II
Em nossas relações com os invisíveis há também meios de reconhecimento para distinguir os bons Espíritos das almas atrasadas. Os sensitivos reconhecem facilmente a natureza dos fluidos, que nos Espíritos bons são sutis, agradáveis, e nos maus são violentos, glaciais, custosos de suportar. Um dos nossos médiuns anunciava sempre com antecipação a chegada do “Espírito azul”, cuja presença era revelada por vibrações harmoniosas e radiações brilhantes.(33) Outros há que certos médiuns distinguem pelo cheiro. Delicados e suaves nuns,(34) são esses cheiros repugnantes noutros. Avalia-se a elevação de um Espírito pela pureza dos seus fluidos, pela beleza da sua forma e da sua linguagem. Nessa ordem de investigações, o que mais impressiona, persuade e convence são as conversas travadas com os nossos parentes e amigos que nos precederam na vida do espaço. Quando provas incontestáveis de identidade nos têm dado a certeza da sua presença, quando a intimidade de outrora, a confiança e a familiaridade reinam de novo entre eles e nós, as revelações, que nessas condições se obtêm, tomam um caráter dos mais sugestivos. Diante delas, as últimas hesitações do cepticismo dissipam-se forçosamente, dando lugar aos impulsos do coração. É possível, na realidade, resistir às vozes, aos chamamentos daqueles que compartilharam a nossa vida e cercaram os nossos primeiros passos de terna solicitude, dos companheiros da nossa infância, da nossa juventude, da nossa virilidade que, um por um, se sumiram na morte, deixando, ao partir, mais solitário, mais desolado o nosso caminho? No transe eles voltam com atitudes, inflexões de voz, evocações de lembranças, com milhares e milhares de provas de identidade, banais nas suas particularidades para os estranhos, tão comovedoras, entretanto, para os interessados! Dão-nos instruções relativas aos problemas do Além, exortam-nos e consolam-nos. Os homens mais fleumáticos, os mais doutos experimentadores, como o professor Hyslop, não puderam resistir às influências de além-túmulo.(35) Demonstra isso que no Espiritismo não há tão-somente, como o pretendem alguns, práticas frívolas e abusivas, mas que nele se encontra um móvel nobre e generoso, isto é, a afeição pelos nossos mortos, o interesse que temos pela sua memória. Não é esse um dos lados mais respeitáveis da natureza humana, um dos sentimentos, uma das forças que elevam o homem acima da matéria e estabelecem a diferença entre ele e os irracionais? Depois, a par disso, acima das exortações comovidas dos nossos parentes, devemos assinalar os surtos poderosos dos gênios do espaço, as páginas escritas febrilmente, na meia obscuridade, por médiuns do nosso conhecimento, incapazes de compreender-lhes o valor e a beleza, páginas em que o esplendor do estilo se alia à profundeza das idéias, ou então os discursos impressionantes, como muitas vezes ouvimos em nosso grupo de estudos, discursos pronunciados pelo órgão de um médium de saber e caráter modestos e em que um Espírito discorria, falando-nos do eterno enigma do mundo e das leis que regem a vida espiritual. Aqueles que tiveram a honra de assistir a essas reuniões sabem qual a influência penetrante que elas exerciam em todos nós. Apesar das tendências cépticas e do espírito zombador dos homens da nossa geração, há acentos, formas de linguagem, rasgos de eloqüência aos quais eles não poderiam resistir. Os mais prevenidos seriam obrigados a reconhecer neles o característico, o sinal incontestável de uma grande superioridade moral, o cunho da verdade. Na presença desses Espíritos, que por momentos desceram ao nosso mundo obscuro e atrasado, para nele fazerem brilhar uma fulguração do seu gênio, o criticismo mais exigente turba-se, hesita e cala-se. Durante oito anos recebemos, em Tours, comunicações dessa ordem, que tocavam todos os grandes problemas, todas as questões importantes de filosofia e de moral. Formavam muitos volumes manuscritos. O resumo desse trabalho, demasiadamente extenso, de texto copioso demais para ser publicado na íntegra, quisera-o eu apresentar aqui. Jerônimo de Praga, o meu amigo, o meu guia do presente e do passado, o Espírito magnânimo que dirigiu os primeiros vôos da minha inteligência infantil em idades remotas, é seu autor. Quantos outros Espíritos eminentes não espalharam assim os seus ensinamentos pelo mundo, na intimidade de alguns grupos! Quase sempre anônimos, revelam-se apenas pelo alto valor das suas concepções. Foi-me dado soerguer alguns dos véus que encobriam a sua verdadeira personalidade. Devo, porém, guardar segredo, porque a fina flor dos Espíritos se distingue precisamente pela particularidade de se esconder sob designações emprestadas e querer ficar ignorada. Os nomes célebres que subscrevem certas comunicações, chãs e vazias, não são, na maioria dos casos, mais do que um engodo. Quis com esses pormenores demonstrar que