Livros Espíritas
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Compreendei bem que todos os homens são irmãos, quer sejam negros ou brancos, ricos ou pobres, muçulmanos, judeus ou cristãos. Como, para progredir, devem renascer várias vezes, conforme a revelação feita pelo Cristo, permite Deus que aqueles que foram unidos em vidas anteriores pelos laços do sangue ou da amizade, se encontrem novamente na Terra, sem se conhecerem, mas em condições relativas às expiações que devem suportar por suas faltas passadas, de sorte que aquele que é o vosso servo pode ter sido vosso senhor em outra existência. O infeliz a quem recusais assistência talvez seja um dos vossos antepassados, do qual vos orgulhais, ou um amigo que vos foi caro. Compreendeis agora o alcance do mandamento do Decálogo: “Amarás a teu próximo como a ti mesmo”? Eis, meus amigos, a revelação que vos deve conduzir à fraternidade universal, quando for compreendida por todos. Eis por que não deveis permanecer imutáveis em vossos princípios, mas seguir a marcha do progresso traçado por Deus, sem jamais vos deterdes. Eis por que vos exortei a empunhar a bandeira do Espiritismo. Sim, sede espíritas, pois é a lei de Deus, e lembrai-vos de que neste caminho está a felicidade, porque é ela que conduz à perfeição. Eu vos sustentarei, eu e todos aqueles que conhecestes, os quais, como eu, agem no mesmo sentido. Que em cada família se estude o Espiritismo; que em cada família se formem médiuns, a fim de multiplicar os intérpretes da vontade de Deus. Não vos deixeis desencorajar pelos entraves das primeiras provas; muitas vezes elas são cercadas de dificuldades e nem sempre isentas de perigo, pois não haverá recompensa onde não houver um pouco de esforço. Todos podeis adquirir essa faculdade; mas estudai antes de tentar obtê-la, a fim de vos premunirdes contra os obstáculos. Purificai-vos de vossas máculas; emendai o coração e os pensamentos para afastar de vós os Espíritos maus; orai, sobretudo, pelos que procuram vos obsidiar, porquanto é a prece que os converte e deles vos liberta. Que a experiência de vossos antecessores vos seja proveitosa e vos impeça de cairdes nas mesmas faltas! Continuarei minhas instruções. III A religião israelita foi a primeira que formulou, aos olhos dos homens, a idéia de um Deus espiritual. Até então os homens adoravam: uns, o Sol; outros, a Lua; aqui, o fogo; ali, os animais. Mas em parte alguma a idéia de Deus era representada em sua essência espiritual e imaterial. Chegou Moisés; trazia uma lei nova, que derrubava todas as idéias até então recebidas. Tinha de lutar contra os sacerdotes egípcios, que mantinham os povos na mais absoluta ignorância, na mais abjeta escravidão, e contra esses sacerdotes, que desse estado de coisas tiravam um poder ilimitado, não podendo ver sem pavor a propagação de uma idéia nova, que vinha destruir os fundamentos de seu poder e ameaçava derrubá-los. Essa fé trazia consigo a luz, a inteligência e a liberdade de pensar; era uma revolução social e moral. Assim, os adeptos dessa fé, recrutados entre todas as classes do Egito, e não só entre os descendentes de Jacó, como erroneamente tem sido dito, eram perseguidos, acossados, submetidos aos mais duros vexames e, por fim, expulsos do país, porque infestavam a população com idéias subversivas e anti-sociais. É sempre assim, toda vez que um progresso surge no horizonte e resplandece sobre a Humanidade. As mesmas perseguições e os mesmos tratamentos acompanham os inovadores que lançam sobre o solo da nova geração os germes fecundos do progresso e da moral. É que toda inovação progressiva, ao levar à destruição de certos abusos, tem, necessariamente, por inimigos todos quanto estão interessados na manutenção desses abusos. Mas Deus Todo-Poderoso, que conduz com infinita sabedoria os acontecimentos de onde deve surgir o progresso, inspirou Moisés; deu-lhe um poder que homem algum havia tido e, pela irradiação desse poder, cujos efeitos feriam os olhos dos mais incrédulos, Moisés adquiriu uma imensa influência sobre uma população que, confiando cegamente em seu destino, realizou um desses milagres, cuja impressão deveria perpetuar-se de geração em geração, como lembrança imperecível do poder