Livros Espíritas
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Além desta influência moral, o Espiritismo tem outra mais material. Sabe-se que os excessos de todo gênero são uma das causas que mais predispõem para a epidemia reinante. Assim, os médicos recomendam sobriedade em tudo, prescrição salutar, à qual muita gente tem dificuldade de se submeter. Admitindo que o façam, é sem dúvida um ponto importante, mas é de crer-se que uma abstenção momentânea possa reparar instantaneamente as desordens orgânicas causadas por abusos inveterados, degenerados em hábito, que consumiram o corpo e, por isto mesmo, o tornaram acessível aos miasmas deletérios?28 Fora da cólera, não se sabe quanto é pernicioso o hábito da intemperança nos climas tórridos, e naqueles onde a febre amarela é endêmica? Pois bem! o espírita – por efeito de suas crenças e da maneira pela qual encara o objetivo da vida presente e o resultado da vida futura – modifica profundamente os seus hábitos; em vez de viver para comer, come para viver; não pratica nenhum excesso; não vive como cenobita. Assim, usa de tudo, mas não abusa de nada. Isto deve ser, com certeza, uma consideração preponderante a acrescentar à que faz valer o nosso correspondente de Constantinopla. Eis, pois, um dos resultados desta doutrina, sobre a qual a incredulidade lança a injúria e o sarcasmo; que ridiculariza, tacha de loucura e, segundo ela, traz perturbação à sociedade. Guardai vossa incredulidade, se ela vos apraz, mas respeitai uma crença que torna felizes e melhores os que a possuem. É loucura acreditar que nem tudo se acaba com a vida? que depois da morte vivemos uma vida melhor, isenta de preocupações? que voltamos ao meio daqueles a quem amamos? que ao morrer não somos mergulhados nas chamas eternas, sem esperança de sair, o que equivaleria ao nada, nem perdidos na ociosa e beatífica contemplação do infinito? Ah! quisera Deus fossem loucos todos os homens! Haveria entre eles muito menos crimes e suicídios. Numerosas comunicações foram dadas sobre a cólera; várias o foram na Sociedade de Paris ou no nosso círculo íntimo. Reproduzimos apenas duas, fundidas numa só, para evitar as repetições, e porque resumem o pensamento dominante da maioria. (Sociedade de Paris – Médiuns: Srs. Desliens e Morin) Já que a cólera é uma questão de atualidade e cada um traz o seu remédio para rechaçar o terrível flagelo, eu me permitirei, se o quiserdes, dar também a minha opinião, embora me pareça pouco provável que tenhais de temer os doentes de maneira cruel. Entretanto, como é bom que na ocasião não faltem os meios, ponho minha pouca luz à vossa disposição. Dizem que essa afecção não é imediatamente contagiosa, e os que se acham numa localidade onde ela se alastra, não devem temer cuidar dos doentes. Não existe remédio universal contra essa moléstia, seja preventivo, seja curativo, considerando-se que o mal se complica de uma porção de circunstâncias que ora se devem ao temperamento dos indivíduos, ora ao seu estado moral e aos seus hábitos, ora às condições climáticas, o que faz que tal remédio dê resultado em certos casos e não em outros. Pode dizer-se que a cada período de invasão e conforme as localidades, o mal deve ser objeto de estudo especial e requer uma medicação diferente. É assim, por exemplo, que em 1832 e 1849 o gelo e o remédio caseiro puderam curar numerosos casos de cólera em certas regiões, mas deram resultados negativos em outras épocas e em países diferentes. Há, pois, uma imensidão de remédios bons, mas nenhum que seja específico. É essa diversidade nos resultados que tem confundido, e ainda confundirá por muito tempo a Ciência, e faz que nós mesmos não possamos dar um remédio aplicável a todo o mundo, porque a natureza do mal não o comporta. Há, contudo, regras gerais, frutos da observação, das quais importa não se afastar. O melhor preservativo consiste nas precauções de higiene sabiamente recomendadas em todas as instruções dadas a respeito; passam pela limpeza, pelo afastamento de toda causa de insalubridade e dos focos de infecção, e pela abstenção de todos os excessos. A par disto, deve evitar-se a mudança de hábitos alimentares, a não ser para coibir as coisas debilitantes. É preciso evitar também os resfriados, as transições bruscas de temperatura e abster-se, salvo necessidade absoluta, de toda medicação violenta que possa trazer perturbação à economia. Em casos semelhantes, sabeis que o medo, muitas vezes, é pior que o mal. Infelizmente o sangue-frio não se impõe; mas vós, espíritas, não precisais de nenhum conselho sobre este ponto, pois encarais a morte sem pestanejar e com a calma dada pela fé. Em caso de ataque, importa não negligenciar os primeiros sintomas. O calor, a dieta, uma transpiração abundante, as fricções, a água de arroz, acrescida de algumas gotas de láudano, são medicamentos pouco custosos e cuja ação é muito eficaz, se aí vierem juntar-se a energia moral e o sangue-frio. Como muitas vezes é difícil conseguir o láudano na ausência de médico, pode-se substitui-lo, em caso de urgência, por qualquer outra composição calmante, especialmente pelo suco de alface, empregado em dose fraca. Aliás, basta ferver algumas folhas de alface em água de arroz. A confiança em si e em Deus é, em tais circunstâncias, o primeiro elemento da saúde. Agora, que a vossa saúde material está em segurança, permiti-me pensar em vosso temperamento espiritual, ao qual uma epidemia de outro gênero parece querer atacar. Nada temais desse lado; o mal só poderia atingir os seres a quem falta a verdadeira vida espiritual, porquanto, embora vivos, na verdade já estão mortos. Ao contrário, todos os que se devotarem à doutrina, para sempre e sem segundas intenções, nela colherão novas forças, para fazer frutificar os ensinos cuja transmissão consideramos um dever. Seja qual for, a perseguição é sempre útil; torna conhecidos os corações sólidos e, se alguns galhos mal presos se destacarem do tronco, os jovens rebentos, amadurecidos pelas lutas nas quais triunfarão, haverão de tornar-se homens sérios e prudentes. Assim, pois, muita coragem; marchai intimoratos na via que vos é traçada, e contai com aquele que, na medida de suas forças, jamais vos faltará. Doutor Demeure
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(28) N. do T.: Grifos nossos. Isto se aplica particularmente às doenças infecto-contagiosas, cuja manifestação é facilitada pela queda da imunidade celular, que tem, como parte de sua gênese, o depauperamento do organismo, provocado pelos excessos de toda ordem, de que a síndrome da imunodeficiência adquirida – AIDS – é um dos exemplos mais patentes. Embora utilizando terminologia em voga na época, Allan Kardec captou perfeitamente o espírito da questão; seu pensamento, também neste campo, é judicioso e pleno de atualidade.
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