Discurso do Sr. Allan Kardec
Se os inimigos externos nada podem contra o Espiritismo, o mesmo não acontece com os de dentro. Refiro-me aos que são mais espíritas de nome que de fato, sem falar dos que do Espiritismo apenas têm a máscara. O mais belo lado do Espiritismo é o lado moral. É por suas conseqüências morais que triunfará, pois aí está a sua força, por aí é invulnerável. Ele inscreve em sua bandeira: Amor e caridade; e diante desse paládio, mais poderoso que o de Minerva, porque vem do Cristo, a própria incredulidade se inclina. Que se pode opor a uma doutrina que leva os homens a se amarem como irmãos? Se não se admitir a causa, pelo menos se respeitará o efeito. Ora, o melhor meio de provar a realidade do efeito é fazer sua aplicação a si mesmo; é mostrar aos inimigos da doutrina, pelo próprio exemplo, que ela realmente torna melhor. Mas como fazer crer que um instrumento possa produzir harmonia se emite sons discordantes? Do mesmo modo, como persuadir que o Espiritismo deve conduzir à concórdia, se os que o professam, ou supostamente o praticam – o que para os adversários dá no mesmo – se atiram pedras? Se basta uma simples susceptibilidade do amor-próprio para os dividir? Não é o meio de rejeitar seu próprio argumento? Os mais perigosos inimigos do Espiritismo são, pois, os que o fazem mentir a si mesmos, não praticando a lei que proclamam. Seria pueril criar dissidência pelas nuanças de opinião; haveria evidente malevolência, esquecimento do primeiro dever do verdadeiro espírita, em separar-se por uma questão pessoal, porquanto o sentimento de personalidade é fruto do orgulho e do egoísmo. Não devemos esquecer, senhores, que os inimigos do Espiritismo são de duas ordens: de um lado, tendes os zombadores e os incrédulos. Estes recebem diariamente o desmentido pelos fatos; não os temeis e tendes razão. Sem o querer, servem à nossa causa e, por isso, lhes devemos agradecer. Do outro lado estão as pessoas interessadas em combater a doutrina; não espereis trazê-las pela persuasão, pois não buscam a luz. Em vão exibireis aos seus olhos a evidência do sol: são cegos porque não querem ver. Não vos atacam porque estejais no erro, mas porque estais com a verdade e, com ou sem razão, crêem que o Espiritismo seja prejudicial aos seus interesses materiais. Se estivessem convencidos de que é uma quimera, o deixariam em paz. Assim, sua fúria cresce na razão do progresso da doutrina, de tal sorte que se pode medir sua importância pela violência dos ataques. Enquanto não viram no Espiritismo senão uma brincadeira de mesas girantes, nada disseram, confiando tratar-se de um capricho da moda; mas, hoje, que a despeito de sua má vontade, vêem a insuficiência da zombaria, empregam outros meios. Sejam estes quais forem, já demonstramos a sua impotência. Contudo, se não podem abafar essa voz que se eleva em todas as partes do mundo; se não podem deter essa torrente que os invade por todos os lados, tudo farão para criar entraves e, se puderem fazer recuar o progresso por um só dia, dirão ainda que é um dia ganho. Esperai, portanto, que o terreno seja disputado palmo a palmo, pois o interesse material é, de todos, o mais tenaz; para ele, os mais sagrados direitos da Humanidade nada são; tendes a prova na luta americana. Pereça a união que fazia nossa glória, antes que os nossos interesses!, dizem os escravagistas. Assim falam os adversários do Espiritismo, pois a questão humanitária é a menor de suas preocupações. Que lhes opor? Uma bandeira que os faça empalidecer, pois sabem que ela traz palavras saídas da boca do Cristo: Amor e caridade, e que estas palavras são a sua sentença. Em torno desta bandeira, que todos os verdadeiros espíritas se congreguem, e serão fortes, porquanto a união faz a força. Reconhecei, pois, os verdadeiros defensores de vossa causa, não pelas palavras vãs, que nada custam, mas pela prática da lei de amor e caridade, pela abnegação da personalidade; o melhor soldado não é o que ergue o sabre mais alto, mas o que sacrifica corajosamente a própria vida. Encarai, pois, como fazendo causa comum com vossos inimigos todos os que tendem a lançar entre vós o fermento da discórdia, porque, voluntária ou involuntariamente, fornecem armas contra vós. Em todo o caso, não conteis mais com eles do que com esses maus soldados, que fogem ao primeiro tiro de fuzil. Mas – perguntareis – se as opiniões estão divididas sobre alguns pontos da doutrina, como reconhecer de que lado está a verdade? É a coisa mais fácil. Primeiro, tendes por peso o vosso julgamento e por medida a lógica, sã e inflexível. Depois, tereis o assentimento da maioria, porque, acreditai bem, o número crescente ou decrescente dos partidários