Foste o gênio mau da Terra. Eis-te humilhado... Os homens progredirão... Verás maravilhas. Enganaste os homens; enganaste a mulher na personificação de Eva, a mulher pecadora. Está dito que Maria, a personificação da mulher sem mácula, esmagar-te-á a cabeça.
Maria vai chegar. – Um instante depois ele escreveu lentamente e com doçura: “Maria vem ver-te; Maria, que foi buscar-te no fundo de teu reino de trevas, não te abandonará. Levanta-te, Satã; Deus está pronto para te estender os braços. Lê O Filho Pródigo. Adeus.”
Em outra ocasião ele escreveu: “Disse a serpente a Eva: Vossos olhos abrir-se-ão e sereis como os deuses. O demônio disse a Jesus: Dar-te-ei todo o poder. A ti eu digo, pois acreditas em nossas palavras: nós te amamos; tu serás tudo... Serás o rei da Polônia.
“Persevera nas boas disposições em que te colocamos.
Esta lição fará a ciência espírita dar um grande passo. Ver-se-á que os Espíritos bons podem dizer futilidades e mentiras para se divertirem com os sábios. Disse Allan Kardec que um meio inadequado de reconhecer os Espíritos era fazê-los confessar Jesus em carne. Eu digo que somente os Espíritos bons confessam Jesus em carne e eu o confesso. Dize isso a Kardec.”
Entretanto, o Espírito teve o pudor de não aconselhar o Sr. F... a imprimir essas belas máximas. Se o tivesse feito, por certo ele obedeceria, o que teria sido uma péssima ação, porquanto o Sr.
F... as teria considerado como coisa séria.
Encheríamos um volume com todas as tolices que lhe foram ditadas e com todas as circunstâncias que se seguiram. Entre outras coisas, fizeram-no desenhar um edifício, cujas dimensões eram de tal monta que as folhas de papel, coladas umas às outras, ocupariam a altura de dois pavimentos.
Notar-se-á que em tudo isso nada há de grosseiro, nem de trivial; é uma série de raciocínios sofísticos que se encadeiam com uma aparência de lógica. Nos meios empregados para o seduzir há uma arte verdadeiramente infernal e, se nos tivesse sido possível relatar todas essas comunicações, ver-se-ia até que ponto era levada a astúcia, e com que habilidade para isso eram empregadas palavras melífluas.
O Espírito que representava o principal papel nesse caso dava o nome de François Dillois, quando não se cobria com a máscara de um nome respeitável. Mais tarde soubemos o que em vida houvera sido esse tal Dillois e, desde então, nada mais nos surpreendeu em sua linguagem. Todavia, no meio de todas essas extravagâncias, era fácil reconhecer um Espírito bom que lutava, fazendo de quando em quando ouvir algumas palavras boas para desmentir os absurdos do outro; havia, evidentemente, um combate, mas a luta era desigual; o moço estava de tal forma subjugado, que sobre ele era impotente a voz da razão. O Espírito de seu pai fez-lhe escrever especialmente isso: “Sim, meu filho, coragem! Sofres uma rude prova que será para o teu bem, no futuro; infelizmente, neste momento, nada posso fazer para te libertar e isto me custa bastante. Vai ver Allan Kardec; escuta-o; ele te salvará.”
Realmente, o Sr. F... veio procurar-me e contou-me sua história. Fiz com que escrevesse diante de mim e, desde logo reconheci a influência perniciosa sob a qual se achava submetido, seja pelas palavras, seja por certos sinais materiais que a experiência dá a conhecer e que não nos podem enganar. Voltou diversas vezes; empreguei toda a minha força de vontade para chamar os Espíritos bons por seu intermédio, toda a minha retórica para provar-lhe que era vítima de Espíritos detestáveis; que aquilo que escrevia não tinha o menor sentido e, além disso, era profundamente imoral. Para essa obra de caridade associei-me a um de meus companheiros mais devotados, o Sr. T..., e aos poucos conseguimos fazer com que escrevesse coisas sensatas. Tomou seu mau gênio em aversão, repelindo-o voluntariamente toda vez que tentava manifestar-se e, pouco a pouco, apenas os Espíritos bons prevaleceram. Para renunciar às suas idéias, e seguindo conselhos dos Espíritos, entregou-se completamente a um rude trabalho, que não lhe deixava tempo para ouvir as sugestões más. O próprio Dillois acabou por confessar-se vencido, exprimindo o desejo de melhorar-se numa nova existência; confessou o mal que tinha tentado fazer e deu demonstrações de arrependimento. A luta foi longa, penosa, e ofereceu particularidades realmente curiosas para o observador.
Hoje, o Sr. F... sente-se libertado e é feliz; parece que se livrou de um fardo. Recuperou a alegria e nos agradece pelo serviço que lhe prestamos.
