Léon Denis também oferece contribuição valiosa, não só em NO INVISÍVEL, mas, também, em outras de suas obras. Recomenda-se, ainda, André Luiz, em MECANISMOS DA MEDIUNIDADE, NOS DOMÍNIOS DA MEDIUNIDADE e LIBERTAÇÃO, bem como o livro interpretativo de Martins Peralva ESTUDANDO A MEDIUNIDADE, todos editados pela Federação Espírita Brasileira.
Creio oportuno acrescentar que esses livros não se dedicam especificamente a ensinar como desenvolver a mediunidade, e, sim, a apresentar um panorama, tão abrangente quanto possível, dos diversos aspectos dessa notável faculdade humana, muito mais comum do que tanta gente estaria disposta a admitir.
Não há fórmulas mágicas, nem ritos especiais para fazer eclodir a mediunidade numa pessoa que a tenha em potencial. O desenvolvimento mediúnico é trabalho delicado, difícil e muito importante, que exige conhecimento doutrinário, capacidade de observação, vigilância, tato,
firmeza e muita sensibilidade para identificar desvios e desajustes que precisam ser prontamente corrigidos, para não levarem o futuro médium a vícios funcionais e até mesmo a perturbações emocionais de problemática recuperação.
No passado remoto, esse encargo era de caráter iniciático. O instrutor ia dosando seus ensinamentos segundo as forças e a receptividade do discípulo, e este somente chegava aos estudos mais avançados de desenvolvimento de suas faculdades se ao longo do processo viesse demonstrando, sistematicamente, as condições mínimas exigidas para a tarefa a que se propunha.
Evidentemente não há, hoje, necessidade de um guru que leve o discípulo, por estágios sucessivos, até o ponto ideal. O Espiritismo desmistificou o antigo ocultismo, tornando o conhecimento básico acessível ao homem comum. Não nos esqueçamos, no entanto, de que a técnica do desenvolvimento mediúnico ainda exige atenção, acompanhamento e orientação pessoal de alguém que tenha condições morais e doutrinárias para fazê-lo. A mediunidade, salvo casos especiais, não deve ser desenvolvida isoladamente e sem apoio dos livros essenciais ao entendimento dos seus componentes básicos.
Colocado num grupo harmonioso e bem assistido, em que funcionem médiuns bem disciplinados e já em plena atividade, é possível ao médium incipiente desenvolver, pouco a pouco, suas faculdades. O dirigente do grupo deve manter-se atento a essa possibilidade. De forma alguma, porém, o treinamento mediúnico deve ser intentado com base em obras suspeitas ou organizações que prometam resultados prontos e maravilhosos em algumas lições. É também uma imprudência forçar o desenvolvimento sem nenhuma preocupação de estudar a questão nos livros que compõem a Codificação de Kardec e a obra complementar de seus continuadores.
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Após esta digressão acerca do desenvolvimento mediúnico, voltemos ao assunto em foco.
Ao cabo de algumas reuniões de debate e ajustamento, o perfil do grupo que se pretende implantar já deve estar suficientemente definido. Qualquer que seja a natureza do seu trabalho — estudo, pesquisa, experimentação, desobsessão — não deve iniciar suas tarefas especificas senão ao cabo de um aprendizado mais ou menos longo das questões doutrinárias. Mesmo que os componentes da futura equipe se julguem suficientemente informados e conhece dores da Doutrina dos Espíritos, vale a pena uma revisão geral.
Embora não gostemos de admitir, nosso conhecimento é menor do que pensamos.
Ademais, é difícil reunir um grupo de pessoas — seis ou oito — que conheçam igualmente, e em profundidade, todas as obras essenciais à tarefa a que se propõem. O mais provável é que o grupo se componha de gente em diferentes estágios de conhecimento, desde aquele que tem apenas vagas noções, até o que já possui conhecimentos mais profundos. Será útil para todos um período de atualização de conhecimentos, a começar, naturalmente, pelo O LIVRO DOS ESPÍRITOS, seguido de O LIVRO DOS MÉDIUNS.
Para não prolongar demasiadamente este período de revisão, deve ser dada prioridade à Parte Segunda de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, que cuida “Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos”, e à Segunda Parte de O LIVRO DOS MÉDIUNS, a partir do capítulo 14 — “Dos Médiuns”.
A duração e frequência das reuniões de estudo serão objeto de debate e ajuste entre os componentes. Não é preciso fazer a leitura de cada capítulo no decorrer das reuniões, desde que todos o tenham estudado, segundo a programação acordada, durante o período que vai de uma reunião à seguinte.
A reunião se destina à verificação do progresso que cada um realiza na revisão, e ao debate e esclarecimento das dúvidas surgidas. Seu objetivo final será sempre o de homogeneizar os diversos graus de conhecimento doutrinário, para obter a integração do grupo.
Não deve subsistir nenhuma preocupação com o tempo despendido nesse trabalho preparatório, que poderá ser mais longo ou mais curto, segundo o grau de conhecimento dos seus componentes, a boa-vontade e a dedicação de cada um.
