Este é frio, impessoal, inteligente, culto. Maneja muito bem o sofisma, é excelente dialético, pensador sutil e aproveita-se de qualquer descuido ou palavra infeliz do doutrinador para procurar confundi-lo. Mostra-se amável, aparentemente tranquilo e sem ódios. Não se envolve diretamente com os métodos de trabalho das organizações trevosas, ou seja, não expede ordens, nem as executa; limita-se a estudar a problemática do caso e traçar os planos com extrema habilidade. Os planejadores são elementos altamente credenciados e respeitados na comunidade do crime invisível.
Tivemos vários casos dessa natureza. Citarei um.
Apresentou-se mansamente. Nada de gritos, de murros ou de violências. Sorria, até. Era um sacerdote, dizia-se muito importante e foi logo declarando que não era dos que executam, pois em sua organização o trabalho era bem distribuído. Aliás, informou, pertencia a outro setor de atividade, mas havia sido convidado — e gentilmente acedeu, por certo — para dar “parecer” sobre o caso de que estávamos cuidando, um complicado problema de obsessão. Consultara a lista de “baixas” que a organização solicitante havia sofrido, entendendo-se por “baixa”, naturalmente, aqueles que se deixaram converter à doutrina do amor, através da reeducação moral de que nos fala Kardec. Sente-se, evidentemente, muito envaidecido de sua brilhante inteligência e do poder e satisfação que isso lhe dá. Sua meta: restabelecer o prestígio da Igreja, muito abalado nestes últimos tempos. Acha que foi um mal sufocar o pensamento e não permitir que a razão imperasse na Igreja, que hoje estaria ainda dominando os homens. A certa altura, propõe um acordo entre dois lideres: ele e eu. Digo-lhe, com toda honestidade, que não sou líder e não tenho condições de negociar com ele; que procure meus superiores. Com o passar das semanas, ele verifica que o problema é mais complexo do que esperava, e se apresta a abandonar o caso, com o qual não pretende envolver-se, já que sua tarefa é noutra organização. Dar-nos-á uma trégua. Tem um momento de honesta candura, ou realismo, como queiram: acha-se um cínico, pois sempre desprezou, mesmo “em vida”, aqueles que, em elevadas posições hierárquicas, consultavam a ele, simples mortal, valendo-se de sua brilhante inteligência. É evidente, porém, que sente enorme satisfação ao recordar que, da sua “humilde” posição, manobrava os grandes, que lhe pediam conselhos e sugestões, porque já àquele tempo era um hábil articulador.
Há um post scriptum a esta narrativa: a conversão deste companheiro representou uma perda irreparável para as hostes das sombras, porque os impetuosos e agressivos chefes, e os executores teleguiados, sentem-se sem condições de estudar meticulosamente e traçar friamente um plano de trabalho que se desdobre como vasta e complexa operação de um xadrez psicológico.
É preciso prever reações, estudar personalidades, propor concessões e arquitetar alternativas e opções, em caso de alguma falha ou mudança de condições básicas. Nada pode ser deixado ao
acaso, à improvisação, ao impulso. Por isso, os planejadores gozam de enorme prestígio e respeito nas organizações trevosas.
Pelas reações de irmãos, também desequilibrados, que se apresentaram posteriormente ao nosso grupo, para tratamento, soubemos da perda irreparável que representou, para as hostes da sombra, o despertamento desse companheiro. Seus comparsas compareciam dispostos a tudo para resgatá-lo, pois julgavam-no nosso prisioneiro. É preciso compreender bem tais reações.
Os irmãos desorientados empenham-se em verdadeiras campanhas belicosas, nas quais tudo vale e tudo é permitido, desde que os fins sejam alcançados. Formam suas estruturas organizacionais segundo as afinidades, por certo, mas, acima de tudo, segundo os interesses que tenham em comum. Para alcançarem os objetivos que têm em mira, organizam verdadeiro estado- maior de lideres brilhantes, experimentados e audaciosos. Toda campanha é estudada, planejada e executada com precisão militar e dentro de rigoroso regime disciplinar, onde não se admite o fracasso. Quem falhar perde a proteção de que desfruta, por achar-se ligado à organização poderosa, que domina pelo terror impiedoso, destemido, agressivo, implacável. Eles sabem muito bem que, ao desligarem-se da organização, estarão sozinhos diante de seus próprios problemas pessoais.
