Livros Espíritas
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Meu colega e eu sorrimos, encantados com aquele monumento de compreensão e tolerância. Em derredor, grande massa de substância ectoplásmica leitosa-prateada, da qual se destacavam alguns fios escuros e cinzentos, amontoava-se, abundante. Técnicos de nosso Plano manipulavam-na, com atenção. Áulus fixou a paisagem de trabalho ativo e explicou-nos: — Aí temos o material leve e plástico de que necessitamos para a materialização. Podemos dividi-lo em três elementos essenciais, em nossas rápidas noções de serviço, a saber: — fluidos A, representando as forças superiores e sutis de nossa Esfera; fluidos B, definindo os recursos do médium e dos companheiros que o assistem; e fluidos C, constituindo energias tomadas à Natureza terrestre. Os fluidos A podem ser os mais puros e os fluidos C podem ser os mais dóceis; no entanto, os fluidos B, nascidos da atuação dos companheiros encarnados e, muito notadamente, do médium, são capazes de estragar-nos os mais nobres projetos. Nos círculos, aliás raríssimos, em que os elementos A encontram segura colaboração das energias B, a materialização de ordem elevada assume os mais altos característicos, raiando pela sublimidade dos fenômenos; contudo, onde predominam os elementos B, nosso concurso é consideravelmente reduzido, porquanto nossas maiores possibilidades passam a ser canalizadas na dependência das forças inferiores do nosso Plano, que, afinadas aos potenciais dos irmãos encarnados, podem senhorear-lhes os recursos, invadindo-lhes o campo de ação e inclinando-lhes as experiências psíquicas no rumo de lastimáveis desastres. As elucidações não poderiam ser mais claras. Dispúnhamo-nos a prosseguir no entendimento, todavia, Garcez, um dos técnicos espirituais do serviço, veio até nós, invocando o auxílio magnético de Áulus. O campo fluídico na sala se fizera demasiado espesso. Os pequenos jatos de força ectoplásmica, arremessados até lá, em caráter experimental, tornavam ao gabinete, revelando forte teor de toxinas de variada classificação. As catorze pessoas assembleadas no recinto eram catorze caprichos diferentes. Não havia ali ninguém com bastante compreensão do esforço que se reclamava do mundo espiritual e cada companheiro, ao invés de ajudar o instrumento mediúnico, pesava sobre ele com inauditas exigências. Em razão disso, o médium não contava com suficiente tranquilidade. Figurava-se-nos um animal raro, acicatado por múltiplos aguilhões, tais os pensamentos descabidos de que se via objeto. — Não atingiremos, então, a materialização de ordem superior… — Falou o Assistente, algo preocupado. — De modo algum, — informou Garcez com desapontamento. — Teremos tão só o médium desdobrado, incorporando a nossa enfermeira para socorro às irmãs doentes. Nada mais. Não dispomos do concurso preciso. Áulus atendeu à solicitação que lhe era dirigida e auxiliou magneticamente a transferência de certo coeficiente de energias do vaso físico ao corpo perispiritual que se mostrou vivamente reanimado. O veículo de matéria densa, no leito, desceu à mais funda prostração, mas o médium, em seu perispírito, evidenciava maior vitalidade e maior lucidez. Amigos espirituais envolveram-no em extenso roupão ectoplásmico e a enfermeira uniu-se a ele, comandando-lhe os movimentos. O médium, não obstante ausente do corpo carnal, achava-se controlado pela benfeitora, à maneira de um médium psicofônico, diferenciado apenas pela roupagem singular, estruturada com apetrechos ectoplásmicos imprescindíveis à permanência dele no recinto, onde explodiam pensamentos perturbados e inquietantes. Vendo-o caminhar, inseguro, abraçado pela enfermeira que o movimentava para o serviço assistencial, Hilário, ciciante, falou para o nosso orientador: — O médium está consciente durante o fenômeno? — Fora do corpo sim, mas, possivelmente, não guardará qualquer lembrança, logo regresse ao campo físico. Meu colega ainda aventurou: — Vemo-lo avançar com indumentos materializados e sob a orientação da enfermeira amiga. Entretanto, caso alimente, nessas condições, qualquer desejo menos digno, pode interferir no trabalho, prejudicando-o? — Perfeitamente, — disse Áulus, — ele está sob controle, mas controle não significa anulação. Qualquer impulso infeliz do nosso companheiro correrá por conta do serviço. Daí, a inconveniência das atividades dessa espécie, sem alto objetivo moral. O medianeiro das curas, enlaçado pela entidade generosa, alcançou o estreito aposento, exibindo a roupagem delicada, semelhante a uma túnica de luar, emitindo prateada luz. No entanto, à medida que varava a atmosfera reinante no recinto, a claridade esmaecia, chegando a apagar-se quase de todo. Diante do nosso olhar indagador, o Assistente esclareceu: — A posição neuropsíquica