desejos e realmente nada desfrutar, deve ser verdadeira tortura.
23. Disseste que ias ver os amigos; não será uma distração?
Resp. – Meus amigos não percebem que estou com eles; aliás, nem mesmo pensam em mim. Isso me faz mal.
24. Não tens amigos entre os Espíritos?
Resp. – Estouvados e tratantes como eu, que como eu se aborrecem. Sua companhia não é muito agradável; aqueles que são felizes e raciocinam afastam-se de mim.
25. Pobre rapaz! Eu te lamento e, se te pudesse ser útil, o faria com prazer.
Resp. – Se soubesses o quanto essas palavras me fazem bem! É a primeira vez que as ouço.
26. Não poderias encontrar ocasião de ver e ouvir coisas boas e úteis que contribuiriam para o teu progresso?
Resp. – Sim, mas para isso é necessário que eu saiba aproveitar as lições. Confesso que prefiro assistir às cenas de amor e de deboche, que não têm influenciado o meu Espírito para o bem. Antes de entrar em tua casa, lá me achava a considerar quadros que despertavam em mim certas idéias...; mas, deixemos isso de lado... No entanto eu soube resistir à vontade de pedir para reencarnar, a fim de desfrutar os prazeres de que tanto abusei. Vejo, agora, quanto teria errado. Vindo à tua casa, sinto que fiz bem.