Livros Espíritas
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— Desejarão, acaso, modificar o meu rumo, como já tentaram? — Perguntou Marinho, curioso. — Naturalmente foram avisados de seu novo estado íntimo, — aduziu Necésio, decidido, — e talvez pretendam oferecer-lhe vantagens novas. Quem sabe? O interlocutor pensou alguns minutos e voltou a fazer indagações, quanto aos seus prováveis benfeitores. O nosso companheiro, porém, informou com serenidade: — Não dispomos de tempo para muitas elucidações. Creio que o amigo, como aconteceu comigo mesmo, lucrará muitíssimo. Entretanto, se deseja tentar uma solução para o seu caso, não podemos perder os minutos. Via-se que Marinho penetrava o terreno obscuro da indecisão; no entanto, sua genitora desencarnada enlaçou-o com mais carinho, a pedir-lhe mentalmente que acompanhasse o mensageiro, sem hesitação. Impossibilitado de oferecer resistência àquela vigorosa imposição magnética do amor maternal, exclamou, resoluto: — Vamo-nos! Necésio estendeu-lhe o braço de irmão e retiramo-nos, apressadamente, por uma das pequenas portas laterais. Em breves minutos, penetrávamos o conhecido recinto de orações e trabalhos espirituais. Observei que muitos servidores de nossa Esfera mantinham-se de mãos dadas, formando extensa corrente protetora da mesa consagrada aos serviços da noite. O quadro era para mim uma novidade. Alexandre, porém, explicou-me, discreto: — Trata-se da cadeia magnética necessária à eficiência de nossa tarefa de doutrinação. Sem essa rede de forças positivas, que opera a vigilância indispensável, não teríamos elementos para conter as entidades perversas e recalcitrantes. O instrutor, porém, fez-me perceber que a hora não comportava conversações e, auxiliando Necésio, localizou Marinho dentro do círculo magnético, onde, com surpresa, verifiquei a presença de outros desencarnados sofredores, trazidos por outros pequenos grupos de amigos espirituais e que, por sua vez, aguardavam a oportunidade de doutrinação. Sentindo, agora, o ambiente em que se achava, Marinho quis recuar, mas não pôde. A fronteira vibratória estabelecida pelos nossos colaboradores, a reduzida distância da mesa de fraternidade, impedia-lhe a fuga. — Isto é um logro! — Clamou, revoltado. — Sossegue! — Respondeu-lhe Necésio, sem se alterar, — você conquistará grande alívio. Espere! Poderá desabafar suas mágoas e ouvir a palavra compassiva de um orientador cristão, ainda encarnado. E em seguida, quem sabe? Talvez possa ver algum ente querido que se encontre em zonas mais altas, à espera de seu fortalecimento e iluminação… — Não quero! Não quero! — Bradava o infeliz. — Sabe assim a verdade, meu amigo? — Perguntou-lhe o nosso companheiro, com inflexão de ternura. — Poderá adivinhar a procedência do socorro de hoje? Conseguirá lembrar-se de quem me enviou ao seu encontro? O sacerdote desencarnado fixou nele os olhos tomados de expressão terrível, mas Necésio, sem perder a calma, falou, depois de uma pausa mais longa: — Sua mãe! Marinho escondeu o rosto nas mãos e prorrompeu em pranto angustioso. A esse tempo, secundado por diversos auxiliares, Alexandre prestava ao organismo de Otávia o máximo de concurso fraterno, em cotas abundantes de recursos magnéticos. Compreendi que, se para os fenômenos de intercâmbio com os desencarnados esclarecidos era necessário o auxílio de nosso Plano ao campo mediúnico, no caso presente essa cooperação deveria ser muito maior, em vista da condição dolorosa e lastimável dos comunicantes. Com efeito, a médium Otávia recebia os mais vastos recursos magnéticos para a execução de sua tarefa. Daí a minutos, providenciava-se a incorporação de Marinho, que tomou a intermediária sob forte excitação. Otávia, provisoriamente desligada dos veículos físicos, mantinha-se agora algo confusa, em vista de encontrar-se envolvida em fluidos desequilibrados, não mostrando a mesma lucidez que lhe observara anteriormente; todavia, a assistência que recebia dos amigos de nosso Plano era muito maior. Um instrutor de elevada condição hierárquica substituiu Alexandre junto da médium, passando o meu orientador a inspirar diretamente o colaborador encarnado, que dirigia a reunião. Enquanto isto ocorria, vários ajudantes de serviço recolhiam as forças mentais emitidas pelos irmãos presentes, inclusive as que fluíam abundantemente do organismo mediúnico, o que, embora não fosse novidade, me surpreendeu pelas características diferentes com que o trabalho era levado a efeito. Não pude conter-me e interpelei um amigo em atividade nesse setor. — Esse material, — explicou-me ele, bondosamente, — representa vigorosos recursos plásticos para que os benfeitores de nossa Esfera se façam visíveis aos irmãos perturbados e aflitos ou para que materializem provisoriamente certas imagens ou quadros, indispensáveis ao reavivamento da emotividade e da confiança nas almas infelizes. Com os raios e energias, de variada expressão, emitidos pelo