Livros Espíritas
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Dentro da noite, defrontamos com aflito coração materno. A entidade, que nos dirigia a palavra, infundia compaixão pela facies de horrível sofrimento. — Calderaro! Calderaro! — Rogou, ansiosa, — ampara minha filha, minha desventurada filha! — Oh! teria piorado? — Inquiriu o instrutor, evidenciando conhecimento da situação. — Muito! Muito!… — Gemeram os trementes lábios da mãe aflita; — observo que enlouqueceu de todo… — Já perdeu a grande oportunidade? — Ainda não, — informou a interlocutora, — mas encontra-se à beira de extremo desastre. Prometeu o orientador correr à doente em breves minutos, e voltamos à intimidade. Interessando-me no assunto, o atencioso Assistente sumariou o fato. — Trata-se de lamentável ocorrência, — explicou-me, bondoso, — na qual figuram a leviandade e o ódio como elementos perversores. A irmã que se despediu, há momentos, deixou uma filha na Crosta Planetária, há oito anos. Criada com mimos excessivos, a jovem desenvolveu-se na ignorância do trabalho e da responsabilidade, não obstante pertencer a nobilíssimo quadro social. Filha única, entregue desde muito cedo ao capricho pernicioso, tão logo se achou sem a materna assistência no Plano carnal, dominou governantes, subornou criadas, burlou a vigilância paterna e, cercada de facilidades materiais, precipitou-se, aos vinte anos, nos desvarios da vida mundana. Desprotegida, assim, pelas circunstâncias, não se preparou convenientemente para enfrentar os problemas do resgate próprio. Sem a proteção espiritual peculiar à pobreza, sem os abençoados estímulos dos obstáculos materiais, e tendo, contra as suas necessidades íntimas, a profunda beleza transitória do rosto, a pobrezinha renasceu, seguida de perto, não por um inimigo propriamente dito, mas por cúmplice de faltas graves, desde muito desencarnado, ao qual se vinculara por tremendos laços de ódio, em passado próximo. Foi assim que, abusando da liberdade, em ociosidade reprovável, adquiriu deveres da maternidade sem a custódia do casamento. Reconhecendo-se agora nesta situação, aos vinte e cinco anos, solteira, rica e prestigiada pelo nome da família, deplora tardiamente os compromissos assumidos e luta, com desespero, por desfazer-se do filhinho imaturo, o mesmo comparsa do pretérito a que me referi; esse infeliz, por “acréscimo de misericórdia divina”, busca destarte aproveitar o erro da ex-companheira para a realização de algum serviço redentor, com a supervisão dos nossos Maiores. Ante o espanto que inopinadamente me assaltara, sabendo eu que a reencarnação constitui sempre uma bênção que se concretiza com a ajuda superior, o Assistente afiançou, tranquilizando-me: — Deus é o Pai amoroso e sábio que sempre nos converte as próprias faltas em remédios amargos, que nos curem e fortaleçam. Foi assim que Cecília, a demente que dentro em pouco visitaremos, recolheu da sua leviandade mesma o extremo recurso, capaz de retificar-lhe a vida… Entretanto, a infortunada criatura reage ferozmente ao socorro divino, com uma conduta lastimável e perversa. Coopero nos trabalhos de assistência a ela, de algumas semanas para cá, em virtude das reiteradas e comoventes intercessões maternas junto a nossos superiores; todavia, acalento vaga esperança numa reabilitação próxima. Os laços entre mãe e filho presuntivo são de amargura e de ódio, consubstanciando energias desequilibrantes; tais vínculos traduzem ocorrência em que o espírito feminino há que recolher-se ao santuário da renúncia e da esperança, se pretende a vitória. Para isso, para nivelar caminhos salvadores e aperfeiçoar sentimentos, o Supremo Senhor criou o tépido e veludoso ninho do amor materno; contudo, quando a mulher se rebela, insensível às sublimes vibrações da inspiração divina, é difícil, senão impossível, executar o programa delineado. A infortunada criatura, dando asas ao condenável anseio, buscou socorrer-se de médicos que, amparados de nosso Plano, se negaram a satisfazer-lhe o criminoso intento; valeu-se, então, de drogas venenosas, das quais vem abusando intensivamente. A situação mental dela é de lastimável desvario. Findo o breve preâmbulo, Calderaro continuou: — Mas, não temos minuto a perder. Visitemo-la. Decorridos alguns instantes, penetrávamos aposento confortável e perfumado. Estirada no leito, jovem mulher debatia-se em convulsões atrozes. Ao seu lado, achavam-se a entidade materna, na Esfera invisível aos olhos carnais, e uma enfermeira terrestre, dessas que, à força de presenciar catástrofes biológicas e dramas morais, se tornam menos sensíveis à dor alheia. A genitora da enferma adiantou-se e informou-nos: — A situação é muito grave! Ajudem-na, por piedade! Minha presença aqui se limita a