Livros Espíritas
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Aliás, senhores, não penseis que a opinião dos que criticam a organização da Sociedade seja a dos verdadeiros amigos do Espiritismo; não, é a dos seus inimigos, que estão melindrados por ver a Sociedade prosseguir seu caminho com calma e dignidade, através das emboscadas que lhe armaram e ainda armam. Eles lamentam que o acesso a ela seja difícil, porque ficariam contentíssimos de aqui semear a perturbação. Por isso também a censuram, por limitar o círculo de seus trabalhos, sob o pretexto de que não se ocupa senão de coisas insignificantes e sem alcance, já que se abstém de tratar de questões políticas e religiosas; gostariam de vê-la entrar na controvérsia dogmática. Ora, é isso precisamente que os denuncia. Com muita prudência a Sociedade se fechou num círculo inatacável à malevolência. Ferindo o seu amor-próprio, queriam arrastá-la por um caminho perigoso, mas ela não se deixará levar. Ocupando-se exclusivamente das questões que interessam à Ciência, e que não podem fazer sombra a ninguém, ela se pôs ao abrigo dos ataques e assim deve permanecer. Por sua prudência, moderação e sabedoria, conciliou a estima dos verdadeiros espíritas, estendendo-se a sua influência até países distantes, de onde aspiram a honra de dela fazer parte. Ora, essa homenagem que lhe é prestada por pessoas que só a conhecem de nome, por seus trabalhos e pela consideração que conquistou, é-lhe cem vezes mais preciosa que o sufrágio dos imprudentes muito apressados, ou dos malévolos que queriam arrastá-la à sua perda e ficariam muito contentes por vê-la comprometida. Enquanto eu tiver a honra de a dirigir, todos os meus esforços tenderão a mantê-la nesta via. Se algum dia dela saísse, eu a deixaria no mesmo instante, porque a preço algum desejaria assumir essa responsabilidade. Não obstante isso, senhores, sabeis das vicissitudes por que a Sociedade tem passado. Tudo quanto aconteceu antes e depois foi anunciado e tudo se realizou como fora previsto. Seus inimigos queriam sua ruína; os Espíritos, que a sabiam útil, queriam a sua conservação, de modo que ela se manteve e se manterá enquanto for indispensável aos seus objetivos. Se tivésseis observado, como pude fazê-lo, as coisas nos seus íntimos detalhes, não desconheceríeis a intervenção de um poder superior, que para mim é manifesto, e teríeis compreendido que tudo foi para o melhor e no interesse de sua própria conservação. Mas tempo virá em que, tal qual o é atualmente, ela já não será indispensável. Então veremos o que teremos a fazer, porque a marcha está traçada em vista de todas as eventualidades. Os mais perigosos inimigos da Sociedade não são os de fora: podemos fechar-lhes as portas e os ouvidos. Os mais temíveis são os inimigos invisíveis, que aqui poderiam introduzir-se mau grado nosso. Cabe a nós provar-lhes, como já o temos feito, que perderiam o tempo se tentassem impor-se a nós. Sua tática, bem o sabemos, é procurar semear a desunião, lançar o facho da discórdia, inspirar a inveja, a desconfiança e as susceptibilidades pueris que geram a desafeição. Oponhamos-lhes a muralha da caridade, da mútua benevolência, e seremos invulneráveis, tanto contra suas malignas influências ocultas quanto contra as diatribes de nossos adversários encarnados, que mais se ocupam de nós, do que nós deles; porque podemos dizer, sem amor-próprio, que aqui jamais seu nome foi pronunciado, seja por uma questão de conveniência, seja porque temos de nos ocupar de coisas mais úteis. Não forçamos ninguém a vir a nós. Acolhemos com prazer e solicitude as pessoas sinceras e de boa vontade, seriamente desejosas de esclarecimento, e destas encontramos muitas para não perdermos tempo correndo atrás dos que nos voltam as costas por motivos fúteis, de amor-próprio ou de inveja. Estes não podem ser considerados como verdadeiros espíritas, apesar das aparências. É possível que creiam nos fatos, mas, seguramente, não acreditam nas suas conseqüências morais, pois, ao contrário, mostrariam mais abnegação, indulgência, moderação, e menos presunção de infalibilidade. Procurá-los seria mesmo prestar-lhes um mau serviço, porque seria fazer crer em sua importância e que não podemos passar sem eles. Quanto aos que nos denigrem, também não nos devemos preocupar; homens que valem cem vezes mais que nós foram denegridos e ridicularizados; não poderíamos ter privilégio quanto a esse ponto. Cabe-nos provar por nossos atos que suas diatribes não