Na morte natural — a que resulta da extinção das forças vitais por velhice ou doença — o desprendimento opera-se gradualmente. Para o homem cuja alma se desmaterializou e cujos pensamentos se elevam acima das coisas terrenas, o desprendimento quase se completa antes da morte real, isto é, enquanto o corpo ainda tem vida orgânica, o Espírito já penetra a vida espiritual, apenas ligado por elo tão frágil que se rompe com a última pancada do coração. Nesta situação o Espírito pode já ter recuperado a sua lucidez, de forma a tornar-se testemunha consciente da extinção da vida do corpo, do qual se sente feliz por tê-lo deixado. Para esse a perturbação é quase nula, ou antes, não passa de ligeiro sono calmo, do qual desperta com indizível impressão de esperança e felicidade.
No homem material e sensual, que mais viveu para o corpo do que para as coisas espirituais, para quem a vida espiritual nada representa e nem sequer lhe toca o pensamento, tudo contribui para estreitar os laços materiais e, quando a morte se aproxima, o desprendimento, embora se opere gradualmente, demanda contínuos esforços. As convulsões da agonia são indícios da luta do Espírito, que às vezes procura romper os elos resistentes, e de outras se agarra ao corpo do qual uma força irresistível o arrebata com violência, molécula por molécula.