Capítulo 8
Diz ainda o concílio: “Enquanto dura esta união tão íntima da alma com o corpo.” Há, por conseguinte, um momento em que a união se desfaz? Esta proposição contradiz a que sustenta a essencialidade dessa união. E diz mais o concílio: “As ideias lhes chegam pelos sentidos, pela comparação dos objetos exteriores.” Eis aí uma doutrina filosófica em parte verdadeira, mas não em sentido absoluto. Segundo o eminente teólogo, receber as ideias pelos sentidos é uma condição inerente à natureza da alma; mas ele esquece as ideias inatas, as faculdades por vezes tão transcendentes, a intuição das coisas que a criança traz ao nascer e que não resultam de nenhuma instrução. Por meio de quais sentidos esses jovens pastores, naturais calculistas que causam admiração aos sábios, adquirem ideias necessárias à resolução quase instantânea dos mais complicados problemas? Outro tanto se pode dizer de certos músicos, pintores e linguistas precoces. “Os conhecimentos dos anjos não resultam da indução e do raciocínio.” Eles sabem porque são anjos, sem necessidade de aprendê-los, pois assim foram criados por Deus; a alma, ao contrário, deve aprender. Mas se a alma só recebe as ideias por meio dos órgãos corpóreos, que ideias pode ter a alma de uma criança morta ao fim de alguns dias de vida, se admitirmos com a Igreja que essa alma não renasce?
TAG Valor
Parte Primeira
Nome do Capítulo Os anjos
Tema Refutação
Item 7