impedir o acesso de elementos perturbadores que prosseguem, implacáveis, em ronda sinistra. O Assistente inclinou-se para a doente, calmo e atencioso, e recomendou-me cooperar no exame particular do quadro fisiológico. A paisagem orgânica era das mais comoventes. A compaixão fraterna dispensar-nos-á da triste narrativa referente ao embrião prestes a ser expulso. Circunscrito à tese de medicação a mentes alucinadas, cabe-nos apenas dizer que a situação da jovem era impressionante e deplorável. Todos os centros endócrinos estavam em desordem, e os órgãos autônomos trabalhavam aceleradamente. O coração acusava estranha arritmia, e debalde as glândulas sudoríparas se esforçavam por expulsar as toxinas em verdadeira torrente invasora. Nos lobos frontais, a sombra era completa; no córtex encefálico, a perturbação era manifesta; somente nos gânglios basais havia suprema concentração de energias mentais, fazendo-me perceber que a infeliz criatura se recolhera no campo mais baixo do ser, dominada pelos impulsos desintegradores dos próprios sentimentos, transviados e incultos. Dos gânglios basais, onde se aglomeravam as mais fortes irradiações da mente alucinada, desciam estiletes escuros, que assaltavam as trompas e os ovários, penetrando a câmara vital quais tenuíssimos venábulos de treva e incidindo sobre a organização embrionária de quatro meses. O quadro era horrível de ver-se. Buscando sintonizar-me com a enferma, ouvia-lhe as afirmativas cruéis, no campo do pensamento: — Odeio!… Odeio este filho intruso que não pedi à vida!… Expulsá-lo-ei!… Expulsá-lo-ei!… A mente do filhinho, em processo de reencarnação, como se fora violentada num sono brando, suplicava, chorosa: — Poupa-me! Poupa-me! Quero acordar no trabalho! Quero viver e reajustar o destino… ajuda-me! Resgatarei minha dívida!… Pagar-te-ei com amor… Não me expulses! Tem caridade!… — Nunca! Nunca! Amaldiçoado sejas! — Dizia a desventurada, mentalmente; — prefiro morrer a receber-te nos braços! Envenenas-me a vida, perturbas-me a estrada! Detesto-te! Morrerás!… E os raios trevosos continuavam descendo, a jacto continuo. Calderaro ergueu a cabeça respeitável, encarou-me de frente e perguntou: — Compreendes a extensão da tragédia? Respondi afirmativamente, sob indizível impressão. Nesse instante de nossa angustiosa expectativa, Cecília dirigiu-se com decisão à enfermeira: — Estou cansada, Liana, muitíssimo cansada, mas exijo a intervenção esta noite! — Oh! Mas assim, nesse estado?! — Ponderou a outra. — Sim, sim, — tornou a doente, inquieta; — não quero adiar essa intervenção. Os médicos negaram-se a faze-la, mas eu conto com a tua dedicação. Meu pai não pode saber disso, e eu odeio esta situação que terminantemente não conservarei. Calderaro pousou a destra na fronte da responsável pelos serviços de enfermagem, no intuito evidente de transmitir alguma providência conciliatória, e a enfermeira ponderou: — Tentemos algum repouso, Cecília. Modificarás possivelmente esse plano. — Não, não, — objetou a imprevidente futura mãe, com mau humor indisfarçável; — minha resolução é inabalável. Exijo a intervenção esta noite. Mau grado à negativa peremptória, sorveu o cálice de sedativo que a companheira lhe oferecia, atendendo-nos a influência indireta. Consumara-se a medida que o meu instrutor desejava. Parcialmente desligada do corpo físico, em compulsória modorra, pela atuação calmante do remédio, Calderaro aplicou-lhe fluidos magnéticos sobre o disco foto-sensível do aparelho visual, e Cecília passou a ver-nos, embora imperfeitamente, detendo-se, admirada, na contemplação da genitora. Reparei, contudo, que, se a mãezinha exuberava copioso pranto de comoção, a filha se mantinha impassível, não obstante o assombro que se lhe estampara no olhar. A matrona desencarnada avançou, abraçou-se a ela e pediu, ansiosa: — Filha querida, venho a ti, para que te não abalances à sinistra aventura que planejas. Reconsidera a atitude mental e harmoniza-te com a vida. Recebe minhas lágrimas, como apelo do coração. Por piedade, ouve-me! Não te precipites nas trevas, quando a mão divina te abre as portas da luz. Nunca é tarde para recomeçar, Cecília, e Deus, em seu infinito devotamento, transforma as nossas faltas em redes de salvação. A mente desvairada da ouvinte recordou as convenções sociais, de modo vago, como se vivera um minuto de pesadelo indefinível. A palavra materna, porém, continuou: — Socorre-te da consciência, antes de tudo! O preconceito é respeitável, a sociedade tem os seus princípios justos; entretanto, por vezes, filhinha, surge um momento na esfera do destino e da dor, em que devemos permanecer com Deus, exclusivamente. Não abandones a coragem, a fé, o desassombro…
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