A inteligência do homem é uma propriedade da matéria; nasce e morre com o organismo. O homem nada é antes, nem depois da vida corporal.
Consequências. Sendo o homem apenas matéria, os gozos materiais são as únicas coisas reais e desejáveis; as afeições morais carecem de futuro; os laços morais, a morte os quebra sem remissão e para as misérias da vida não há compensação; o suicídio vem a ser o fim racional e lógico da existência, quando não se pode esperar atenuação para os sofrimentos; inútil qualquer constrangimento para vencer os maus pendores; viver cada um para si o melhor possível, enquanto aqui estiver; estupidez vexar-se e sacrificar o repouso, o bem-estar por causa de outros, isto é, por causa de seres que a seu turno serão aniquilados e que ninguém tornará a ver; deveres sociais sem fundamento, o bem e o mal meras convenções; por freio social unicamente a força material da lei civil.
Nota – Não será talvez inútil lembrar aqui, aos nossos leitores, algumas passagens
do artigo O materialismo e o Direito que publicamos na Revista de agosto de 1868.
Exibindo-se como não o tinha feito em nenhuma outra época e se apresentando
como supremo regulador dos destinos morais da Humanidade, o materialismo teve
por efeito apavorar as massas pelas consequências inevitáveis de suas doutrinas para
a ordem social. Por isto mesmo provocou, em favor das ideias espiritualistas, uma
enérgica reação, que deve provar-lhe que está longe de ter simpatias tão gerais quanto supõe, e que se ilude singularmente se espera um dia impor suas leis ao mundo.
Seguramente as crenças espiritualistas dos tempos passados são insuficientes para
este século; elas não estão no nível intelectual da nossa geração; sobre muitos pontos estão em contradição com os dados positivos da Ciência; deixam no espírito
um vazio incompatível com a necessidade do positivo que domina na sociedade
moderna; além disso, cometem o erro imenso de se imporem pela fé cega e de
proscreverem o livre-exame. Daí, sem a menor dúvida, o desenvolvimento da incredulidade no maior número; é muito evidente que se os homens não fossem
alimentados, desde a infância, senão por ideias susceptíveis de serem confirmadas
mais tarde pela razão, não haveria incrédulos. Quantas pessoas, reconduzidas à
crença pelo Espiritismo, nos disseram: “Se sempre nos tivessem apresentado Deus,
a alma e a vida futura de maneira racional, jamais teríamos duvidado!”
Pelo fato de um princípio receber uma aplicação má ou falsa, segue-se que se deva
rejeitá-lo? Isto acontece com coisas espirituais, como com a legislação de todas as
instituições sociais: é necessário apropriá-las aos tempos, sob pena de sucumbir.
Mas em vez de apresentar algo de melhor que o velho espiritualismo clássico, o
materialismo preferiu tudo suprimir, o que o dispensava de procurar, e parecia mais
cômodo àqueles a quem importuna a ideia de Deus e do futuro. Que pensariam de
um médico que, achando que o regime de um convalescente não é bastante substancial para o seu temperamento, lhe prescrevesse não comer absolutamente nada?
O que é de admirar é encontrar na maioria dos materialistas da escola moderna
esse espírito de intolerância levado aos últimos limites, logo eles que reivindicam
sem cessar o direito de liberdade de consciência. [...]
Há, neste momento, da parte de certo partido, uma oposição furibunda contra
as ideias espiritualistas em geral, nas quais o Espiritismo se acha naturalmente englobado. O que ele busca não é um Deus melhor e mais justo, é o Deus matéria,
menos constrangedor, porque não tem que lhe dar contas. Ninguém contesta a
esse partido o direito de ter sua opinião, de discutir as opiniões contrárias, mas o
que não se lhe poderia conceder é a pretensão, no mínimo singular, para homens
que se apresentam como apóstolos da liberdade, de impedir que os outros creiam
à sua maneira e de discutir as doutrinas que não partilham. Intolerância por intolerância, uma não vale mais que a outra.