Os três tipos
Há no mundo três tipos que serão eternos. Esses três tipos, grandes homens os pintaram tais quais eram em seu tempo; e adivinharam que existiriam sempre. Esses três tipos são, inicialmente, Hamlet, que diz para si mesmo: To be or not to be, that is the question; depois Tartufe, que resmunga preces enquanto medita no mal; por fim Don Juan, que a todos diz: Não creio em nada. Molière achou, sozinho, dois desses tipos; Aviltou Tartufe e fulminou Don Juan. Sem a verdade o homem fica na dúvida como Hamlet, sem consciência como Tartufe, sem coração como Don Juan. Hamlet está em dúvida, é verdade, mas procura, é infeliz, a incredulidade o acabrunha, suas mais doces ilusões se afastam cada vez mais, e esse ideal, essa verdade que ele persegue cai no abismo como Ofélia e fica perdida para sempre. Então enlouquece e morre como um desesperado; mas Deus o perdoará, porque teve coração, amou e foi o mundo que lhe roubou aquilo que queria conservar. Os outros dois tipos são atrozes, porque egoístas e hipócritas, cada um a seu modo. Tartufe toma a máscara da virtude, o que o torna odioso; Don Juan em nada crê, nem mesmo em Deus: só acredita em si mesmo. Jamais tivestes a impressão de ver, nesse famoso símbolo que é Don Juan e na estátua do Comendador, o cepticismo diante das mesas girantes? O corrompido Espírito humano frente à sua mais brutal manifestação? Até o presente o mundo não viu neles senão uma figura inteiramente humana. Credes que não se deve neles ver e sentir algo mais? Como o gênio inimitável de Molière não teve, nessa obra, o sentimento do bem-senso dos fatos espirituais, como o tinha sempre dos defeitos deste mundo! Gérard de Nerval
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Mês Janeiro
Ano 1861