Capítulo 4
Dissemos, e com razão, que o inferno dos cristãos havia superado o dos pagãos. De fato, no Tártaro veem-se culpados torturados pelo remorso, ante suas vítimas e seus crimes, acabrunhados por aqueles que espezinharam na vida terrestre; vemo-los fugirem à luz que os penetra, procurando em vão escaparem aos olhares que os perseguem; aí o orgulho é abatido e humilhado; todos trazem o estigma do seu passado, todos são punidos pelas próprias faltas, a tal ponto que, para alguns, basta entregá-los a si mesmos sem ser preciso aumentar-lhes os castigos. Contudo, são sombras, isto é, almas com corpos fluídicos, imagens da sua vida terrestre; lá não se vê os homens retomarem o corpo carnal para sofrer materialmente, nem o fogo a penetrar-lhes a pele, saturando-os até a medula dos ossos. Tampouco se vê o requinte das torturas que constituem o fundo do inferno cristão. Juízes inflexíveis, porém justos, proferem a sentença de acordo com o delito, ao passo que no império de Satã todos são confundidos nas mesmas torturas, com a materialidade por base, e banida toda e qualquer equidade. Hoje não se nega a existência, no próprio seio da Igreja, de muitos homens sensatos que não admitem essas coisas à risca, vendo nelas simples alegorias cujo sentido convém interpretar. Estas opiniões, no entanto, são individuais e não fazem lei, de modo que a crença no inferno material, com todas as suas consequências, ainda constitui um artigo de fé.
TAG Valor
Parte Primeira
Nome do Capítulo O inferno
Tema Descrição do inferno cristão
Item 14