Extrato do Manuscrito de um Jovem Médium Bretão (2o artigo)
Quem não sentiu esse frêmito interior que abala todo o nosso ser, no momento em que somos postos em contato com outro, e que nos leva a dizer: É um amigo!... ou, então: É um inimigo? As pessoas cujas mãos são frias e úmidas são de compleição fraca; de sensibilidade pouco desenvolvida, não dão fluido e necessitam que se lhos prodigalize. Habitualmente os inspirados gozam do privilégio de poder socorrer, por um fluido que deles se desprende, aqueles que necessitam. Mas, raramente desfrutam de boa saúde e neles o equilíbrio e a harmonia reinam raramente. Têm muito fluido ou não o têm suficiente, e quase só no momento da inspiração se acham em completa harmonia. Mas, então, não sentem os benefícios, porque outra individualidade está unida à sua e os abandona momentaneamente, depois que deram o que tinham como reserva. Os curadores do campo, os feiticeiros, os que fazem desaparecer as entorses, geralmente são fluídicos. Seu poder é real; eles o exercem sem saber como. Mas seria engano crer que possam agir igualmente sobre todo o mundo. É preciso que o fluido que deles se desprende esteja em harmonia com o da pessoa que o deve absorver, senão se produz um efeito contrário. Daí vem o mal muito real que por vezes se sente após uma visita a um desses pretensos feiticeiros. Não há remédios nem fluidos cuja ação seja universal. Toda ação é modificada pela natureza daquele que a recebe. É preciso que a centelha fira com precisão, sem o que haverá choque e agravação do mal que se pretende aliviar. O magnetismo sofre a mesma lei e não pode ser mais eficaz em todos os casos. Os sensitivos e os fluídicos são as naturezas mais generosas, as que melhor sentem todas essas mil ninharias que compõem o ser humano em sua parte moral, física e intelectual. Mas são também os mais infelizes, porque se dão mais aos outros do que recebem. Os maiores fluídicos geralmente têm mais desgosto de sua personalidade. Pensam nos outros e jamais em si mesmos. Isto também se deve, talvez, a uma espécie de intuição secreta; sentem que sem essa liberação de seu excesso, que derramam sobre os outros, não poderiam ter repouso. Lamentemos os fluídicos e os sensitivos. A vida para eles tem mais dores que alegrias; não passa de um contínuo sofrimento. Mas, ao mesmo tempo, admiremo-los, porque são bons, generosos e dotados de caridade humanitária. Deles se desprende uma força para aliviar os seus irmãos, e é por serem mais completamente tudo para todos, que são tão pouco para si mesmos. E talvez o seu adiantamento seja mais rápido e maior num outro mundo, porque passaram por este aplicando-se apenas em fazer o bem aos outros. Por vezes, depois de um grande desprendimento, o fluídico sofre e chega a um extremo grau de fraqueza, até o momento em que entra de novo na posse de sua força. Quando uma pessoa sofre, ele não calcula e vai até ela. O coração o arrasta vitoriosamente, adivinha quem puder! Não é mais um homem detido por frias conveniências; é uma alma que desperta ao primeiro grito de sofrimento, e que não se lembra mais senão depois que o alívio chegou! IV OS SONÂMBULOS O sonambulismo, que pode ser dividido em três categorias, não se refere diretamente a nenhuma das três fases que acabamos de descrever. 1o – O sonâmbulo natural muito raramente será um bom magnetizador. Pode não ser acessível à inspiração, nem ao fluido forçado e concentrado num só ponto pela sua vontade. Outras vezes seu estado anuncia uma predisposição favorável à recepção de um impulso. O sonambulismo natural é o sonho posto em ação. O pensamento segue seu curso durante o sono dos órgãos. Esta é ainda uma prova de que algo vive em nós além da matéria, de que pensamos e vivemos durante o sono a vida ativa do Espírito, embora tenhamos por algum tempo todas as aparências do aniquilamento. A vida ativa continua, pois, no sonâmbulo; apenas muda de forma, tomando a de um sonho. O espírito agita a matéria, pois os órgãos físicos são postos em ação por uma força enérgica, cuja lembrança o indivíduo perdeu ao despertar. Estando o verdadeiro inspirado impregnado de uma força poderosa e desconhecida, tem algo do sonâmbulo natural, no sentido de obedecer a um impulso que lhe é estranho, deixando de o sentir logo que volta ao seu estado natural. O sonâmbulo age sob a simples inspiração que emana dele; está concentrado num só objeto, razão por que, em todos os atos que então realiza, parece muito superior a si mesmo. Se o despertam, ele se perturba, grita como num pesadelo e essa brusca transição não é isenta de perigo para ele. Esse estado bizarro não afeta nem fatiga os órgãos. Esses seres passam muito bem, porque, enquanto agem, o ser físico dorme, repousa, e só a imaginação trabalha. 