Fenômenos Apócrifos
“Depois desta arenga, o alçapão caiu e o doutor Hughes ficou pendurado. Mas suas palavras tinham produzido uma profunda impressão sobre a assistência, do que resultaram singulares efeitos. Eis o que hoje encontramos a respeito no Herald de Cleveland: “Estando no cadafalso e com a corda no pescoço, o doutor Hughes disse que estaria com os que o ouviam, tão bem após a sua morte como antes, e que parece ter levado a peito cumprir sua palavra. Entre as pessoas que o tinham visitado em sua cela antes da execução, achava-se um honesto açougueiro alemão. Esse homem, desde a sua entrevista com o condenado, não tem no cérebro senão o Dr. Gughes. Tem incessantemente diante dos olhos, noite e dia, a qualquer hora, prisões, patíbulos, homens enforcados. Não dorme mais, não come, já não cuida da família nem dos negócios, e ontem à noite esta visão quase o matou. “Acabava de entrar em seu estábulo para tratar dos animais, quando viu de pé, junto de seu cavalo, o Dr. Hughes, vestido com a mesma roupa negra que usava ao deixar nosso planeta, e parecendo gozar de excelente saúde. O pobre açougueiro soltou um grito terrível, um urro do outro mundo, e caiu para trás. “Correram, ergueram-no; tinha o olhar desvairado, a face lívida, os lábios trêmulos e, com voz ofegante, perguntou, ao recobrar os sentidos, se o Dr. Hughes ainda estava lá. Dizia ter acabado de vê-lo e, se não estava mais no estábulo, não podia estar longe. Foi a custa de grandes esforços que o acalmaram e o levaram para casa. A visão o perseguiu sempre e, conforme as últimas notícias, ainda estava num estado de agitação que nada podia acalmar. “Mais eis o que é ainda mais curioso. O açougueiro não é o único a quem o Dr. Hughes tem aparecido depois de morto. Dois dias após a sua execução, todos os detentos o viram, com os próprios olhos, entrar na prisão e percorrer os corredores. Tinha o ar perfeitamente natural: estava vestido de negro, como no patíbulo; muitas vezes passava a mão pelo pescoço e, ao mesmo tempo, deixava escapar da boca um som gutural, que sibiliava entre os dentes. Subiu as escadas que levam à cela, entrou, sentou-se e pôs-se a escrever versos. Eis o que contaram os presos, e nada no mundo os teria persuadido de que tinham sido joguetes de uma ilusão.” Este fato não deixa de ter o seu lado instrutivo pelas palavras do paciente. É verdadeiro quanto ao assunto principal; mas como o narrador, em sua última alocução resolveu falar do Espiritualismo ou Espiritismo, julgou por bem enriquecer seu relato com as aparições, que só existiram no bico de sua pena, exceto a primeira, ao açougueiro, que parece ser real. – Tom, o cego, não é um conto de fantasmas, mas um fenômeno de inteligência inacreditável. Tom é um jovem negro de dezessete anos, cego de nascença, supostamente dotado de um instinto musical maravilhoso. O Harpers Weekly, jornal ilustrado de Nova Iorque, consagra-lhe longo artigo, do qual extraímos as seguintes passagens: “Não havia dois anos que ele traduzia pelo canto tudo o que lhe feria o ouvido, e tal era a justeza e a facilidade com que captava um motivo que, ouvindo as primeiras notas de um canto, podia executar sua parte. Logo começou a acompanhar, fazendo segunda voz, embora jamais os tivesse ouvido, mas um instinto natural lhe revelava que algo de semelhante devia cantar-se. “Aos quatro anos ouviu um piano pela primeira vez. À chegada do instrumento, estava, como de hábito, brincando no pátio. A primeira vibração das teclas o atraiu ao parlatório (salão). Permitiram-lhe que manejasse as teclas, simplesmente para satisfazer sua curiosidade e não lhe recusar o inocente prazer de fazer um pouco de ruído. Uma vez, de meia-noite ao amanhecer, ele ficou no salão onde tinha aprendido a entrar. O piano não tinha sido fechado e as moças da casa foram despertadas pelos sons do instrumento. Para seu grande espanto, ouviram Tom tocando um de seus trechos e de manhã ainda o encontram ao piano. Então lhe permitiram tocar quanto quisesse. Ele fez progressos tão rápidos e tão admiráveis que o piano se fez eco de tudo o que ele ouvia. Desenvolveu, assim, novas e prodigiosas faculdades, até então desconhecidas no mundo musical, e cujo monopólio parece que Deus tinha reservado a Tom. Ele tinha menos de cinco anos quando, depois de uma tempestade, compôs uma música que intitulou: O que me dizem o vento, o trovão e a chuva. “Em Filadélfia, setenta professores de música assinaram uma declaração que assim termina: ‘De fato, sob qualquer forma de exame musical, execução, composição e improvisação, ele demonstrou um poder e uma capacidade que o colocam entre os mais admiráveis fenômenos, cuja lembrança foi guardada pela história da música. Os abaixo-assinados pensam que é impossível explicar esses prodigiosos resultados por qualquer das hipóteses que podem fornecer as leis da arte ou da Ciência.’ “Hoje ele toca a mais difícil música dos grandes autores com uma delicadeza de toque, um poder e uma expressão raramente ouvidos. É na próxima primavera que ele deve ir à Europa.” Eis a explicação dada a respeito pelo Sr. Morin, médium, numa reunião espírita de Paris, em casa da princesa O..., em 13 de março de 1866, e à qual assistíamos. Ela pode servir de guia em todos os casos análogos. “Não vos apresseis muito em crer na vinda do famoso músico negro cego. Suas aptidões musicais são muito exaltadas pelos grandes propagadores de novidades, que não são avaros em fatos imaginários, destinados a satisfazer a curiosidade dos assinantes. É preciso que desconfieis muito das reproduções e, sobretudo, dos empréstimos, reais ou supostos, que fazem os vossos jornalistas aos seus colegas de além-mar. Muitos balões de ensaio são lançados visando fazer caírem os espíritas na armadilha, e na esperança de arrastar o Espiritismo e seus adeptos no domínio do ridículo. Assim, ponde-vos em guarda e jamais comenteis um fato sem, previamente, vos terdes bem informado, e sem haver pedido a opinião de vossos guias. “Não podeis imaginar todas as astúcias empregadas pelos grandes fanfarrões das idéias novas, para chegar a surpreender um equívoco, uma falta, um absurdo palpável, cometido pelos Espíritos ou seus prosélitos demasiado confiantes. Por todos os lados são estendidas armadilhas aos espíritas; todos os dias aí trazem aperfeiçoamentos; grandes e pequenos estão à espreita, e o dia em que pudessem surpreender o chefe em erro, as mãos no saco do ridículo, seria o mais belo de sua vida. Têm tal confiança em si, que se regozijam por antecipação; mas há um velho provérbio que diz: ‘Não se deve vender a pele do urso antes de tê-lo matado.’ Ora, o Espiritismo, sua besta negra, ainda está de pé e bem poderia fazê-los usar os sapatos antes de se deixar atingir. É de cabeça baixa que um dia virão queimar incenso ante o altar da verdade que, em tempo próximo, será reconhecido por todo o mundo. “Aconselhando-vos a vos manterdes em reserva, não pretendo que os fatos e gestos atribuídos a esse cego sejam impossíveis, mas neles não se deve crer antes de os ter visto e, sobretudo, de os ter ouvido.” Ebelmann Um tal prodígio, mesmo deixando larga parte ao exagero, seria a mais eloqüente defesa em favor da reabilitação da raça negra, num país onde o preconceito de cor está tão arraigado; e se não pode ser explicado pelas leis conhecidas da Ciência, sê-lo-ia de maneira mais clara e mais racional pela da reencarnação, não de um negro num negro, mas de um branco num negro, porque uma faculdade instintiva tão precoce não poderia ser senão uma lembrança intuitiva de conhecimentos adquiridos numa existência anterior. Mas, então, perguntarão, seria uma retrogradação do Espírito passar da raça branca à raça negra? Retrogradação de posição social, sem dúvida, o que se vê todos os dias, quando, de rico se renasce pobre, ou de mestre se renasce servo, mas não retrogradação do Espírito, pois teria conservado suas aptidões e aquisições. Esta posição ser-lhe-ia uma prova ou uma expiação; talvez, ainda, uma missão, a fim de provar que essa raça não é votada pela natureza a uma inferioridade absoluta. Aqui raciocinamos na hipótese da realidade do fato e para os casos análogos que pudessem apresentar-se. Os dois fatos seguintes são da mesma fábrica e não necessitam de outro comentário além do que acaba de ser dado. O primeiro, relatado pelo Soleil de 19 de julho, é considerado de origem americana; o segundo, tirado do Événement do mês de abril, é abertamente parisiense. Sem sombra de dúvida, são os espíritas que se mostrarão mais incrédulos e mais endurecidos. Quanto aos outros, a curiosidade bem poderia levar mais de um a conhecer a causa que dizem produzir tantas maravilhas. “Os Espíritos batedores e outros parece que fixaram domicílio em Taunton, escolhendo para teatro de suas proezas a casa de um infeliz médico da cidade. O porão, os corredores, os quartos, a cozinha e até as águas-furtadas do doutor são assombradas durante a noite pelas sombras de todos os que ele enviou para um mundo melhor. São gritos, lamentos, imprecações, ironias atrozes, conforme o espírito das sombras, que às vezes não tem sombra de espírito. – Tua última poção me matou, diz uma voz cavernosa. – Alopata, grita uma voz mais jovem, tu não vales mesmo um homeopata. – Eu sou a tua vítima número 299, a última de todas, salmodia uma outra aparição. Trata ao menos de fazer uma cruz quando chegares a 300. “E assim por diante. A vida do infortunado médico não é mais suportável.”
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Mês Setembro
Ano 1866