Livros Espíritas
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A frase inteligente e bondosa sossegou o colega deprimido e ofegante. Desejoso talvez de desfazer as nuvens que se adensavam naquele reduto doméstico e de o transformar em abençoado santuário, nosso Instrutor convidou-nos a visitar o menino enfermo, sem perda de tempo. Saldanha indicou a figura estranha de Gaspar, que parecia surdo e insensível ao que se passava, e lembrou: — Deixá-lo-emos sozinho por algumas horas. Aliás, precisamos, pelo menos, de um dia, a fim de fortificarmos a defensiva. A falange de Gregório não nos perdoará. Nosso Instrutor sorriu em silêncio e ausentamo-nos. Soprava brando e fresco vento da madrugada e pesada quietude reinava nas vias suburbanas que cruzávamos a passo rápido. Leôncio, à frente, mostrou-nos confortável vivenda e informou: — Aqui mesmo. Entramos. Em aposentos diversos, a dona da casa e o enfermeiro dormiam à solta, enquanto um pequeno simpático gemia, quase imperceptivelmente, demonstrando angústia e mal-estar. Notava-se nele a devastação operada pelos tóxicos insistentes. Profunda melancolia estampava-se-lhe no olhar. Leôncio, o temido hipnotizador, abraçou-o e esclareceu: — Os venenos sutis, que ingere em doses diminutas e sistemáticas, invadem-lhe o corpo e a alma. Fios magnéticos e invisíveis ligavam, ali, pai e filho, porque o menino, num lance comovedor, embora a prostração em que se achava, contemplou, embevecido, o retrato grande do paizinho, suspenso da parede, e falou, súplice, baixinho: — Papai, onde está o senhor?… Tenho medo, muito medo… Lágrimas ardentes seguiram-lhe a prece inesperada e o hipnotizador de Margarida, que até então se nos afigurara um gênio horrível, prorrompeu em pranto emocionante. Gúbio ausentou-se por momentos e regressou trazendo Felício, o enfermeiro, provisoriamente desligado do aparelho fisiológico. O rapaz, não obstante semi-inconsciente, ao avistar Elói junto ao doentinho, procurou recuar, num impulso de evidente pavor, mas nosso dirigente conteve-o, sem aspereza. Meu colega abeirou-se dele, já de fisionomia transfigurada, buscando dirigir-lhe a palavra. O Instrutor, no entanto, afagou-o com a destra e avisou: — Elói, não interfiras. Não te encontras em condições sentimentais de operar com êxito. A indignação afetiva denunciar-te-ia a inabilidade provisória para atenderes a este gênero de serviço. Atuarás no fim. Em seguida, Gúbio aplicou passes de despertamento em Felício para que a mente dele acompanhasse a lição daquela hora, dentro do mais alto estado de consciência que lhe fosse possível, notando-se que o paciente passou a fixar-nos com mais clareza, envergonhado e espantadiço. Fitou Elói, positivamente amedrontado, e reparando Leôncio a chorar sobre o filhinho, fez novo movimento de recuo, interrogando embora: — Quê? Pois este monstro chora? Gúbio aproveitou a pergunta brutalmente desfechada e interveio, sereno: — Não concedes a um pai o direito de emocionar-se ante o filhinho perseguido e doente? — Sei apenas que ele é para mim um inimigo implacável, — comentou o irmão de Elói, com insofreável animosidade, — e reconheço-o, de perto. É o marido de Avelina… A princípio, via-o nos odiosos retratos que povoam esta casa… depois passou a flagelar-me nas horas de sono… — Escuta! — Disse-lhe o orientador, com inflexão de carinho, — quem terá assumido a posição de adversário, em primeiro lugar? O coração dele, humilhado e ferido nos sentimentos mais altos que possui, ou o teu que urdiu deplorável projeto de conquista sentimental ante uma viúva indefesa? O dele que padece nos zelos inquietantes de pai ou o teu que comparece neste lar com o escuro propósito de assassinar-lhe o filhinho?! — Mas, Leôncio é um “morto”! — Suspirou o enfermeiro, desapontado. E não hás de sê-lo, um dia, — tornou o nosso dirigente, — quando houveres restituído o corpo de carne ao inventário de pó? E porque o interlocutor não pudesse prosseguir, conturbado pelas forças desintegrantes da culpa, o Instrutor continuou: — Felício, porque insistes no condenável enredo com que preparas tão calculado crime? Não te compadeces, porventura, de uma criança enferma e sem pai visível? Tens Leôncio na conta dum monstro, por defender o frágil rebento do coração, tal como a ave que ataca, ainda que impotente, na ânsia de preservar o ninho… Que dizer, porém, de ti, meu irmão, que não vacilas em devassar este santuário, tão somente com o instinto de gozo e poder? Como interpretar-te o gesto lastimável de enfermeiro que se vale do divino dom de aliviar e curar para perturbar e ferir? Felício, a experiência humana, confrontada com a eternidade em que se movimentará a consciência, é simples sonho ou pesadelo de alguns minutos. Porque comprometer o futuro ao preço do conforto ilusório de alguns dias? Os que plantam