2o – No inspirado, pode-se dizer que há sempre uma grande soma de repouso físico. Marcado por outra individualidade, seu corpo não participa da ação que realiza e seu próprio Espírito, de certo modo dormita, desde que o forçaram a assimilar os pensamentos de outro, dos quais a seguir perde até os mais ligeiros traços, à medida que desperta para a vida ordinária. Nas naturezas dóceis (e nem todos os sonâmbulos o são), esse trabalho de concentração, de posse do ser, é feito sem luta, razão por que esses pensamentos lhes são dados de maneira mais particular, precisamente porque não interrompem o repouso naqueles a quem são trazidos. Por vezes os sonâmbulos são confundidos com os inspirados, porque há semelhança nos resultados. Uns e outros prescrevem remédios. Mas só o inspirado é um revelador; é nele próprio que reside o progresso, pois só ele é o eco, o instrumento passivo de um Espírito diferente do seu, e mais adiantado. O magnetismo desperta no sonâmbulo, superexcita e desenvolve o instinto que a natureza deu a todos os seres para a sua cura, e que a civilização incompleta em que nos debatemos abafou em nós para o substituir pelos falsos lampejos da Ciência. Os inspirados não precisam absolutamente do socorro do fluido magnético. Vivem pacíficos, em nada pensam. De repente uma palavra, inicialmente obscura e indistinta, é murmurada ao seu ouvido; essa palavra os penetra; toma sentido, cresce, alarga-se, torna-se um pensamento; outras se grupam em redor; depois, chegada à maturidade a elaboração íntima, uma força irresistível os domina e, quer pela palavra, quer pela escrita, é preciso que expulsem a verdade que os obceca. Eles estão de tal modo impregnados por seu objeto, de tal forma possuídos que, durante essas horas de elaboração ou de diversão, não são mais acessíveis aos sofrimentos do corpo, pois não mais o sentem e já não têm consciência de si, e porque, enfim, neles vive um outro ser em seu lugar. Pouco a pouco, à medida que o sopro inspirador os abandona, a dor retorna; eles voltam à posse de si mesmos, vivem por sua própria vontade, subordinada às suas percepções pessoais, e da aparição extinta não resta mais senão uma espécie de vazio no cérebro, conforme a expressão consagrada, mas vazio que, na realidade, existe no organismo inteiro. Muitas vezes o inspirado se acha inconscientemente impregnado, desde muito tempo, pelo Espírito de outrem. Mau grado seu, tem instantes de recolhimento forçado; sabe e é capaz de concentrar melhor as idéias, parecendo viver a vida comum e trocar com os outros os pensamentos ordinários. Mas suas distrações são mais freqüentes, mesmo que seu Espírito ainda não esteja concentrado numa coisa do que noutra. Flutua no vazio; deixa-se embalar por uma espécie de entorpecimento, que é o começo da infusão de comunicações, ainda no primeiro trabalho de transmissão. Por si mesmo, o magnetismo não dá inspiração: no máximo a provoca e a torna mais fácil. O fluido é como um ímã, que atrai os mortos bem-amados para os que ficaram. Desprende-se abundantemente dos inspirados e vai despertar a atenção dos seres que já partiram e que lhes são similares. Estes, por seu lado, depurados e esclarecidos por uma vida mais completa e melhor, julgam melhor e melhor conhecem os que lhes podem servir de intermediários, numa ordem de fatos que julgam útil revelar-nos. É assim que esses seres mais adiantados muitas vezes descobrem, naquele que escolheram, disposições que ele mesmo desconhecia. Desenvolvem-no neste sentido, apesar dos obstáculos opostos pelos preconceitos do meio social ou pelas prevenções da família, sabendo que a Natureza preparou o terreno para receber a semente que eles querem espalhar. Eis um médico que ficou medíocre porque considerações mais fortes que a sua vontade lhe impuseram uma vocação factícia: a inspiração jamais fará dele um revelador em Medicina. Jamais o Espírito virá lhe comunicar as coisas ligadas à profissão que o constrangeram a exercer, mas as relacionadas com as faculdades naturais que, à sua chegada na Terra, lhe foram atribuídas para que as desenvolvesse pelo trabalho, e que ficaram em estado latente. Aí estava a obra que ele devia realizar. O Espírito o pôs no caminho e lhe fez compreender sua verdadeira missão. O magnetismo, enquanto inspiração, nada pode em favor desta criatura fatalmente desviada. Apenas, como há desacordo entre as tendências que lhe imprimem os seus fluidos e as funções que as circunstâncias o condenaram a exercer, está descontente, infeliz; sofre e, deste ponto de vista, o magnetismo pode, por um momento, vir acalmar os pesares que experimenta em presença de seu futuro despedaçado.
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Mês Junho
Ano 1869