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CAUSAS DA OBSESSÃO E MEIOS DE COMBATÊ-LA (Quinto e último artigo)15 Como puderam notar, o Dr. Constant chegou a Morzine com a idéia de que a causa do mal era puramente física. Podia ter razão, porquanto seria absurdo supor a priori uma influência a todo efeito cuja causa é desconhecida. Segundo ele, esta causa está inteiramente nas condições higiênicas, climáticas e fisiológicas dos habitantes. Longe de nós pretender que ele pensasse o contrário, o que também não seria mais lógico. Dizemos simplesmente que, com sua idéia preconcebida, não viu senão o que queria ver, ao passo que, se ao menos tivesse admitido a possibilidade de outra causa, teria visto outra coisa. Quando uma causa é real, deve poder explicar todos os efeitos que produz. Se certos efeitos vêm contradizê-la, é que é falsa ou não é única e, então, é preciso procurar uma outra. Incontestavelmente é o raciocínio mais lógico e a própria justiça, em suas investigações na busca da criminalidade, não procede de outra maneira. Se se trata de constatar um crime, chega ela com a idéia de que deve ter sido cometido desta ou daquela maneira, por tal ou qual pessoa? Não. Ela observa as menores circunstâncias e, remontando dos efeitos às causas, afasta as que são inconciliáveis com os efeitos observados e, de dedução em dedução, é raro que não chegue à constatação da verdade. Dá-se o mesmo nas ciências. Quando uma dificuldade resta insolúvel, é mais prudente adiar o seu julgamento; então toda hipótese é permitida para tentar resolvê-la. Mas se a hipótese não resolve todos os casos da dificuldade, é que é falsa; e só terá o caráter de uma verdade absoluta se der a razão de tudo. É assim que no Espiritismo, por exemplo, pondo de lado toda constatação material, remontando dos efeitos às causas, chega-se ao princípio da pluralidade das existências, como conseqüência inevitável, porque só ele explica claramente o que nenhum outro pôde explicar. Aplicando este método aos fatos de Morzine, é fácil ver que a causa única admitida pelo Dr. Constant está longe de tudo explicar. Ele constata, por exemplo, que em geral as crises cessam tão logo os doentes deixam o território da comuna. Se, pois, o mal é devido à constituição linfática e à má nutrição dos habitantes, como a causa deixa de agir quando eles transpõem a ponte que os separa da comuna vizinha? Se as crises nervosas não fossem acompanhadas de nenhum outro sintoma, ninguém duvidaria que se pudesse, conforme tudo indica, atribuí-las a um estado constitucional; mas há fenômenos que não podem ser explicados somente por esse estado. Aqui o Espiritismo nos oferece uma comparação admirável. No começo das manifestações, quando se viam as mesas girando, batendo, endireitando-se e se erguendo no espaço sem ponto de apoio, o primeiro pensamento foi que se devesse à ação da eletricidade, do magnetismo ou de um fluido desconhecido. Esta suposição nada tinha de desarrazoado; ao contrário: oferecia toda probabilidade. Mas quando se viu que esses movimentos davam sinais de inteligência, manifestavam uma vontade própria, espontânea e independente, a primeira hipótese teve de ser abandonada porque não resolvia esta fase do fenômeno, sendo necessário que se reconhecesse, no efeito inteligente, uma causa inteligente. Qual era essa inteligência? É ainda pela via da experimentação que a ela se chegou, e não por um sistema preconcebido. Citemos um outro exemplo. Quando Newton, ao observar a queda dos corpos, notou que todos caíam na mesma direção, procurou a causa e formulou uma hipótese. Esta hipótese, resolvendo todos os casos do mesmo gênero, tornou-se a lei da gravitação universal, lei puramente mecânica, porque todos os efeitos eram mecânicos. Mas suponhamos que vendo tombar uma maçã, esta tivesse obedecido à sua vontade; que, ao seu comando, ao invés de descer tivesse subido, fosse para a direita ou para a esquerda, tivesse parado ou entrado em movimento; que, por um sinal qualquer, respondesse ao seu pensamento: ele teria sido forçado a reconhecer algo mais além das leis da mecânica, isto é, não sendo a maçã inteligente por si mesma, devia obedecer a uma inteligência. Foi assim com as mesas girantes; é assim com os doentes de Morzine. Para não falar senão dos fatos observados pelo próprio Dr. Constant, perguntaremos como uma alimentação má e um temperamento linfático podem produzir antipatia religiosa em pessoas naturalmente religiosas e até devotas? Se fosse um fato isolado podia ser uma exceção; mas se reconhece que é geral e que é uma das características da doença, lá e alhures. Eis um efeito; procurai a sua causa. Não a conheceis? Seja; confessai-o, mas não digais que se deve aos hábitos alimentares dos habitantes, que se nutrem de batatas e de pão preto, nem à sua ignorância e tacanhice de espírito, porque vos oporão o mesmo efeito entre gente que vive na