Em nenhuma época da História o homem pôde subtrair-se aos grandes problemas do ser, da vida, da morte, da dor. Apesar da sua impotência para resolvê-los, eles o têm preocupado incessantemente, voltando sempre com mais força, todas as vezes que ele tenta afastá-los, insinuando-se em todos os acontecimentos de sua vida, em todos os escaninhos do seu entendimento; batendo, por assim dizer, às portas da sua consciência. E quando uma nova fonte de ensinamentos, de consolação, de forças morais, quando vastos horizontes se abrem ao pensamento, como poderia ele ficar indiferente? Não ocorrerá conosco a mesma coisa que se passa com os nossos parentes? Não é, pois, nossa sorte futura, nossa sorte de amanhã que está em litígio?
Pois quê! O tormento e a angústia do desconhecido que afligem a alma através dos tempos, a intuição confusa de um mundo melhor, pressentido, desejado, a procura ansiosa de Deus e da sua justiça podem ser, em nova e mais larga medida, acalmados, esclarecidos, satisfeitos, e havíamos de desprezar os meios de o fazer? Não há nesse desejo, nessa necessidade, que o pensamento tem de sondar o grande mistério, um dos mais belos privilégios do ser humano? Não é isso o que constitui a dignidade, a beleza, a razão de ser da sua vida?
Não se tem visto, todas as vezes que temos desconhecido esse direito, esse privilégio, todas as vezes que temos renunciado por algum tempo a volver as vistas para o Além, a dirigir os pensamentos para uma vida mais elevada, o havermos querido restringir o horizonte; não se tem visto, concomitantemente, se agravarem as misérias morais, o fardo da existência cair com maior peso sobre os ombros dos desgraçados, o desespero e o suicídio aumentarem a área da sua devastação e as sociedades se encaminharem para a decadência e para a anarquia?
Há outro gênero de objeção: a filosofia espírita, dizem, não tem consistência; as comunicações em que se funda provêm as mais das vezes do médium, do seu próprio inconsciente, ou, então, dos assistentes. O médium em transe “lê no espírito dos consulentes as doutrinas que aí se acham acumuladas, doutrinas ecléticas, tomadas de todas as filosofias do mundo e, principalmente, do hinduísmo”.
Refletiu bem o autor dessas linhas nas dificuldades que tal exercício deve apresentar? Seria capaz de explicar os processos com cuja intervenção se pode ler, à primeira vista, no cérebro de outrem, as doutrinas que nele estão “acumuladas”? Se pode, faça-o; então, teremos fundamentado para ver, nas suas alegações, tão-somente palavras, nada mais do que palavras, empregadas levianamente e ao serviço de uma crítica apaixonada. Aquele que não quer parecer enganar-se com os sentimentos é muitas vezes logrado pelas palavras. A incredulidade sistemática num ponto torna-se às vezes credulidade ingênua em outro.(28)
Lembraremos, antes de tudo, que as opiniões da maior parte dos médiuns, no princípio das manifestações, eram opostas inteiramente às opiniões enunciadas nas comunicações. Quase todos haviam recebido educação religiosa e estavam imbuídos das idéias de paraíso e inferno. As suas idéias acerca da vida futura, quando as tinham, diferiam sensivelmente das que os Espíritos expunham, o que, ainda hoje, é o caso mais freqüente; era o que sucedia com três médiuns do nosso grupo, senhoras católicas e dadas às respectivas práticas, que, apesar dos ensinos filosóficos que recebiam e transmitiam, nunca renunciaram completamente aos seus hábitos cultuais.(29)
Quanto aos assistentes, ouvintes, ou às pessoas designadas pelo nome de “consulentes”, não olvidemos tampouco que, ao alvorecer do Espiritismo na França, isto é, na época de Allan Kardec, os homens que possuíam noções de filosofia, quer oriental, quer druídica, comportando a teoria das transmigrações ou vidas sucessivas da alma, eram em pequeno número e tornava-se preciso ir procurá-los no seio das academias ou em alguns centros científicos muito retraídos.
Aos nossos contraditores perguntaremos como teria sido possível a médiuns inumeráveis, espalhados em toda a superfície da Terra, desconhecidos uns dos outros, constituírem sozinhos as bases de uma doutrina, com solidez bastante para resistir a todos os ataques, a todos os assaltos; assaz exata para que os seus princípios tenham sido confirmados e recebam todos os dias a confirmação da experiência, como o mostramos no princípio deste capítulo.
A respeito da sinceridade das comunicações medianímicas e do seu alcance filosófico, vamos citar as palavras de um orador, cujas opiniões não parecerão suspeitas a todos aqueles que conhecem a aversão que a maior parte dos eclesiásticos tem ao Espiritismo.
