27. Muito bem! Espero, futuramente, que me dês o prazer, caso queiras a minha amizade, de não mais concentrar a atenção nesses quadros que podem despertar más idéias e que, ao contrário, possas pensar naquilo que aqui ouvirás de bom e de útil para ti. Tu te sentirás bem, podes crer.
Resp. – Se esse é o teu pensamento, também será o meu.
28. Quando vais ao teatro experimentas as mesmas emoções que sentias quando vivo?
Resp. – Várias emoções diferentes; a princípio, aquelas; depois me misturo nas conversas... e escuto coisas singulares.
29. Qual o teu teatro predileto?
Resp. – “Les Variétés”. Muitas vezes acontece que eu os veja todos na mesma noite. Também vou aos bailes e às reuniões onde há divertimento.
30. De modo que, enquanto te divertes, te instruis, visto ser impossível observar bastante na tua posição.
Resp. – Sim, mas o que mais aprecio são certos colóquios. É realmente curioso ver a manobra de algumas criaturas, sobretudo das que ainda querem passar por jovens. Em toda essa lengalenga ninguém diz a verdade: assim como o rosto, o coração se maquia, de modo que ninguém se entende. Acerca disso realizei um estudo dos costumes.
31. Pois bem! Não vês que poderíamos ter boas conversas, como esta, da qual ambos podemos tirar proveito?
Resp. – Sempre; como dizes, a princípio para ti; depois, para mim. Tens ocupações necessárias ao teu corpo; quanto a mim, posso dar todos os passos possíveis para instruir-me sem prejudicar a minha existência.
32. Já que é assim, continuarás as tuas observações ou, como dizes, teus estudos sobre os costumes; até o momento não os aproveitaste muito. É preciso que eles sirvam ao teu esclarecimento e, para isso, é necessário que o faças com um objetivo sério, e não como diversão e para matar o tempo. Dir-me-ás o que viste: raciocinaremos e tiraremos as conclusões para a nossa mútua instrução.
Resp. – Será realmente bastante interessante. Sim, com certeza estou a teu serviço.
33. Não é tudo. Gostaria de proporcionar-te ocasião para praticares uma boa ação. Queres?
Resp. – De todo o coração! Dir-se-á que poderei servir para alguma coisa. Fala-me logo o que é preciso que eu faça.
34. Nada de pressa! Não confio missões tão delicadas assim àqueles a quem não tenho confiança. Tens boa vontade, não há dúvida; mas terás a perseverança necessária? Eis a questão. É preciso, pois, que eu te ensine a te conheceres melhor, para saber de que és capaz e até que ponto posso contar contigo.
Conversaremos sobre isso uma outra vez.
Resp. – Tu o verás.
35. Adeus, pois, por hoje.
Resp. – Até breve.
SEGUNDA CONVERSA 36. Então, meu caro Pierre, refletiste seriamente naquilo que conversamos o outro dia?
Resp. – Mais seriamente do que imaginas, pois faço questão de te provar que valho mais do que pareço. Sinto-me mais à vontade, desde que tenho algo a fazer. Agora tenho um objetivo e não mais me aborreço.
37. Falei de ti ao Sr. Allan Kardec; comuniquei-lhe nossas conversas e ele ficou muito contente; deseja entrar em contato contigo.
Resp. – Já o sei; estive em sua casa.
38. Quem te conduziu até lá?
Resp. – Teu pensamento. Voltei aqui depois daquele dia. Vi que querias falar-lhe a meu respeito e disse a mim mesmo: Vamos lá primeiro; provavelmente encontrarei material de observação e, quem sabe, uma ocasião de ser útil.
39. Gosto de ver-te com esses pensamentos sérios. Que impressão tiveste da visita?
Resp. – Oh! Muito grande. Ali aprendi coisas que nem suspeitava e que me esclareceram quanto ao futuro. É como uma luz que se fizesse em mim. Agora compreendo tudo quanto tenho a ganhar no meu aperfeiçoamento... É preciso...; é preciso.
40. Posso, sem cometer indiscrição, perguntar-te o que viste na casa dele?
Resp. – Certamente. Lá, como na casa de outras pessoas, vi tantas coisas que não falarei senão quando quiser... ou quando puder.
41. O que queres dizer com isso? Não podes dizer tudo quanto queres?
Resp. – Não. Desde alguns dias vejo um Espírito que parece seguir-me por toda parte, que me impele ou me contém; dir-se-ia que me dirige; sinto um impulso, do qual não me dou conta e ao qual obedeço, mau grado meu. Se quero dizer ou fazer algo inconveniente, posta-se à minha frente..., olha-me... e eu me calo...
e me detenho.
42. Quem é esse Espírito?
Resp. – Nada sei; mas ele me domina.
43. Por que não lho perguntas?
Resp. – Não tenho coragem. Quando lhe quero falar ele me olha e sinto a língua travada.
Observação – É evidente que aqui a palavra língua é uma figura, já que os Espíritos não possuem linguagem articulada.
44. Deves ver se é bom ou mau.
Resp. – Deve ser bom, pois que me impede de dizer tolices; mas é severo... Por vezes tem um ar irritado; doutras, parece olhar-me com ternura... Veio-me a idéia de que poderia ser o Espírito de meu pai, que não quer se dar a conhecer.
