Capítulo 4
Dentro da luta humana, também, é indispensável que os neurônios se façam de luvas, mais ou menos espessas, a fim de que o fluxo das recordações não modere o esforço edificante da alma encarnada, empenhada em nobres objetivos de evolução ou resgate, aprimoramento ou ministério sublime. Importa reconhecer, porém, que a nossa mente aqui age no organismo perispirítico, com poderes muito mais extensos, mercê da singular natureza e elasticidade da matéria que presentemente nos define a forma. Isto, contudo, em nossos círculos de ação, não nos evita as manifestações grosseiras, as quedas lastimáveis, as doenças complexas, porque a mente, o senhor do corpo, mesmo aqui, é acessível ao vício, ao relaxamento e às paixões arruinantes. Nessa altura, das elucidações, arrisquei uma pergunta, no intervalo que se fez, espontâneo: — Como interpretar, de maneira simples, as três regiões de vida cerebral a que nos referimos? O companheiro não se fez rogado e redarguiu: — Sistema nervoso, zona motora e lobos frontais, no corpo carnal, traduzindo impulsividade, experiência e noções superiores da alma, constituem campos de fixação da mente encarnada ou desencarnada. A demora excessiva num desses planos, com as ações que lhe são consequentes, determina a destinação do cosmo individual. A criatura estacionária na região dos impulsos perde-se num labirinto de causas e efeitos, desperdiçando tempo e energia; quem se entrega, de modo absoluto, ao esforço maquinal, sem consulta ao passado e sem organização de bases para o futuro, mecaniza a existência, destituindo-a de luz edificante; os que se refugiam exclusivamente no templo das noções superiores sofrem o perigo da contemplação sem as obras, da meditação sem trabalho, da renúncia sem proveito. Para que nossa mente prossiga na direção do alto, é indispensável se equilibre, valendo-se das conquistas passadas, para orientar os serviços presentes, e amparando-se, ao mesmo tempo, na esperança que flui, cristalina e bela, da fonte superior de idealismo elevado; através dessa fonte ela pode captar do Plano divino as energias restauradoras, assim construindo o futuro santificante. E, como nos encontramos indissoluvelmente ligados aos que se afinam conosco, em obediência a indefectíveis desígnios universais, quando nos desequilibramos, pelo excesso de fixação mental, num dos mencionados setores, entramos em contato com as inteligências encarnadas ou desencarnadas em condições análogas às nossas. O instrutor, com ar fraternal, indagou: — Entendeste? Respondi afirmativamente, possuído de sincera alegria porque, afinal, assimilara a lição. Calderaro fez aplicações magnéticas sobre o crânio do enfermo, envolvendo-o em fluidos benéficos, e disse-me, após longa pausa: — Temos aqui dois amigos de mente fixada na região dos instintos primários. O encarnado, depois de reiteradas vibrações no campo do pensamento, em fuga da recordação e do remorso, arruinou os centros motores, desorganizando também o sistema endócrino e perturbando os órgãos vitais. O desencarnado converteu todas as energias em alimento da ideia de vingança, acolhendo-se ao ódio em que se mantém foragido da razão e do altruísmo. Outra seria a situação de ambos se houvessem esquecido a queda, reerguendo-se pelo trabalho construtivo e pelo entendimento fraternal, no santuário do perdão legítimo. O Assistente deixou perceber novo brilho nos olhos percucientes e acrescentou: — Segundo verificamos, Jesus-Cristo tinha sobradas razões recomendando-nos o amor aos inimigos e a oração pelos que nos perseguem e caluniam. () Não é isto mera virtude, senão princípio científico de libertação do ser, de progresso da alma, de amplitude espiritual: no pensamento residem as causas. Época virá, em que o amor, a fraternidade e a compreensão, definindo estados do espírito, serão tão importantes para a mente encarnada quanto o pão, a água, o remédio; é questão