Por algum tempo, até que se consiga alcançar uma fase de melhor preparo doutrinário, torna-se aconselhável serem evitadas as manifestações mediúnicas, mesmo que haja no grupo médiuns já desenvolvidos. De certo ponto em diante — e isto fica a critério daquele que se responsabiliza por esta fase dos trabalhos — as tarefas mediúnicas poderão ser iniciadas em paralelo com as de estudo. Nesse caso, o estudo precederá as manifestações e deverá, ainda por algum tempo, que poderá ser longo, ocupar boa parte do horário.
Nunca é demais enfatizar a importância e utilidade desta fase preparatória, pois não apenas os encarnados se beneficiam dela, como também os desencarnados que, certamente, começarão a ser trazidos pelos benfeitores espirituais, para aproveitarem os ensinamentos ministrados. Esse período é, ainda, muito útil para afinar o grupo, ajustar seus vários componentes, revelar as tendências e potencialidades de cada um e, até mesmo, por um processo natural de seleção, excluir, sem atritos ou desgosto, aqueles que não se sentirem em condições de se entregar ao trabalho, que exige, certamente, renúncia, dedicação, assiduidade, tolerância, estudo e amor. Os impacientes deixarão o grupo espontaneamente, em processo de exclusão natural. Não que sejam impuros (por favor!), mas por ser melhor que abandonem a tarefa pela metade, do que insistirem em ficar, em prejuízo dos resultados. No primeiro caso, estariam prejudicando apenas a si mesmos; no segundo, sacrificariam todo o conjunto. Talvez em outra oportunidade, mais adiante, resolvam dedicar-se com maior entusiasmo e firmeza. Tarefas como essas não podem ser impostas, nem forçadas; têm que se apoiar num impulso interior, no desejo de servir, de apagar-se, se necessário, dentro da equipe, de modo que os resultados obtidos sejam impessoais, coletivos, não creditáveis exclusivamente ao trabalho individual deste ou daquele componente do grupo. Quem não estiver disposto a aceitar essas condições não está preparado para o trabalho.
A essa altura, portanto, o grupo já deverá estar com o seu perfil suficientemente nítido. Já se sabe quais os que o compõem, quais são os médiuns, quem se revelou com melhores condições de liderança e tato na condução da equipe, e qual a natureza do trabalho a que esta deve dedicar-se, bem como a duração e frequência das reuniões (sobre o que falaremos, ainda, em outro ponto deste livro).
É, então, chegado o momento de especificar a finalidade e os objetivos do grupo.
A primeira grande divisão consiste em saber se o grupo vai dedicar-se apenas a estudos ou a trabalhos experimentais. Não que uma coisa exclua a outra, mas a definição é importante porque, como diziam os antigos, quem navega sem destino não sabe aonde vai.
A natureza do trabalho pode variar bastante, segundo os interesses e inclinações de seus componentes, especialmente daqueles que se dedicam à organização da equipe. É possível que desejem apenas a experimentação de caráter puramente científico, com ênfase na fenomenologia, o que seria uma tarefa quase de laboratório. Não há muito a dizer aqui sobre este aspecto, dado que o assunto escapa à minha área de competência e experiência.
Alguns grupos, desinteressados do aspecto prático, podem ser constituídos apenas para o estudo teórico da doutrina. Também são válidos, é claro. Outros podem combinar o estudo teórico com a experimentação científica ou mediúnica. Este livro está mais voltado para esta última opção, e é sobre ela que nos fixaremos.
Suponhamos, pois, que o grupo se resolva pelo trabalho de desobsessão.
Voltemos à imagem do filho. Já decidimos que desejamos o trabalho, já nos convencemos, após algum tempo de estudo teórico, de que estamos preparados para ele. Estamos igualmente dispostos aos sacrifícios e às renúncias que o trabalho impõe. A tarefa precisa ser desenvolvida com muita assiduidade e continuidade ininterrupta. Nem sempre estaremos fisicamente dispostos a ela, em virtude do cansaço, das lutas naturais da vida diária, do desgaste e das tensões provocados pela atividade profissional, dos inconvenientes oriundos de pequenas indisposições orgânicas.
O dia destinado à reunião exige renúncias diversas, pequenas, mas às quais nem sempre estamos acostumados: moderação e vigilância, por exemplo. Como os trabalhos são usualmente realizados à noite, não podemos destiná-la ao convívio da família, aos passeios, às visitas, ao relaxamento, à leitura de livro recreativo ou à novela de televisão. É um dia de recolhimento íntimo, ao qual temos que nos habituar, aos poucos. Estamos cientes disso.
Da mesma forma, encontramo-nos perfeitamente conscientizados das responsabilidades que assumimos. Vamos nos defrontar com Espíritos desajustados que, no desespero em que se precipitaram, voltam-se contra nós, muitas vezes sem razão alguma, senão a de que estamos tentando despertá-los para realidade extremamente dolorosa, da qual se escondem aflitivamente.