45. Isso parece plausível. Ele não deve estar muito satisfeito contigo. Ouve-me bem. Vou dar-te um conselho a respeito. Sabemos que os pais têm por missão educar os filhos e encaminhá-los na senda do bem. Conseqüentemente, são responsáveis pelo bem ou pelo mal que eles praticam, conforme a educação que receberam, com o que sofrem ou são felizes no mundo dos Espíritos. A conduta dos filhos, pois, influi até certo ponto sobre a felicidade ou a infelicidade dos pais após a morte.
Como tua conduta na Terra não foi muito edificante, e como desde a tua morte não fizeste grande coisa de bom, teu pai deve sofrer por isso, caso tenha algo a censurar-se por não te haver guiado bem...
Resp. – Se não me tornei um homem de bem, não foi por me ter faltado, mais de uma vez, a corrigenda necessária.
46. Talvez não tivesse sido a melhor maneira de corrigir-te; seja como for, sua afeição por ti é sempre a mesma e ele to prova aproximando-se de ti, se de fato é ele, como presumo.
Deve sentir-se feliz com a tua mudança, o que explica a alternância de ternura e de irritação. Quer auxiliar-te no bom caminho em que acabas de entrar e, quando te vir realmente empenhado nisso, estou certo de que se dará a conhecer. Desse modo, trabalhando por tua própria felicidade, trabalharás pela dele. Nem mesmo me surpreenderia caso tivesse sido ele próprio quem te impeliu a vir à minha casa. Se não o fez antes foi porque quis dar-te o tempo de compreender o vazio de tua existência sem realizações e sentir-lhes os dissabores.
Resp. – Obrigado! Obrigado...! Ele lá está, atrás de ti...
Pôs a mão na tua cabeça, como se te ditasse as palavras que acabas de proferir.
47. Voltemos ao Sr. Allan Kardec.
Resp. – Fui à sua casa anteontem à noite. Estava ocupado, escrevendo em seu gabinete..., trabalhando numa nova obra em preparo... Ah! Ele cuida bem de nós, pobres Espíritos; se não nos conhecem não é por sua culpa.7 48. Estava só?
Resp. – Só, sim, isto é, não havia ninguém com ele; mas havia ao seu redor uma vintena de Espíritos que murmuravam acima de sua cabeça.
49. Ele os escutava?
Resp. – Ouvia-os tão bem que olhava para todos os lados de onde provinha o ruído, para ver se não eram milhares de moscas; depois abriu a janela para olhar se não seria o vento ou a chuva.
Observação – O fato era absolutamente exato.
50. Entre tantos Espíritos reconheceste algum?
Resp. – Não; não são aqueles com quem me reunia. Eu tinha a impressão de ser um intruso e pus-me a um canto a fim de observar.
51. Esses Espíritos pareciam estar interessados por aquilo que ele escrevia?
Resp. – Creio que sim. Dois ou três, sobretudo, sopravam o que ele escrevia e davam a impressão de ouvir a opinião dos outros; quanto a Kardec, acreditava piamente que as idéias eram suas, parecendo satisfeito com isso.
52. Foi tudo o que viste?
Resp. – Depois chegaram oito ou dez pessoas que se reuniram num outro aposento com Kardec. Puseram-se a conversar; faziam perguntas; ele respondia e explicava.
53. Conheces as pessoas que lá estavam?
Resp. – Não; sei apenas que havia pessoas importantes, pois a uma deles se referiam sempre como príncipe, e a outra como sr. duque. Os Espíritos também chegaram em massa; havia pelo menos uma centena, dos quais vários tinham sobre a cabeça uma espécie de coroa de fogo. Os outros se mantinham afastados e ouviam.
54. E tu, que fazias?
Resp. – Eu também ouvia, mas sobretudo observava.
Veio-me, então, a idéia de fazer uma artimanha para ser útil a Kardec; dir-te-ei mais tarde o que era, quanto eu tiver alcançado êxito. Então deixei a reunião e, vagando pelas ruas, divertia-me em frente às lojas, misturando-me com a multidão.
55. De sorte que, em vez de ir aos teus negócios, perdias o tempo?
Resp. – Não o perdi, pois que impedi um roubo.
56. Ah! Tu te metes também em assuntos da polícia?
Resp. – Por que não? Passando defronte de uma loja fechada, notei que lá dentro se passava algo estranho; entrei e vi um rapaz muito agitado, indo e vindo, como se quisesse ir ao caixa do lojista. Com ele havia dois Espíritos, um dos quais lhe soprava ao ouvido: Vamos, covarde! A gaveta está cheia; poderás te divertir à vontade, etc.; o outro tinha o semblante de uma mulher, bela e cheia de nobreza, qualquer coisa de celeste e de bondade no olhar; dizia-lhe: Vai embora, vai embora! Não te deixes tentar; e lhe soprava as palavras: prisão, desonra.
O rapaz hesitava. No momento em que se aproximava do caixa, interpus-me à sua frente para o deter. O Espírito mau pediu-me que não me metesse. Eu lhe disse que queria impedir o moço de cometer uma má ação e, talvez, de ser condenado às galés.