esta obra não é exclusivamente minha, que é, antes, o reflexo de um pensamento mais elevado que procuro interpretar. Está de acordo em todos os pontos essenciais com as vistas expressas pelos instrutores de Allan Kardec; todavia, pontos que eles deixaram obscuros, nela começam a ser discutidos. Tive também em consideração o movimento do pensamento e da ciência humana, de suas descobertas, e o cuidado de assinalá-los nesta obra. Em certos casos, acrescentei-lhe as minhas impressões pessoais e os meus comentários, porque, no Espiritismo, nunca é demais dizê-lo, não há dogmas e cada um dos seus princípios pode e deve ser discutido, julgado, submetido ao exame da razão. Considerei como um dever conseguir que desses ensinamentos tirassem proveito os meus irmãos da Terra. Uma obra vale pelo que é. Seja o que for que pensem e digam da Revelação dos Espíritos, não posso admitir que, quando em todas as Universidades se ensinam sistemas metafísicos arquitetados pelo pensamento dos homens, se possa desatender e rejeitar os princípios divulgados pelas nobres Inteligências do espaço. A nossa estima aos mestres da razão e da sabedoria humana não é motivo para deixarmos de dar o devido apreço aos mestres da razão sobre-humana, aos representantes de uma sabedoria mais alta e mais grave. O espírito do homem, comprimido pela carne, privado da plenitude dos seus recursos e percepções, não pode chegar de per si ao conhecimento do universo invisível e de suas leis. O círculo em que se agitam a nossa vida e o nosso pensamento é limitado, assim como é restrito o nosso ponto de vista. A insuficiência dos dados que possuímos torna toda a nossa generalização impossível. Para penetrarmos no domínio desconhecido e infinito das leis, precisamos de guias. Com a colaboração dos pensadores eminentes dos dois mundos, das duas humanidades, é que alcançaremos as mais altas verdades, ou pelo menos chegaremos a entrevê-las, e que serão estabelecidos os mais nobres princípios. Muito melhor e com muito mais segurança do que os nossos mestres da Terra, os do espaço sabem pôr-nos em presença do problema da vida e do mistério da alma e, igualmente, ajudar-nos a adquirir a consciência da nossa grandeza e do nosso futuro. Às vezes fazem-nos uma pergunta, opõem-nos uma nova objeção. Em vista da infinita variedade das comunicações e da liberdade que cada um tem de apreciá-las, de verificá-las à sua vontade, que há de ser, dizem-nos, da unidade de doutrina, essa unidade poderosa que tem feito a força, a grandeza das religiões sacerdotais e lhes tem assegurado a duração? O Espiritismo, já o dissemos, não dogmatiza; não é uma seita nem uma ortodoxia. É uma filosofia viva, patente a todos os espíritos livres, e que progride por evolução. Não faz imposições de ordem alguma; propõe e sua proposta apóia-se em fatos de experiência e provas morais; não exclui nenhuma das outras crenças, mas se eleva acima delas e abraça-as numa fórmula mais vasta, numa expressão mais elevada e extensa da verdade. As Inteligências superiores abrem-nos o caminho, revelam-nos os princípios eternos, que cada um de nós adota e assimila, na medida da sua compreensão, consoante o grau de desenvolvimento atingido pelas faculdades de cada um na sucessão das suas vidas. Em geral, a unidade de doutrina é obtida unicamente à custa da submissão cega e passiva a um conjunto de princípios, de fórmulas fixadas em moldes inflexíveis. É a petrificação do pensamento, o divórcio da Religião e da Ciência, a qual não pode passar sem liberdade e movimento. Essa imobilidade, esta inflexibilidade dos dogmas priva a Religião, que a si mesma as impõe, de todos os benefícios do movimento social e da evolução do pensamento. Considerando-se como a única crença boa e verdadeira, chega ao ponto de proscrever tudo o que está fora dela e empareda-se assim numa tumba para dentro da qual quisera arrastar consigo a vida intelectual e o gênio das raças humanas. O que o Espiritismo mais toma a peito é evitar as funestas conseqüências da ortodoxia. A sua revelação é uma exposição livre e sincera de doutrinas, que nada têm de imutáveis, mas que constituem um novo estádio no caminho da verdade eterna e infinita. Cada um tem o direito de analisar-lhe os princípios, que apenas são sancionados pela consciência e pela razão. Mas, adotando-os, deve cada um conformar com eles a sua vida e cumprir as obrigações que deles derivam. Quem a eles se esquiva não pode ser considerado como adepto verdadeiro. Allan Kardec colocou-nos sempre de sobreaviso contra o dogmatismo e o espírito de seita; recomenda-nos sem cessar, nas suas obras, que não deixemos cristalizar o Espiritismo e evitemos os métodos nefastos, que arruinaram o espírito religioso das criaturas.
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Título O critério da Doutrina dos Espíritos
Parte Primeira
Título da Parte O Problema do Ser