Capítulo 25
O grau de superioridade ou de inferioridade dos Espíritos indica naturalmente em que tom se deve falar com eles. É evidente que, quanto mais elevados eles sejam, tanto mais direito têm ao nosso respeito, às nossas atenções e à nossa submissão. Não lhes devemos demonstrar menos deferência do que o faríamos, embora por outros motivos, caso estivessem vivos. Na Terra, levaríamos em consideração a categoria e a posição social que eles ocupam; no mundo dos Espíritos, só levaremos em conta a sua superioridade moral. A própria elevação que possuem os coloca acima das puerilidades das nossas fórmulas bajulatórias. Não é com palavras que se pode captar a benevolência deles, mas pela sinceridade dos sentimentos. Seria, pois, ridículo dar-lhes os títulos que os nossos usos consagram, para distinção das categorias, e que talvez lhes lisonjeasse a vaidade, quando vivos. Se forem realmente superiores, não somente não darão qualquer importância a esses títulos, como até se desgostarão se os empregarmos. Um bom pensamento lhes é mais agradável do que as mais honrosas qualificações que lhes dermos. A não ser assim, eles não estariam acima da Humanidade. O Espírito de um venerado sacerdote, que foi na Terra um príncipe da Igreja, homem de bem, praticante da lei de Jesus, respondeu certa vez a alguém que o evocara dando-lhe o título de Monsenhor: “Deverias, ao menos, dizer: ex-Monsenhor, pois aqui só há um Senhor, que é Deus. E fica sabendo: muitos dos que se ajoelhavam na Terra diante de mim, hoje eu me inclino diante deles”. Quanto aos Espíritos inferiores, o caráter que revelam nos indica a linguagem de que devemos usar para com eles. Há os que, embora inofensivos e até bondosos, são levianos, ignorantes, estouvados. Dar-lhes tratamento igual ao que dispensamos aos Espíritos sérios, como fazem certas pessoas, seria a mesma coisa que nos inclinarmos perante um colegial ou diante de um asno que trouxesse barrete de doutor. O tom de familiaridade não seria descabido entre eles, que por isso não se melindram; ao contrário, acolhem-no de muita boa vontade. Entre os Espíritos inferiores, muitos são infelizes. Quaisquer que sejam as faltas que estejam expiando, seus sofrimentos merecem ainda mais a nossa comiseração, pois é certo que ninguém pode vangloriar- se de escapar a estas palavras do Cristo: “Atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado”. A benevolência com que os tratamos é um alívio para eles. Em falta de simpatia, precisam encontrar em nós a indulgência que desejaríamos que tivessem para conosco. Os Espíritos que revelam a sua inferioridade pelo cinismo da linguagem, pelas maneiras, pela baixeza dos sentimentos, pela perfídia dos conselhos, são, indubitavelmente, menos dignos do nosso interesse, do que aqueles cujas palavras atestam o seu arrependimento, mas, pelo menos, devemos-lhe a piedade que nos inspiram os maiores criminosos. O meio de os reduzirmos ao silêncio consiste em nos mostrarmos superiores a eles, que só confiam nas pessoas de quem nada tenham a temer, pois os Espíritos perversos reconhecem a superioridade dos homens de bem, como reconhecem a primazia dos Espíritos superiores. Em resumo, seria tão irreverente tratarmos os Espíritos superiores de igual para igual, quanto ridículo dispensarmos a todos, sem exceção, a mesma deferência. Tenhamos veneração para os que a merecem, reconhecimento para os que nos protegem e assistem e, para todos os demais, a benevolência de que talvez um dia venhamos a necessitar. Penetrando no mundo incorpóreo, aprendemos a conhecê-lo e esse conhecimento nos deve guiar em nossas relações com os que o habitam. Os Antigos, na sua ignorância, levantaram-lhes altares; para nós, eles são apenas criaturas mais ou menos perfeitas, e hoje só erguemos altares a Deus.
TAG Valor
Parte Segunda
Nome do Capítulo Evocações
Tema Linguagem a ser usada com os Espíritos
Item 280