Laboraríamos em erro se inferíssemos do que precede que os habitantes das diferentes esferas, do ponto de vista onde estão, lançam um olhar investigativo sobre o que se passa nos outros mundos, e que os acontecimentos que aí se realizam passam sob seus olhos como no campo de uma luneta. Aliás, cada mundo tem suas preocupações especiais, que cativam a atenção de seus habitantes, conforme suas próprias necessidades, seus costumes completamente diferentes e seu grau de adiantamento. Quando os Espíritos encarnados num planeta têm motivos pessoais para se interessarem pelo que se passa em outro mundo, ou por alguns dos que o habitam, sua alma para lá se transporta, como fez a de Lúmen, em estado de desprendimento, e então se tornam momentaneamente, a bem dizer, habitantes espirituais desse mundo, ou aí se encarnam em missão. Eis, pelo menos, o que resulta do ensinamento dos Espíritos.
Esta última parte do relato de Lúmen carece, pois, de exatidão; mas não se deve perder de vista que esta história não passa de uma hipótese, destinada a tornar mais acessíveis à inteligência e, de certo modo, palpáveis pela entrada em ação, da demonstração de uma teoria científica, como fizemos observar em nosso artigo precedente.
Chamamos a atenção para o parágrafo acima, no qual é dito que: “As grandes perturbações físicas e morais de um mundo produzem sobre os mundos vizinhos uma espécie de comoção íntima, como uma corda vibrante faz vibrar uma outra corda colocada a distância.” O autor, que em matéria de ciência não fala levianamente, anuncia aí um princípio que um dia bem poderia ser convertido em lei. A Ciência já admite, como resultado da observação, a ação recíproca material dos astros. Se, como se começa a suspeitar, esta ação, aumentada pelo fato de certas circunstâncias, pode ocasionar perturbações e cataclismos, nada haveria de impossível que essas mesmas perturbações tivessem seu contragolpe. Até o presente a Ciência considerou apenas o princípio material; mas, se se levar em conta o princípio espiritual como elemento ativo do Universo, e se se pensar que esse princípio é tão geral e tão essencial quanto o princípio material, conceber-se-á que uma grande efervescência deste elemento e as modificações que ele sofre num ponto dado possam ter sua reação, por força da correlação necessária que existe entre a matéria e o espírito. Há certamente nesta idéia o germe de um princípio fecundo e de um estudo sério para o qual o Espiritismo abre caminho.
Dissertações Espíritas