de uma idéia dá a medida de seu valor; se ela é falsa, não conquistará mais voto que a verdade: Deus não o permitiria; Ele pode deixar o erro à vista aqui e ali, para nos mostrar suas características e nos ensinar a reconhecê-lo. Sem isto, onde estaria o nosso mérito, se não tivéssemos escolha a fazer? Quereis um outro critério da verdade? Eis um, infalível. Desde que a divisa do Espiritismo é Amor e caridade, reconhecereis a verdade pela prática desta máxima, e tereis como certo que aquele que atira a pedra em outro não pode estar com a verdade absoluta. Quanto a mim, senhores, ouvistes a minha profissão de fé. Se – que Deus não o permita! – surgissem dissidências entre vós, digo-o com pesar, eu me separaria abertamente dos que desertassem da bandeira da fraternidade, porque, aos meus olhos, não poderiam ser encarados como verdadeiros espíritas. Aconteça o que acontecer, não vos inquieteis absolutamente com algumas dissidências passageiras; logo tereis a prova de que elas não têm conseqüências graves. São testes para a vossa fé e para o vosso julgamento; muitas vezes, também, são meios permitidos por Deus e pelos Espíritos bons para dar a medida da sinceridade e tornar conhecidos aqueles com os quais realmente podemos contar, caso necessário, evitando, assim, que os coloquemos em evidência. São pequenas pedras semeadas em vosso caminho, a fim de vos habituar a ver em que vos apoiais. Resta-me falar ainda, senhores, da organização da Sociedade. Desde que quereis pedir-me conselho, dir-vos-ei o que disse o ano passado em Lyon. Os mesmos motivos me levam a vos dissuadir, com todas as minhas forças, do projeto de formar uma Sociedade única, abrangendo todos os espíritas da cidade, o que seria de todo impraticável, em razão do número crescente dos adeptos. Não tardaríeis a serdes paralisados pelos obstáculos materiais e pelas dificuldades morais, ainda maiores, que vos mostrariam a sua impossibilidade. É preferível, pois, não empreenderdes uma coisa a que seríeis obrigados a renunciar. Todas as considerações em apoio a esta opinião estão completamente desenvolvidas na nova edição de O Livro dos Médiuns, à qual convido a vos reportardes. Não acrescentarei senão algumas palavras. O que é difícil de se obter numa reunião numerosa é bem mais fácil de conseguir nos grupos particulares. Estes se formam por afinidade de gostos, de sentimentos e de hábitos. Dois grupos separados podem ter uma diferente maneira de ver sobre alguns detalhes e nem por isso deixam de marchar de acordo, ao passo que se estivessem reunidos, as divergências de opiniões trariam inevitáveis perturbações. O sistema da multiplicação dos grupos ainda tem como resultado interromper bruscamente as rivalidades de supremacia e de direção. Cada grupo, naturalmente, é presidido pelo dono da casa ou pelo que for designado, e tudo se passa em família. Se a alta direção do Espiritismo, numa cidade, pertence a alguém, este será convocado pela força das coisas, e um consentimento tácito o designará muito naturalmente, em virtude de seu mérito pessoal, de suas qualidades conciliadoras, do zelo e do devotamento de que tiver dado provas, dos reais serviços que houver prestado à causa. Desse modo, terá adquirido, sem a buscar, uma força moral que ninguém pensará em lhe contestar, porque todos a reconhecerão, ao passo que aquele que, por sua autoridade privada, procurasse impor-se, ou fosse conduzido por uma camarilha, encontraria oposição da parte de todos quantos não lhe reconhecessem as qualidades morais necessárias. Daí uma causa inevitável de divisões. É uma coisa séria confiar a alguém a suprema direção da doutrina. Antes de o fazer, é preciso estar bem seguro desse indivíduo sob todos os pontos de vista, porque, com idéias errôneas, poderia arrastar a Sociedade por uma ladeira deplorável e, talvez, à sua ruína. Nos grupos particulares, cada um pode dar prova de habilidade e ser designado, mais tarde, pelos sufrágios dos colegas, se for o caso. Mas ninguém pode pretender ser general antes de ser soldado. Assim como reconhecemos o bom general por sua coragem e por seus talentos, o verdadeiro espírita é reconhecido por suas qualidades. Ora, a primeira de que deve dar provas é a abnegação da personalidade; é, pois, por seus atos que o reconhecemos, mais que pelas palavras. O que é necessário para uma tal direção é um verdadeiro espírita, e o espírita verdadeiro não se deixa mover pela ambição, nem pelo amor-próprio. A respeito, senhores, chamo a vossa atenção para as diversas categorias de espíritas, cujos caracteres distintivos estão claramente definidos em O Livro dos Médiuns (no 28).
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Mês Novembro
Ano 1861