Num sermão pronunciado a 7 de abril de 1899, em Nova Iorque, o reverendo J. Savage, pregador de fama, dizia:
“Formam legião as supostas patacoadas que, dizem, vêm do outro mundo, ao mesmo tempo em que existe uma literatura moral completa das mais puras e de ensinos espiritualistas incomparáveis. Sei de um livro, cujo autor, diplomado de Oxford, pastor da Igreja inglesa, veio a ser espírita e médium.(30) Esse livro foi escrito automaticamente. Às vezes, para desviar o pensamento do trabalho que a mão executava, o autor lia Platão em grego e o seu livro, contrariamente ao que, em geral, se admite para obras desse gênero, achava-se em oposição absoluta às próprias crenças religiosas do autor, se bem que ele se tivesse convertido antes de o haver concluído. Essa obra contém ensinamentos morais e espirituais dignos de qualquer das Bíblias que existem no mundo.
As primeiras idades do Cristianismo eram (basta que leais São Paulo para vos recordardes) compostas de gente com quem as pessoas de consideração nada queriam ter em comum. O Espiritualismo moderno estreou por uma forma semelhante; mas, à sombra da sua bandeira enfileiram-se em nossos dias muitos nomes de fama e encontram-se os homens melhores e mais inteligentes. Lembrai-vos, pois, de que é, em geral, um grande movimento muito sincero.” (31) No seu discurso, o reverendo Savage soube dar a cada coisa o
seu lugar. É certo que as comunicações medianímicas não
oferecem todas o mesmo grau de interesse. Muitas há que são
um conjunto de banalidades, de repetições, de lugares comuns.
Nem todos os Espíritos têm capacidade para nos dar
ensinamentos úteis e profundos. Como na Terra, e mais ainda, a
escala dos seres no espaço comporta graus infinitos. Ali se
encontram as mais nobres inteligências, como as almas mais
vulgares, mas, às vezes, os próprios Espíritos inferiores,
descrevendo a sua situação moral, as suas impressões à hora da
morte e no Além, iniciando-nos nas particularidades da sua nova
existência, fornecem materiais preciosos para determinarmos as
condições da sobrevivência segundo as diversas categorias de
Espíritos. Podemos, pois, em nossas relações com os Invisíveis,
granjear elementos de instrução; todavia, nem tudo se deve
aproveitar. Ao experimentador prudente e sagaz incumbe saber
separar o ouro da ganga. A verdade não nos chega sempre pura e
a ação do Alto deixa às faculdades e à razão do homem o campo
necessário para se exercitarem e desenvolverem.
Em tudo isso é preciso andar com todas as cautelas, a tudo aplicar contínuo e atento exame,(32) precaver-se contra as fraudes, conscientes ou inconscientes, e ver se não há, nas mensagens escritas, um simples caso de automatismo. Para isso, convém averiguar se as comunicações são, pela forma e pelo fundo, superiores às capacidades do médium. É preciso exigir, da parte dos manifestantes, provas de identidade e não abrir mão de todo o rigor, senão nos casos em que os ensinamentos, em virtude da sua superioridade e majestosa amplitude, se impõem por si mesmos e estão muito acima das faculdades do transmissor.
Uma vez reconhecida a autenticidade das comunicações, é preciso ainda comparar entre si e submeter a exame severo os princípios científicos e filosóficos que elas expõem e aceitar somente os pontos em que há quase unanimidade de vistas.
Além das fraudes de origem humana, há também as mistificações de origem oculta. Todos os experimentadores sérios sabem que existem duas espécies de Espiritismo: um, praticado a torto e a direito, sem método, sem elevação de pensamento, atrai para nós os basbaques do espaço, os Espíritos levianos e zombeteiros, que são numerosos na atmosfera terrestre; o outro, de mais circunspeção, praticado com seriedade, com sentimento respeitoso, põe-nos em relação com os Espíritos adiantados, desejosos de socorrer e esclarecer aqueles que os chamam com fervor de coração. É o que as religiões têm conhecido e designado pelo nome de comunicação dos santos.
Pergunta-se também: como se pode distinguir, na vasta massa das comunicações, cujos autores são invisíveis, o que provém das entidades superiores e deve ser conservado? Para essa pergunta há uma só resposta. Como distinguimos nós os bons e maus livros dos autores falecidos há muito tempo? Como distinguir uma linguagem nobre e elevada de uma linguagem banal e vulgar? Não temos nós um estalão, uma regra para aquilatar os pensamentos, provenham eles do nosso mundo ou do outro? Podemos julgar as mensagens medianímicas principalmente pelos seus efeitos moralizadores, que inúmeras vezes têm melhorado muitos caracteres e purificado muitas consciências. É esse o critério mais seguro de todo o ensino filosófico.