abundância e recebeu instrução. Se o conforto bastasse para curar a impiedade, ficaríamos admirados de encontrar tantos ímpios e blasfemadores entre pessoas que de nada se privam. O regime higiênico explicaria melhor este outro fato não menos característico e geral do sentimento de dualidade, que se traduz sem equívoco na linguagem dos doentes? Certamente não. É sempre um desconhecido quem fala; sempre uma distinção entre ele e a mocinha, fato constante nos indivíduos no mesmo caso, seja qual for a classe social a que pertençam. Os remédios são ineficazes por uma boa razão: é que são bons, como diz aquele desconhecido, para a jovem, isto é, para o ser corporal, mas não para o outro, aquele que não é visto e que, entretanto, a faz agir, a constrange, a subjuga, a derruba e se serve de seus membros para bater e de sua boca para falar. Ele diz nada ter visto que justifique a idéia da possessão, embora os fatos estivessem diante de seus olhos, como ele mesmo os cita. Podem ser explicados pela causa que ele lhes atribui? Não. Então esta causa não é verdadeira; como ele via efeitos morais, devia procurar uma causa moral. Um outro médico, o Dr. Chiara, que também visitou Morzine e publicou sua apreciação16, constatou os mesmos fenômenos e os mesmos sintomas que o Dr. Constant. Mas para ele, como para este último, os Espíritos malignos estão na imaginação dos enfermos. Em seu relatório encontramos o seguinte fato, a propósito de uma doente: “O acesso começa por um soluço e movimentos de deglutição, pela flexão e extensão alternativos da cabeça sobre o tronco; em seguida, depois de várias contorções que lhe dão ao rosto tão suave uma expressão aterradora, grita ela ao médico ‘S..., eu sou o diabo...; queres que eu abandone a moça, mas não tenho medo de ti... vem!... há quatro anos que eu a subjugo: ela é minha e nela ficarei. – Que fazes nesta moça? – Eu a atormento. – E por que, infeliz, atormentas uma pessoa que não te fez nenhum mal? – Porque me puseram aqui para atormentá-la. – És um celerado.’ Paro aqui, atordoado por uma avalanche de injúrias e imprecações.” Falando de outra doente, diz ele: “Após alguns instantes de uma cena muda, de uma pantomima mais ou menos expressiva, nossa possessa põe-se a soltar pragas horríveis. Espumando de raiva, injuria-nos a todos com um furor sem igual. Mas – digamos sem demora – não é a moça que assim se exprime; é o diabo que a possui e que, servindo-se de seu órgão, fala em seu próprio nome. Quanto à nossa energúmena, não passa de um instrumento passivo, no qual a noção do eu foi completamente abolida. Se a interpelam diretamente, fica muda: só Belzebu responderá. “Enfim, depois de uns três minutos esse drama assustador cessa de repente, como que por encanto. A jovem B... retoma o ar mais calmo, o mais natural do mundo, como se nada tivesse acontecido. Tricotava antes; ei-la a tricotar depois, parecendo não ter interrompido o trabalho. Interrogo-a; responde não sentir a mais leve fadiga nem se lembrar de nada. Falo-lhe das injúrias que nos dirigiu: ela as ignora; mas parece ficar contrariada e nos pede desculpas. “Em todas essas doentes a sensibilidade geral é completamente abolida. Por mais que as belisquem, piquem ou queimem, nada sentem. Numa delas fiz uma dobra na pele e a atravessei com uma agulha comum: correu sangue, mas ela nada sentiu. “Em Morzine vi ainda várias dessas doentes fora do estado de crise. Eram jovens, corpulentas e saudáveis, gozando da plenitude das faculdades físicas e morais. Vendo-as, era impossível supor a existência da menor afecção.” Isto contrasta com o estado raquítico, macilento e enfermiço que o Dr. Constant julgou ter notado. Quanto ao fenômeno da insensibilidade durante as crises, não é, como se viu, a única semelhança que esses fatos apresentam com o estado cataléptico, o sonambulismo e a dupla vista. De todas as suas observações o Dr. Chiara chegou a esta definição do mal: “É um conjunto mórbido, formado de diferentes sintomas, inerentes em maior ou menor grau ao quadro patológico das doenças nervosas e mentais; numa palavra, é uma afecção sui generis, para a qual conservarei o nome que lhe foi dado, de hístero-demonia, visto ligar pouca importância às denominações.” É o caso de dizer: “Quem tiver ouvidos, ouça.” É um mal particular, formado de diferentes partes e que tem sua fonte um pouco em toda parte. É o mesmo que dizer simplesmente: “É um mal que não compreendo.” É um mal sui generis: estamos de acordo; mas qual esse gênero, ao qual nem mesmo sabeis dar o nome?
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(15) Ver os números de dezembro de 1862, janeiro, fevereiro e abril de 1863. Ver também sobre o mesmo assunto o número de abril de 1862.
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(16) Os Diabos de Morzine, Livraria Mégret, quai de l’Hôpital, 51, Lyon.
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