dos companheiros encarnados que nos compartilham a tarefa, no momento, não ajuda. Absorvem-nos os recursos, sem retribuição que nos indenize, de alguma sorte, a despesa de fluidos laboriosamente trabalhados. A convite do orientador, penetramos a sala. Efetivamente, escuras emissões mentais esguichavam contínuas, entrechocando-se de maneira lastimável. Os amigos, ainda na carne, mais se nos figuravam crianças inconscientes. Pensavam em termos indesejáveis, expressando petições absurdas, no aparente silêncio a que se acomodavam, irrequietos. Exigiam a presença de afeições desencarnadas, sem cogitarem da oportunidade e do merecimento imprescindíveis, criticavam essa ou aquela particularidade do fenômeno ou prendiam a imaginação a problemas aviltantes da experiência vulgar. O concurso dos amigos espirituais era ali recebido, não como gentileza de benfeitores, mas como espetáculo fútil a ser obrigatoriamente elaborado por servos ínfimos. Ainda assim, os obreiros do nosso Plano ofereciam o melhor pelo êxito da tarefa. A enfermeira devotada socorreu as doentes, aplicando-lhes raios curativos. Várias vezes, deixou o recinto e tornou a ele, porquanto, à simples aproximação dos pensamentos inadequados que lhe senhoreavam as vibrações, toda a matéria ectoplásmica se ressentia, obscurecendo-se ao bombardeio das formações mentais nascidas da assistência. Terminado que foi o trabalho medicamentoso, um risonho companheiro de nossa Esfera tomou pequena porção das forças materializantes do médium sobre as mãos e afastou-se para trazer, daí a instantes, algumas flores que foram distribuídas com os irmãos encarnados, no intuito de sossegar-lhes a mente excitadiça. Calmando-nos a curiosidade, Áulus esclareceu: — É o transporte comum, realizado com reduzida cooperação das energias medianímicas. Nosso amigo, — e designou com a destra o emissário das flores, — apenas tomou diminuta quantidade de força ectoplásmica, formando somente pequeninas cristalizações superficiais do polegar e do indicador, em ambas as mãos, a fim de colher as flores e trazê-las até nós. — É importante observar, — disse Hilário, — a facilidade com que a energia ectoplásmica atravessa a matéria densa, porque o nosso companheiro, usando-a nos dedos, não encontrou qualquer obstáculo na transposição da parede. — Sim, — comentou o instrutor, — o elemento sob nossa vista é extremamente sutil e, aderindo ao nosso modo de ser, adquire renovada feição dinâmica. — E se fosse o médium o objeto do transporte? Traspassaria a barreira nas mesmas circunstâncias? — Perfeitamente, desde que esteja mantido sob nosso controle, intimamente associado às nossas forças, porque dispomos entre nós de técnicos bastante competentes para desmaterializar os elementos físicos e reconstituí-los de imediato, cônscios da responsabilidade que assumem. E sorrindo: — Você não pode esquecer que as flores transpuseram o tapume de alvenaria, penetrando aqui com semelhante auxílio. De idêntica maneira, caso encontrássemos utilidade num lance dessa natureza, o instrumento que nos serve de base ao trabalho poderia ser removido para o exterior com a mesma facilidade. As cidadelas atômicas, em qualquer construção da forma física, não são fortalezas maciças, qual acontece em nossa própria Esfera de ação. O espaço persiste em todas as formações e, através dele, os elementos se interpenetram. Chegará o dia em que a ciência dos homens poderá reintegrar as unidades e as constituições atômicas, com a segurança dentro da qual vai aprendendo a desintegrá-las. Logo após, os amigos presentes, sempre interessados em acordar os irmãos encarnados para as realidades do Espírito, acomodaram o médium, religando-o ao corpo carnal. O rapaz esfregou o rosto, estremunhado; contudo, sob a atuação de passes calmantes, arrojou-se, de novo, à hipnose profunda. Forças ectoplásmicas recomeçaram a surgir das narinas e dos ouvidos, revitalizadas e abundantes. Alguns companheiros passaram a compartimento vizinho, seguidos por nós. Nesse aposento, sobre pequeno fogão elétrico grande balde de parafina fervente requisitava-nos a atenção. Um amigo de semblante simpático cobriu a destra com a pasta dúctil que manava fartamente do médium e materializou-a com perfeição, mergulhando-a, logo após, na parafina superaquecida, deixando aos componentes da reunião o primoroso molde como lembrança. Uma jovem que nos saudou, cordial trabalhou igualmente o ectoplasma, modelando três flores que, submersas no vaso, ficaram, depois, em mesa próxima para os assistentes, à guisa de doce recordação daquela noite de tolerância e carinho. Afeiçoados da casa trouxeram do exterior diversas conchas marinhas, em que se viam delicados perfumes que se volatilizaram no recinto em vagas deliciosas.
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