encontram ressonância, e as armas de que se servem voltar-se-ão contra eles. Depois de ter, no início, agradecido aos Espíritos que nos assistem, não devemos esquecer os seus intérpretes, alguns dos quais nos dão seu concurso com um zelo, uma complacência jamais desmentidos. Em troca, não lhes podemos oferecer senão um estéril testemunho de nossa satisfação. Mas o mundo dos Espíritos os espera, e lá todos os devotamentos são levados em conta na razão do desinteresse, da humildade e da abnegação. Em resumo, senhores, durante o ano que passou nossos trabalhos marcharam com perfeita regularidade e nada os interrompeu. Uma multidão de fatos do mais alto interesse foi relatado, explicado e comentado; questões muito importantes foram resolvidas; todos os exemplos que passaram sob nossos olhos pelas evocações, todas as investigações a que nos entregamos vieram confirmar os princípios da ciência e fortalecer as nossas crenças; numerosas comunicações, de incontestável superioridade, foram obtidas por diversos médiuns; a província e o estrangeiro nos remeteram algumas deveras notáveis, provando não só quanto o Espiritismo se espalha, mas, também, sob que ponto de vista grave e sério ele agora é encarado por toda parte. Sem dúvida este é um resultado pelo qual devemos nos sentir felizes, mas há outro não menos satisfatório e que é, aliás, uma conseqüência do que havia sido predito desde a origem: é a unidade que se estabelece na teoria da doutrina, à medida que é estudada e mais bem compreendida. Em todas as comunicações que nos chegam de fora encontramos a confirmação dos princípios que nos são ensinados pelos Espíritos, e, como as pessoas que as recebem nos são, na maioria, desconhecidas, não se pode dizer que sofram a nossa influência. O princípio mesmo da reencarnação, que inicialmente havia encontrado muitos contraditores, porque não era compreendido, é hoje aceito pela força da evidência e porque todo homem que pensa nele reconhece a única solução possível do maior número de problemas da filosofia moral e religiosa. Sem a reencarnação somos detidos a cada passo, tudo é caos e confusão; com a reencarnação tudo se esclarece, tudo se explica da maneira mais racional. Se ela ainda encontra alguns adversários mais sistemáticos que lógicos, seu número é muito restrito. Ora, quem a inventou? Seguramente não fostes vós, nem eu; ela nos foi ensinada, nós a aceitamos: eis tudo o que fizemos. De todos os fenômenos que surgiram no princípio, bem poucos sobrevivem hoje, e pode-se dizer que os seus raros partidários estão, principalmente, entre pessoas que julgam à primeira vista e, muitas vezes, conforme idéias preconcebidas e prevenções. Mas agora é evidente que quem quer que se dê ao trabalho de aprofundar todas as questões e julgar friamente, sem prevenção, sobretudo sem hostilidade sistemática, é levado invencivelmente, tanto pelo raciocínio quanto pelos fatos, à teoria fundamental que, pode-se dizer, hoje prevalece em todos os países do mundo. Por certo, senhores, a Sociedade não fez tudo para este resultado. Mas, sem vaidade, creio que ela pode reivindicar uma pequena parte; sua influência moral é maior do que se pensa, precisamente porque jamais se desviou da linha de moderação que se traçou. Sabe-se que ela se ocupa exclusivamente de seus estudos, sem se deixar desviar pelas mesquinhas paixões que se agitam à sua volta; que o faz seriamente, como deve fazer toda assembléia científica; que persegue o seu objetivo sem se misturar com nenhuma intriga, sem atirar pedras em ninguém, sem mesmo recolher as que lhe atiram. Sem sombra de dúvida, eis a principal causa do crédito e da consideração de que desfruta, dos quais pode sentir-se orgulhosa e que dá certo peso à sua opinião. Continuemos, senhores, por nossos esforços, por nossa prudência e pelo exemplo da união que deve existir entre os verdadeiros espíritas, a mostrar que os princípios que professamos não são para nós letra morta e que tanto pregamos pelo exemplo quanto pela teoria. Se nossas doutrinas encontram tanta ressonância é que, aparentemente, as acham mais racionais que as outras. Duvido que acontecesse o mesmo se tivéssemos professado a doutrina da intervenção exclusiva do diabo e dos demônios nas manifestações espíritas, doutrina hoje completamente ridícula, que mais excita a curiosidade do que amedronta, à exceção de algumas pessoas timoratas, que por si mesmas em breve reconhecerão a sua futilidade.
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