A mensageira aproximou-se e saudou-nos. Calderaro apresentou-me atenciosamente. Fixou ela o triste quadro e disse ao Assistente:
— Felicito-o pelo socorro que, nos últimos dias, vem prestando aos nossos infortunados irmãos. Agora atacaremos a parte final do serviço, convictos do êxito.
— Meu esforço, — acrescentou o interlocutor, humilde, — foi quase nenhum, resumindo-se em meros preparativos. Irmã Cipriana sorriu, afável, e observou:
— Como atingiríamos o fim sem passar pelo princípio?
— Ó irmã! O conhecimento pode pouquíssimo, comparado com o muito que o amor pode sempre. Singular expressão estampou-se na fisionomia da emissária, como se as referências lhe ferissem fundo a modéstia natural. Ocultando os méritos que lhe eram próprios, considerou:
— Sabe o Divino Senhor que ainda estou a grande distância da realização que me atribui. Sou frágil e imperfeita, e devo caminhar ainda infinitamente para adquirir o amor que fortalece e aperfeiçoa. Retendo o olhar firmemente sobre o meu companheiro, acrescentou:
— Estamos em cooperação fraternal na obra que pertence ao Altíssimo. Espero que os amigos se mantenham a postos, efetuando a maior porção do serviço, porque, quanto a mim, só atenderei aos singelos deveres que um coração materno pode desempenhar. Assim dizendo, acercou-se de ambos os infelizes, postando-se em atitude de oração. Que estaria pedindo às Forças Superiores, ali, diante de nós, aquela mulher de extraordinária expressão? Sentia-lhe, enlevado, a sinceridade profunda, a humildade fiel. A prece, em que por alguns minutos se concentrou, saturava-se de sublime poder, porquanto em breve suave luz descia do alto sobre a sua fronte venerável. Gradativamente Cipriana se fazia mais bela. Os raios divinos a fluírem dos mananciais invisíveis, envolvendo-a, transfiguravam-na toda. Tive a impressão de que a sua organização perispiritual absorvia a claridade maravilhosa, represando-se-lhe no ser. Escoados alguns momentos, circundava-a refulgente halo, cuja santidade senti dever respeitar. Dos olhos, do tórax, das mãos efluíam irradiações de frouxa e suave luz, que não me terrificava a retina surpresa. Estava formosa, radiante, qual se fora a materialização da madona de Murilo, () em milagrosa aparição. Perante a sua personalidade transfigurada, quase me prosternei, tal a comoção daquele minuto inesquecível. Nenhum olhar nos dirigiu, quiçá, por humildade, no desejo de ocultar a elevada posição que desfrutava. Estendeu as mãos para os dois desventurados, atingindo-os com o seu amoroso magnetismo, e notei, assombrado, que o poder daquela mulher sublimada lhes modificava o campo vibratório. Sentiram-se ambos desfalecer, oprimidos por uma força que os compelia à quietação. Entreolharam-se com indizível espanto, experimentando o respeito e o temor, presas de comoção irreprimível e desconhecida… Seus olhos espelhavam, no silêncio, angustiosa perquirição, quando a mensageira, avizinhando-se, os tocou de leve na região visual; reparei, de minha parte, que ambos registaram abalo mais forte e indisfarçável. Reconhecendo o poder divino de que era dotada a emissária, notei que o enfermo, parcialmente liberto do corpo, e o perseguidor implacável passaram a ver-nos com indescritível assombro. Gritaram violentamente, empolgados pela surpresa, e, por julgar cada um de nós o que vê através do prisma de conhecimentos adquiridos, cuidaram fossem visitados pela excelsa Mãe de Jesus; definiam o ambiente em harmonia com as noções religiosas que o mundo lhes inculcara. O doente ajoelhou-se de súbito, dominado por incoercível comoção, e desfez-se em copioso pranto. O outro, porém, embora perplexo e abalado, manteve-se ereto, qual se o bendito favor daquela hora lhe fosse, a ele mesmo concedido.
— Mãe dos Céus!
— Clamou o companheiro hospitalizado, chorando convulsivamente, — como vos dignais de visitar o criminoso, que sou eu? Sinto vergonha de mim mesmo, sou imperdoável pecador, abatido pela minha própria miséria… Vossa luz revela-me toda a extensão das trevas em que me debato! Condoei-vos de mim, Senhora!… Havia uma sinceridade imensa, aliada a imensa dor, naquelas palavras de angústia e de arrependimento. Soluços sufocantes assomaram-lhe à boca, interrompendo-lhe a tocante súplica. Cipriana acercou-se dele, de olhos faiscantes e úmidos. Tentou soerguê-lo, sem, no entanto, lograr que ele deixasse a postura genuflexa. Certo, a piedosa missionária informara-se de todas as minúcias necessárias ao êxito de sua missão naqueles minutos, porque, enlaçando-o maternalmente, o chamou pelo nome, esclarecendo:
— Pedro, filho meu, não sou quem julgas, no transporte de viva confiança que te sensibiliza a alma. Sou simplesmente tua irmã na eternidade; todavia, também fui mãe na Terra, e sei quanto sofres. O interpelado ergueu os olhos súplices, fitando-a através de espesso véu de lágrimas. Embora visivelmente animado pelas declarações ouvidas, manteve-se em posição reverente e humilde.