espinhos colhem espinhos na própria alma e comparecem perante o Senhor de mãos convertidas em garras abomináveis. Os que espalham pedras em derredor dos pés alheios serão surpreendidos, mais tarde, pelo endurecimento e paralisia do próprio coração. Guardas, porventura, suficiente noção da responsabilidade que assumes? Possuis ainda no coração evidentes restos de bondade igual à daqueles que se acolhem no âmbito de uma família abençoada e grande, em cujo seio a solidariedade é cultivada, desde os primórdios da luta. Vejo que o entusiasmo juvenil não se extinguiu, de todo, em tua mente. Porque ceder às sugestões do crime? Não te comove a prostração deste menino a quem procuras impor a morte vagarosa? Repara! O drama de Leôncio não se resume ao conflito de um “morto”, como supões em teu perturbado raciocínio. Ausculta-lhe o coração de pai amoroso e dedicado! Encontrarás dentro dele a afeição doce e pura, à maneira do brilhante oculto no cascalho rijo e contundente. O irmão de Elói pousava em nosso Instrutor os olhos medrosos e espantados. Depois de leve pausa, Gúbio continuou: — Aproxima-te. Vem a nós. Perdeste a capacidade de amar? Leôncio é teu amigo, nosso irmão. Felício gritou com visível expressão de angústia: — Quero ser bom, mas não posso… Tento melhorar-me e não consigo… De voz entrecortada pelos soluços, acrescentou: — E o dinheiro? Como resgatarei os débitos contraídos? Sem o casamento com Avelina, a solução é impraticável! Nosso dirigente abraçou-o e aduziu: — E acreditas solver compromissos financeiros provocando dívidas morais que te atormentarão por tempo indeterminado? Ninguém te proíbe o casamento, nem Leôncio, o organizador dos bens materiais de que pretendes dispor, discricionariamente, te poderia induzir à abstenção nesse sentido. Os atos de cada homem e de cada mulher arquitetam-lhes os destinos. Somos responsáveis por todas as deliberações que perfilharmos ante os programas do Eterno e não poderíamos interferir em teu livre arbítrio, mas te pedimos concurso em benefício desta vida frágil que deve continuar… Queres dinheiro, recursos que te façam respeitado ou temido pelos outros homens. Convence-te, porém, de que a fortuna é uma coroa pesada demais para a cabeça que não sabe sustentá-la e costuma arrojar à poeira, através do cansaço e da desilusão, todos aqueles que a senhoreiam, sem horizontes largos de trabalho e benemerência. Não importa, pois, que comandes os valiosos depósitos de prata e ouro que Leôncio amontoou, inadvertidamente, porque aprenderás, com os anos, que a felicidade não está metida em cofres que a ferrugem consome. Todavia, Felício, interessamo-nos por tua promessa em favor desta criança, extenuada de sofrimento. Poupa-lhe o corpo tenro e aguarda o futuro! Não tragas para o reino da morte semelhante delito, que te confinaria o Espírito a furnas trevosas de expiação regeneradora. Ante a interrupção que se impusera natural, Felício quis dizer qualquer coisa para justificar-se, mas não pôde. Gúbio, todavia, prosseguiu, sereno: — Casa-te, esbanja as reservas preciosas deste lar se não souberes entender a tempo a sagrada missão do dinheiro; sobe aos píncaros da vida social transitória, adorna-te com os títulos convencionais com que o mundo inferior se habituou a premiar as criaturas sagazes que sobem a ladeira da dominação inútil ou ruinosa, sem ferir-lhe publicamente os preconceitos, porque o tempo te esperará sempre, com lições de mestre; sem embargo, ajuda o pequenino a restabelecer-se. E endereçando compassivo olhar ao hipnotizador de Margarida, acentuou: — Não é bem isto, Leôncio, quanto desejamos? — Sim, — confirmou o pobre pai em lágrimas enternecidas, — o dinheiro não importa e agora reconheço que Avelina é tão livre quanto eu mesmo. Mas se meu filhinho continuar na Terra, tenho esperanças em minha própria regeneração. Terei nele um companheiro e um amigo, ligado à minha memória, em cuja capacidade de servir poderei encontrar bendito campo de serviço espiritual. Este menino, por enquanto, é o único meio de que disponho para retomar a crença no bem de que me havia afastado. Reconhecendo-lhe o doloroso esforço para falar e rogar naquela hora, Gúbio abraçou-o, ergueu-o e disse: — Leôncio, Jesus crê na cooperação dos homens, tanto assim que nos tolera as imperfeições renitentes até que aceitemos o imperativo de nossa conversão pessoal ao supremo bem. Porque havíamos então de descrer? Confio na renovação de Felício. De hoje em diante, o teu filhinho não será mais vigiado por um perseguidor e, sim, protegido por desvelado benfeitor, digno de nosso concurso fraterno! O enfermeiro, vencido por semelhantes palavras, ajoelhou-se, diante de nós, e jurou: — Em nome da Justiça Divina, prometo amparar esta criança, como verdadeiro pai!
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