de tempo. Lícito é esperar sempre o bem, com o otimismo divino. A mente humana, de maneira geral, ascende para o conhecimento superior, apesar de, por vezes, parecer o contrário. Em seguida, permaneceu Calderaro longos minutos em vigorosas irradiações magnéticas, que, envolvendo a cabeça e a espinha dorsal do enfermo, se me afiguraram fortemente repousantes, porque em breve o doente, antes torturado, se abandonava a sono tranquilo, como se sorvera suavíssimo anestésico. Dentro em pouco encontrava-se em nosso Círculo, temporariamente afastado do veículo denso, tomado de pavor perante o verdugo implacável, que se mantinha sentado, impassível, num dos ângulos do leito. Verifiquei que o enfermo não nos notava a presença, qual acontecia com o algoz em muda expectativa. Contava como certo que o Assistente os cumulasse de longas doutrinações; Calderaro, porém, guardou absoluto silêncio. Não me contive: interroguei-o. Porque os não socorrer com palavras de esclarecimento? O doente parecia-me aflito, enquanto o perseguidor se erguia, agora, mais agressivo. Porque não sustar o braço cruel que ameaçava um infeliz? Não seria justo impedir o atrito, que acarretaria consequências imprevisíveis ao companheiro hospitalizado? O instrutor ouviu-me, sereno, e respondeu: — Falaríamos em vão, André, porque ainda não sabemos amá-los como se fossem nossos irmãos ou nossos filhos. Para nós ambos, Espíritos de raciocínio algo avançado, mas de sentimentos menos sublimes, são eles dois infortunados, e nada mais. Damos-lhes, no momento, o de que dispomos, isto é, intervenção benéfica no campo de seus sofrimentos exteriores, nos limites de nossas aquisições no domínio do conhecimento. Olhou para grande porta próxima e acentuou: — A providência não foi, porém, esquecida. A irmã Cipriana, orientadora dos serviços de socorro do grupo em que coopero, não pode tardar. Mais alguns instantes, durante os quais o verdugo e a vítima reciprocavam palavras amargas, e o prestimoso mentor prosseguiu: — Lembras-te de De Puysegur? () Sim, recordava-me de modo vago. Fez-se em meu cérebro uma livre associação de ideias, rememorando estudos que levara a efeito sobre certas realizações de Charcot. () Não podia, entretanto, especificar particularidades, porquanto a psiquiatria não fora meu campo direto de trabalho na medicina. Tornou Calderaro, solícito: — De Puysegur foi dos primeiros magnetistas que encontraram o sono revelador, em que era possível conversar com o paciente noutro estado consciencial que não o comum. Desde então, a descoberta impressionou os psicologistas; com ela, surgia nova terapêutica para tratamento das moléstias nervosas e mentais. Entretanto, para nós, “neste lado” da vida, o fenômeno é corriqueiro: diariamente milhões de pessoas adormecem sob a influência magnética de amigos espirituais, a fim de serem auxiliadas nas resoluções inadiáveis. — E porque não tentarmos o esclarecimento verbal, agora, a estes nossos amigos? — Insisti, ansioso por minha vez, observando os infortunados contendores, que se trocavam insultos e acusações. — Porque, se o conhecimento auxilia por fora, só o amor socorre por dentro, — acrescentou o instrutor tranquilamente. Com a nossa cultura retificamos os efeitos, quanto possível, e só os que amam conseguem atingir as causas profundas. Ora, os nossos desventurados amigos reclamam intervenção no íntimo, para modificar atitudes mentais em definitivo… E nós ambos, por enquanto, apenas conhecemos, sem saber amar… Nesse momento, alguém assomou à porta de entrada. Oh! Era uma sublime mulher, revelando idade madura; nos olhos esplendia-lhe brilho meigo e enternecedor. Curvei-me, comovido e respeitoso. Calderaro tocou-me o ombro de leve, e murmurou-me ao ouvido: — É a irmã Cipriana, a portadora do divino amor fraternal, que ainda não adquirimos.
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Nome do Capítulo Estudando o cérebro