homem encarnado, podemos formar certos serviços de importância para todos aqueles que se encontrem presos ao padrão vibratório do homem comum, não obstante permanecerem distantes do corpo físico. Compreendi a elucidação, reconhecendo que, se é possível efetuar uma sessão de materialização para os companheiros encarnados, noutro sentido a mesma tarefa poderia ser levada a efeito para os irmãos desencarnados, de condição inferior. Admirando a excelência e a amplitude das atividades dos nossos orientadores, fixei a minha atenção na palestra que se estabeleceu entre Marinho, incorporado em Otávia, e o doutrinador humano, orientado intuitivamente por Alexandre. A princípio, o sacerdote demonstrava imenso desespero e pronunciava palavras fortes que lhe denunciavam a rebeldia. O interlocutor, contudo, falava-lhe com serenidade cristã, revelando-lhe a superioridade do Evangelho vivido sobre o Evangelho interpretado. A certa altura da doutrinação, percebi que Alexandre chamava a si um dos diversos cooperadores que manipulavam os fluidos e forças recolhidos na sala e recomendou-lhe que ajudasse a genitora de Marinho a tornar-se visível para ele. Notei que a senhora desencarnada, com os préstimos de outros amigos, atendeu imediatamente, ao passo que Alexandre, abandonando por momentos o seu posto junto ao doutrinador, aplicou passes magnéticos na região visual do comunicante, compreendendo, então, que ali se encontravam em jogo interessantes princípios de cooperação. A genitora amorosa resignava-se ao envolvimento em vibrações mais grosseiras, por alguns minutos, enquanto o filho elevaria a percepção visual até o mais alto nível ao seu alcance, para que pudessem efetuar um reencontro temporário de benéficas consequências para ele. Voltou Alexandre a fixar-se ao lado do dirigente e, com surpresa, ouvi que o amigo encarnado desafiava o exasperado comunicante, agindo francamente por intuição com a sua voz quente de sinceridade no ministério do amor fraternal: — Observe em volta de si, meu irmão! Exclamava o doutrinador, comoventemente, — reconhece quem se encontra ao seu lado? Foi então que o sacerdote lançou um grito terrível: — Minha mãe! — Disse ele, alarmado de dor e vergonha, — minha mãe!… — Porque não render-se ao amor de Nosso Pai Celeste, meu filho? — Disse a genitora, emocionada, abraçando-o, — chega de vãs discussões e de contendas intelectuais! Marinho, a porta de nossas ilusões terrenas cerraram-se com os nossos olhos físicos!… Não transfira para cá nossos velhos enganos! Atenda-me! Não se revolte mais! Humilhe-se diante da verdade! Não me faça sofrer por mais tempo!… Os encarnados presentes viam tão somente o corpo de Otávia, dominado pelo sacerdote que lhes era invisível, quase a rebentar-se de soluços atrozes, mas nós víamos além. A nobre senhora desencarnada sentou-se ao lado do filho e começou a beijá-lo, em lágrimas de reconhecimento e amor. Pranto copioso identificava-os. Cobrando forças novas, a genitora continuou: — Perdoe-me, filho querido, se noutra época induzi o seu coração à responsabilidade eclesiástica, modificando o curso de suas tendências. Suas lutas de agora atingem-me a alma angustiada. Seja forte, Marinho, e ajude-me! Desvencilhe-se dos maus companheiros! Não vale rebelar-se. Nunca fugiremos à lei do Eterno! Onde você estiver, a voz divina se fará ouvir no imo da consciência… Nesse momento, observei que o sacerdote recordou instintivamente os amigos, tocado de profundo receio. Agora, que reencontrava a mãezinha carinhosa e devotada a Deus, que sentia a vibração confortadora do ambiente de fraternidade e fé, sentia medo de regressar ao convívio dos colegas endurecidos no mal. Apertou a destra materna, confiante, e perguntou: — Oh! Minha mãe, posso acompanhá-la para sempre? A entidade amorável contemplou-o, com redobrado amor, através do véu de pranto, e respondeu: — Por enquanto, não, meu filho! Poderá você distanciar-se do desequilíbrio, neste momento, quebrar todos os elos que o prendem às zonas inferiores, abandonando-as de vez; entretanto, há que transformar sua condição vibratória, através da renovação íntima para o bem, mediante a qual é possível nossa reunião em breve, no Lar Divino. Não tenha receio, porém. Providenciaremos todos os recursos necessários à sua vida nova, desde que você modifique sinceramente os propósitos espirituais. Dê-nos a boa vontade fiel e Jesus nos auxiliará, quanto ao resto!… Temos aqui um desvelado amigo que nos prestará sua valiosa colaboração. Refiro-me a Necésio, o bom irmão que o trouxe ao nosso encontro. Ele colocará à sua disposição os recursos precisos à conduta diferente.
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[Na 1ª edição desse livro, o linotipista repetiu o texto da linha anterior, omitindo o texto a seguir: “falava-lhe com serenidade cristã, revelando-lhe a”; texto que foi adicionado pela editora em edições posteriores.]
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