As comunicações que se obtêm dos Espíritos muito elevados, ou dos que animaram grandes personagens da Antiguidade, são preciosas pelos altos ensinamentos que encerram. Esses Espíritos conquistaram um grau de perfeição que lhes permite abranger um campo de ideias muito mais extenso, penetrar mistérios que escapam ao alcance vulgar da Humanidade e, por conseguinte, iniciar-nos melhor do que outros em certas coisas. Não se segue daí que sejam inúteis as comunicações dos Espíritos de ordem menos elevada; delas o observador pode colher muitas instruções. Para se conhecerem os costumes de um povo, é preciso estudá-lo em todos os graus da escala. Mal o conhece quem não o tenha visto senão por uma face. A história de um povo não é a dos seus reis, nem a das suas sumidades sociais; para julgá-lo, é preciso vê-lo na vida íntima, em seus hábitos particulares.
Ora, os Espíritos superiores são as sumidades do mundo espiritual. A própria elevação em que se acham os coloca de tal modo acima de nós que nos assustamos com a distância que deles nos separa. Espíritos mais burgueses — que nos perdoem esta expressão — nos tornam mais palpáveis as circunstâncias da nova existência em que se encontram. Neles, a ligação entre a vida corpórea e a vida espiritual é mais íntima, compreendemo-la melhor, pois ela nos toca mais de perto. Aprendendo, pelo que eles nos dizem, em que se tornaram, em que pensam e o que experimentam os homens de todas as condições e de todos os caracteres, tanto os homens de bem como os viciosos, os grandes e os pequenos, os felizes e os infelizes do século, em suma, os homens que viveram entre nós, os que vimos e conhecemos, os de quem sabemos a vida real, as virtudes e os erros, torna-se mais fácil lhes compreendermos as alegrias e os sofrimentos, partilharmos de umas e de outros e tirarmos de ambos um ensinamento moral tanto mais proveitoso quanto mais estreitas forem as nossas relações com eles. Pomo-nos mais facilmente no lugar daquele que foi nosso igual, no que no de outro que apenas divisamos através da miragem de uma glória celestial. Os Espíritos vulgares nos mostram a aplicação prática das grandes e sublimes verdades, cuja teoria os Espíritos superiores nos ministram. Aliás, nada é inútil no estudo de uma ciência. Newton achou a lei das forças do Universo no mais simples dos fenômenos.
A evocação dos Espíritos vulgares tem, além disso, a vantagem de nos pôr em contato com Espíritos sofredores, que podemos aliviar e cujo adiantamento podemos facilitar, por meio de bons conselhos. Todos, pois, nos podemos tornar úteis, ao mesmo tempo que nos instruímos. Há egoísmo naquele que só procura satisfação nas manifestações dos Espíritos, e dá prova de orgulho o que deixa de estender as mãos em socorro dos infelizes. De que lhe serve obter belas comunicações dos Espíritos de escol, se isso não o torna melhor para consigo mesmo, nem mais caridoso e benevolente para com seus irmãos deste mundo e do outro? Que seria dos pobres doentes se os médicos se recusassem a tocar suas chagas?