— Matei um homem!… — Exclamou, desabafando-se. A mensageira afagou-lhe o rosto, banhado em pranto, e acrescentou:
— Sei disto. Decorridos alguns instantes, em que dividia o carinhoso olhar entre o interlocutor e o verdugo, contido pelo respeito a reduzida distância, dirigiu-se ao doente, de maneira intencional, de modo a se fazer ouvida pelo companheiro vingador:
— Porque destruíste, Pedro, a vida de teu irmão? Como te julgaste com forças e direito para quebrar a harmonia divina? Deixando perceber que lhe ouvia os pensamentos mais íntimos, prosseguiu:
— “Supunhas fazer justiça pelas próprias mãos, quando só fazias expandir a cólera aniquiladora. Por que razão, meu filho, pretendeste equilibrar a vida, provocando a morte? Como conciliar a justiça com o crime, quando sabemos que o verdadeiro justo é aquele que trabalha e espera no Pai, o Supremo Doador da Vida? Faz muito tempo hás perpetrado o homicídio, presumindo liquidar escabroso débito a jorros de sangue… Eliminaste o corpo de um amigo que se fez incompreensivo e duro; todavia, desde o trágico instante, ouves a consciência divina, a reiterar a velha pergunta: “Caim, que fizeste de teu irmão?” () Tens vivido desarvorado e desditoso, de alma agrilhoada à própria vítima, aprendendo que o mal jamais se coadunará com o bem e que a Lei cobra dobrados tributos àquele que se antepõe aos seus ditames sábios e soberanos. Destruíste a paz de um companheiro e perdeste a tranquilidade própria; suprimiste-lhe o veículo físico, mas perambulas algemado ao teu, sentindo-o qual pesado fardo… Cuidavas ministrar o direito a ti mesmo e entortaste o destino, imprimindo perigosa curva ao teu caminho, que poderia ser retilíneo e iluminado. Temendo a ti próprio, por te sentires delinquente em toda a parte, buscaste refúgio no trabalho atabalhoado e mecanizante; conseguiste dinheiro que nunca te pacificou o ser; alcançaste culminante posição social entre os homens, dentro da qual, contudo, te sentes cada vez mais triste e mais desamparado… Como não te ocorreu, Pedro, a oração santificante? Como não te penitenciaste diante da vida, humilhando-te aos pés da tua vítima, no sincero e real propósito de regeneração? Preferiste a corrida louca empós das sensações externas, a fuga para a região do ganho material, a transitória ascensão para posições de domínio enganoso… Aterrorizado, tentaste escapar ao tribunal íntimo, onde o poder espiritual te exprobrava o condenável procedimento! “Mas, nunca é tarde para levantar o coração e curar a consciência ferida. Exausto de sofrer, cedeste à enfermidade e aproximas-te da loucura. De alma contundida e corpo em desordem, apelaste para a Misericórdia Divina, e aqui estamos. Contudo, meu amigo, nossa voz não se ergue para fustigar-te o espírito, já de si mesmo tão castigado e tão infeliz! Vimos ao teu encontro para estimular-te à regeneração. Quem poderá condenar alguém, depois da comunhão de vicissitudes na carne? Quem se sentirá suficientemente puro e santificado para atirar a primeira pedra, mesmo depois de haver atravessado a fronteira de cinzas do sepulcro? Quem de nós terá passado incólume nas correntes do pântano? Não, Pedro, o fundamento da obra divina é de amor incomensurável. Encontramo-nos aqui para querer-te bem, intentando alçar-te a consciência aos campos infinitos da vida eterna. Oraste e chamaste-nos. Abriste a mente à força regenerativa, e somos teus irmãos. Muitos de nós, em outro tempo, penetramos também o sombrio recôncavo dos vales do assassínio, da injustiça e da morte; entretanto, estacamos no caminho, renegamos o crime, ressoldamos com lágrimas os elos partidos pela nossa imprudência, e, cultivando o perdão e a humildade, aprendemos que só o amor salva e constrói para sempre. “Lembra-te das tuas próprias necessidades, interrompe a marcha da aflição, reconsidera a atitude e faze novo compromisso perante a Divina Justiça.” Passada longa pausa, Cipriana abriu os braços maternos e acrescentou:
— Levanta-te e vem a mim. Sou tua mãe espiritual, em nome de Deus. O enfermo, de olhos brilhantes e lacrimosos, ergueu-se, qual menino, sensibilizando-nos o coração, e exclamou:
— Merecerei tamanha graça?
— Como não, filho meu? O Pai não nos responde às súplicas com palavras condenatórias. Acercamo-nos de ti em nome d’Ele, nosso Supremo Senhor. Assim dizendo, conchegou-o ao coração; mas havia tal meiguice naquele amplexo inesperado, que outros circunstantes, que não nós, diriam presenciar o reencontro de carinhosa mãe com o filho ausente, após longa e cruciante separação.