Algumas pessoas deploram que haja Espíritos maus. De fato, não é sem um certo desencanto que encontramos a perversidade neste mundo, onde só gostaríamos de encontrar seres perfeitos.
Desde que as coisas são assim, nada podemos fazer: é preciso aceitá-las como são. É a nossa própria inferioridade que faz com que os Espíritos imperfeitos pululem à nossa volta; as coisas mudarão quando nos tornarmos melhores, como já ocorreu nos mundos mais adiantados. Enquanto esperamos, e considerando que nos achamos ainda nas regiões mais inferiores do universo moral, somos advertidos: cabe-nos, então, pôr-nos em guarda e não aceitar, sem controle, tudo quanto nos dizem os Espíritos. Ao esclarecer-nos, a experiência nos torna circunspectos. Ver e compreender o mal é uma maneira de nos preservarmos contra ele. Não haveria perigo muito maior em nos deixarmos iludir quanto à natureza dos Espíritos que nos rodeiam? O mesmo acontece aqui, onde estamos expostos diariamente à malevolência e às sugestões pérfidas; são outras tantas provas, às quais a nossa razão, a nossa consciência e o nosso julgamento nos fornecerão os meios de resistir. Quanto mais difícil for a luta, maior será o mérito do sucesso: “Quem vence sem perigo triunfa sem glória.”
Essa história, que infelizmente não é a única do nosso conhecimento, levanta uma questão muito grave. Não terá sido, para esse rapaz, um aborrecimento muito grande o haver sido médium? Não foi essa faculdade a causa da obsessão de que foi vítima? Numa palavra, não será uma prova do perigo das comunicações espíritas? Nossa resposta é fácil, e pedimos que nela meditem cuidadosamente.
Não foram os médiuns que criaram os Espíritos, já que estes sempre existiram e em todas as épocas têm exercido sua influência, salutar ou perniciosa, sobre os homens. Para isso, pois, não é necessário ser médium. Para eles a faculdade mediúnica nada mais é do que um meio de se manifestarem; na ausência de tal faculdade, eles o fazem de mil outras maneiras. Se esse moço não fosse médium, nem por isso deixaria de sofrer a influência desse Espírito mau que, sem dúvida, fa-lo-ia cometer extravagâncias que teriam atribuído a outras causas. Felizmente, para ele, a sua faculdade de médium permitiu ao Espírito que se comunicasse por palavras, e foi por estas que o Espírito se traiu; elas permitiram conhecer as raízes de um mal que poderia ter tido conseqüências funestas e que, como se viu, nós a destruímos por meios bem simples, bem racionais e sem exorcismos. A faculdade mediúnica permitiu ver o inimigo face a face, se assim nos podemos exprimir, e de o combater com suas próprias armas. Pode-se, pois, dizer com inteira certeza que foi ela que o salvou; quanto a nós, fomos apenas o médico que, tendo julgado a causa do mal, aplicamos o remédio. Seria grave erro acreditar que os Espíritos somente exercem sua influência através de comunicações escritas ou verbais; essa influência se dá em todos os momentos e a ela, tanto quanto os outros, estão expostos aqueles que não crêem nos Espíritos: estes, talvez, mais expostos ainda, pelo próprio fato de a ignorarem. A quantos atos, infelizmente, não somos impelidos, e que teriam sido evitados se tivéssemos tido um meio de nos esclarecermos! Os mais incrédulos não se dão conta de que dizem uma verdade quando afirmam, a propósito de um homem que se desencaminha com obstinação: É o seu mau gênio que o empurra para a perdição.
Regra geral – Quem quer que obtenha más comunicações espíritas, escritas ou verbais, está submetido a uma má influência; tal influência se exerce sobre aquele que escreve, ou não, isto é, seja ou não médium. A escrita proporciona um meio de nos assegurarmos da natureza dos Espíritos que agem sobre ele e de os combater, o que se faz ainda com maior sucesso quando conseguimos saber o motivo que os levam a agir. Se for bastante cego para não o compreender, outros poderão abrir-lhe os olhos. Aliás, precisa-se ser médium para escrever coisas absurdas? E quem garante que entre todas essas elucubrações ridículas ou perigosas não haverá algumas cujos autores são impelidos por Espíritos malévolos? Três quartas partes de nossas ações más e de nossos maus pensamentos representam o fruto dessa sugestão oculta.
Perguntarão se teríamos feito cessar a obsessão, caso o Sr. F... não fosse médium! Certamente; apenas os meios teriam diferido, conforme as circunstâncias; mas, então, os Espíritos não o teriam enviado a nós, como o fizeram, e é provável que a causa tivesse sido levada em consideração, desde que não havia manifestação espírita ostensiva. Todo homem de boa vontade, e que é simpático aos Espíritos bons, com o auxílio destes poderá sempre neutralizar a influência dos maus. Dizemos que deve ser simpático aos Espíritos bons, porque se ele próprio atrai os inferiores, é evidente que não se caça lobo com lobo.