Nessas estruturas rígidas, o planejador exerce função importantíssima, porque é dos poucos, ali, que conservam a cabeça fria para conceber os planos estratégicos indispensáveis. Seus companheiros de direção costumam ser impetuosos homens de ação, que se entregam facilmente ao impulso desorientado de partir para a ação pessoal isolada, se não tiverem quem os contenha dentro de um inteligente planejamento global, que proteja não apenas os interesses de cada um dos componentes, isoladamente, mas também a segurança da organização. O planejador é o poder moderador, dotado de habilidade bastante para demonstrar, e provar aos “cabeças-quentes”, que o interesse coletivo precisa sobrepor-se ao individual, por mais forte que seja este. É preciso que cada componente da sinistra máfia espiritual compreenda que os casos pessoais de cada um — vinganças, perseguições, conquistas de posições —passam a constituir objeto de cogitação coletiva, e, como tal, têm que esperar a vez e a oportunidade, submetendo-se à mesma estratégia: estudo, planejamento e ação, tudo a tempo e hora. Nada de ações isoladas, atabalhoadas, que desperdiçam esforços e põem em risco a segurança da comunidade. Tudo se fará no tempo devido, e todos têm direito à utilização dos recursos da organização: seus técnicos, seus instrumentos, seus “soldados” e trabalhadores de toda a natureza. No interesse de todos, portanto, a coisa tem que funcionar com muita precisão e firmeza. O planejador é, pois, figura importantíssima na ordenação dessas tarefas maquiavélicas. Sua perda acarreta uma desorientação geral. É difícil, senão impossível, para os companheiros que permanecem na organização das sombras, admitir que alguém tão lúcido e brilhante se tenha deixado convencer por um doutrinador encarnado.
Como não conseguem admitir isso, somente podem concluir pela alternativa mais viável: o companheiro foi sequestrado, violentado em sua vontade e levado prisioneiro para alguma perdida masmorra. É preciso reunir forças e desencadear uma ação fulminante para resgatá-lo. Por isso, logo após a perda de um elemento importante — planejador ou executor —, fatalmente comparece ao grupo um truculento representante das trevas, para levá-lo “de qualquer maneira”. É hora, então, da ameaça, dos gritos, dos murros, ou então, dos conchavos, das ofertas de trégua. A essa altura, porém, já estão agindo à base do impulso emocional, que nunca foi bom conselheiro, ainda mais em situações de crise. É quando mais precisam de um competente planejador. E o desespero de não tê-lo leva ao desvario, que muitas vezes os deixa completamente desarvorados.
Daí a importância que os trabalhadores do bem conferem aos planejadores. Daí o prestígio e o respeito que esses brilhantes estrategistas gozam nas comunidades trevosas. Os líderes militares
são bons na ação, mas quase nunca dispõem de condições para estudar meticulosamente e traçar fria-mente um plano de trabalho, que se desdobre como vasta e complexa operação de um xadrez psicológico. Não estão lidando mais com dados concretos, como no tempo em que exerciam tais funções na Terra. Não basta preparar soldados e equipamentos, estudar o terreno, comprar armamentos e entrar em ação. A tarefa é muito mais sutil, porque envolve inúmeros fatores imponderáveis, que subitamente emergem da imprevisível condição humana. É preciso prever tais reações, estudar personalidades, propor concessões e arquitetar alternativas e opções, na eventualidade de alguma falha ou mudança das condições básicas inicialmente articuladas. Nada pode ser deixado ao acaso, à improvisação, ao impulso.
Há pouco, falava um desses líderes das trevas sobre a sofisticação da sua aparelhagem.
Andaram gravando nossas reuniões em “vídeotape” — a expressão é dele mesmo — para estudar- nos. Tinham nossas “fichas” completas, minuciosamente levantadas, bem como gravações e relatórios a nosso respeito, sendo esse material todo colhido na indormida vigilância que exercem sobre nós. Depois de tudo documentado, estudam-nos em grupos de trabalho, cabendo, então, aos planejadores elaborar a programação da “campanha”. Mesmo enquanto conversam conosco, no decorrer da sessão mediúnica, acham-se ligados aos seus redutos, por fios e aparelhagem de transmissão, com o propósito de se manterem firmes, apoiados pelos companheiros que lá ficam, para que não sejam arrastados pela “fraqueza” da conversão ao bem. Esquecem-se de que, por aqueles mesmos dispositivos, a conversa do doutrinador também é transmitida e produz lá, naqueles redutos, certos impactos, num ou noutro coração mais predisposto ao apelo do amor fraterno.
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Um desses sutis planejadores nos causou impressão profunda. Não viera especificamente para debater conosco, mas para tentar recuperar um Espírito que havíamos conseguido atrair e convencer de seus enganos. Ao incorporar-se no médium, demonstra indisfarçável embaraço por encontrar-se ali. Hesita e negaceia, parecendo estar realmente desarmado e perplexo. Aos poucos, interrogado com prudência paciente, vai revelando sua história.