Alguém manifesta o desejo de evocar esse Espírito, mas nenhum dos médiuns presentes se interessa em servir-lhe de intérprete. A Srta. Eugénie, que também havia mostrado repugnância, tomou de repente o lápis num movimento involuntário e escreveu: 1. Não queres? Pois sim! Tu escreverás. Certamente pensas que não te dominarei. Eis-me aqui. Mas não te espantes tanto. Farei com que vejas minha força.
Nota – Nesse momento o Espírito faz a médium dar um grande murro na mesa e quebrar vários lápis.
2. Já que estais aqui, dizei por que motivo vos ligastes ao filho do Sr. R...
Resp. – Seria preciso, creio, que eu vos fizesse confidências! Antes de tudo, sabei que tenho grande necessidade de atormentar alguém. Um médium sensato me repeliria. Apego-me a um idiota, que não me opõe nenhuma resistência.
3. Nota – Alguém argumenta que, malgrado esse ato de covardia, esse Espírito não deixa de ter inteligência. Ele responde sem que lhe tenham perguntado diretamente: Resp. – Um pouco. Não sou tão tolo quanto pensais.
4. Que éreis quando vivo?
Resp. – Não era grande coisa; um homem que fez mais mal do que bem e que é cada vez mais punido.
5. Já que sois punido por ter feito mal, deveríeis compreender a necessidade de fazer o bem. Não desejais melhorar?
Resp. – Se quiserdes auxiliar-me, eu perderia menos tempo.
6. Não pedimos mais que isso, mas é necessário que tenhais vontade. Orai conosco, isto vos ajudará.
Resp. – (Aqui o Espírito dá uma resposta blasfema).
7. Basta! Não queremos ouvir mais. Esperávamos despertar em vós alguns sentimentos bons; foi com esse objetivo que vos chamamos. Mas desde que só respondeis à nossa benevolência com palavras vis, podeis retirar-vos.
Resp. – Ah! aqui esbarra a vossa caridade! Porque pude resistir um pouco, vejo que essa caridade logo pára; é que não valeis mais do que eu. Sim, poderíeis moralizar-me mais do que pensais, se soubésseis dar provas disso, primeiro no interesse do idiota que sofre, do pai que não se assusta muito e finalmente no meu, se assim vos agrada.
8. Dizei vosso nome, a fim de que possamos chamá-lo.
Resp. – Oh! meu nome pouco importa. Chamai-me, se quiserdes, o Espírito do jovem idiota.
9. Se vos quisemos fazer calar é porque dissestes uma palavra sacrílega.
Resp. – Ah! Ah! o senhor chocou-se! Para saber o que há na lama é preciso revolvê-la.
10. Alguém diz: Esta imagem é digna do Espírito: é ignóbil.
Resp. – Quereis poesia, moço? Ei-la: Para conhecer o perfume da rosa é preciso cheirá-la.
11. Já que dissestes que vos poderíamos auxiliar a vos tornardes melhor, um dos senhores presentes se oferece para vos instruir. Quereis atendê-lo quando vos evocar?
Resp. – Antes de tudo, quero ver se me convém.
(Depois de alguns instantes de reflexão acrescenta): Sim; irei.
12. Por que o filho do Sr. R... se enfurecia quando o Sr.
L... queria magnetizá-lo?
Resp. – Não era ele que se encolerizava; era eu.
13. Por quê?
Resp. – Não tenho nenhum poder sobre esse homem, razão por que não posso suportá-lo. Ele quer arrebatar-me aquele que tenho sob o meu domínio, e isso não admito.
14. Deveis perceber à vossa volta Espíritos mais felizes que vós. Sabeis por quê?
Resp. – Sei muito bem; eles são melhores do que eu.
15. Compreendeis então que, se ao invés de fazer o mal, fizésseis o bem, seríeis feliz como eles?
Resp. – Não desejava mais que isso; mas é difícil fazer o bem.
16. Talvez seja difícil para vós, mas não impossível.
Sabeis que a prece pode exercer grande influência em vossa melhoria?
Resp. – Não digo que não; pensarei nisso. Chamai-me algumas vezes.
Observação – Como se vê, esse Espírito não desmentiu o seu caráter. Entretanto, revelou-se menos recalcitrante no fim, o que prova não ser de todo inacessível ao raciocínio. Ele dispõe da solução, mas, para dominá-lo, é preciso um concurso de vontades que ora não existe. Isto deve ser um ensinamento para as pessoas que poderiam achar-se em casos semelhantes.
Sem dúvida esse Espírito é muito mau e pertence à ralé do mundo espírita. Pode-se dizer que é brutalmente mau, mas que em seres semelhantes há mais recursos que nos hipócritas.
Seguramente são muito menos perigosos que os Espíritos fascinadores que, auxiliados por certa dose de inteligência e uma falsa aparência de virtude, sabem inspirar a certas pessoas uma confiança cega em suas palavras, confiança de que cedo ou tarde serão vítimas, porquanto tais Espíritos jamais agem com vistas ao bem: têm sempre uma segunda intenção. Esperamos que O Livro dos Médiuns tenha como resultado pôr-nos em guarda contra suas sugestões, o que, certamente, não lhes agradará. Mas, como é fácil de ver, tão pouco nos inquietamos com a sua má vontade quanto com a dos Espíritos encarnados, que eles podem excitar contra nós.
Os Espíritos maus, tanto quanto os homens, não vêem com bons olhos aqueles que, desmascarando as suas torpezas, lhes tiram os meios de fazer o mal.
Ensino Espontâneo dos Espíritos DITADOS RECEBIDOS OU LIDOS NA SOCIEDADE POR VÁRIOS MÉDIUNS