de Deus e de seu profeta. A passagem do mar Vermelho foi o primeiro ato da libertação desse povo. Mas sua educação estava por fazer; era preciso domá-lo pela força do raciocínio e por milagres muitas vezes repetidos; era preciso inculcar-lhes a fé e a moral, ensinando-lhes a pôr a força e a confiança num Deus criador, ser imaterial, infinitamente bom e justo. Os quarenta anos de provações passados no deserto, em meio de privações, sofrimentos e vicissitudes de toda ordem, e os exemplos de insubordinação tão severamente reprimidos por uma justiça providencial, tudo contribuiu para desenvolver nele a fé nesse ser Todo-Poderoso, cuja mão, ora benfeitora, ora severa, punia quem O desafiasse. No Monte Sinai ocorreu esta primeira revelação, este notável mistério, que surpreendeu o mundo, o subjugou e espalhou sobre a Terra os primeiros benefícios de uma moral que libertaria o Espírito das garras da carne e de um despotismo embrutecedor; que colocou o homem acima da esfera dos animais, dele fazendo um ser superior, capaz de elevar-se, pelo progresso, à suprema inteligência. Os primeiros passos desse povo, que havia confiado seu destino ao homem de Deus, foram entravados por guerras, cujo efeito devia ser o germe fecundo de uma renovação social entre as populações que o combatiam. O judaísmo tornava-se o foco da luz, da inteligência e da liberdade, e irradiava um brilho extraordinário sobre todas as nações vizinhas, provocando ódio e hostilidade. Este resultado imediato estava nos desígnios de Deus; sem isso, o progresso teria sido muito lento. E, ao mesmo tempo que essas guerras fecundavam os germes do progresso, eram uma lição para os judeus, cuja fé reavivavam. Esse povo, liberto de um outro e confiando irrefletidamente na conduta de um homem, que o surpreendera em virtude de um poder miraculoso, tinha uma missão; era um povo predestinado. Não é sem razão que foi dito: cumpria uma missão de que não se dava conta, nem ele, nem os outros povos; ia às cegas, executando sem compreender os desígnios da Providência. Essa árida missão foi cheia de fel e de amargura; seus apóstolos sofreram todas as humilhações possíveis, foram perseguidos, oprimidos, lapidados e dispersos, embora trouxessem consigo essa fé viva e inteligente, essa confiança em seu Deus, cujo poder haviam medido, cuja bondade haviam experimentado e cujas provas aceitavam, sobretudo as que deviam trazer à Humanidade os benefícios da civilização. Eis os vossos apóstolos obscuros, ridicularizados, desprezados; eis os primeiros pioneiros da liberdade. Terão sofrido bastante, da sua saída do Egito até os nossos dias? A hora da reabilitação não tardará a soar para eles, e não está longe o dia que haverá de saudar esses primeiros soldados da civilização moderna, com reconhecimento e veneração; far-se-á justiça aos descendentes dessas antigas famílias que, inabaláveis em sua fé, a levaram como dote a todas as nações onde Deus permitiu que fossem dispersados. Quando Jesus-Cristo apareceu, era ainda um enviado de Deus; como Moisés, era um novo astro que surgia na Terra, retomando sua missão para dar-lhe continuidade, desenvolvê-la e adaptá-la ao progresso realizado. O próprio Cristo estava destinado a sofrer essa morte ignominiosa, cujas vias os judeus haviam preparado, desencadeando as suas circunstâncias, e cujo crime foi cometido pelos romanos. Deixai, porém, de considerar a história dos povos e dos homens como a haveis considerado até hoje. Em vosso orgulho, imaginais que foram eles que provocaram os acontecimentos que mudaram a face do mundo e esqueceis que há um Deus no Universo, regendo essa harmonia admirável, cujas leis suportais, imaginando que a impondes vós mesmos. Olhai, assim, de um ponto mais elevado a História da Humanidade; abarcai um horizonte mais vasto e notai que tudo segue um sistema único; a lei do progresso em cada século, e não em cada dia, vos leva a dar um passo. Jesus-Cristo foi, pois, a segunda fase, a segunda revelação, e seus ensinamentos levaram dezoito séculos para se espalharem e se vulgarizarem. Por aí julgai quanto é lento o progresso e o que deveriam ser os homens quando Moisés trouxe ao mundo admirado a idéia de um Deus Todo-Poderoso, infinito e imaterial, cujo poder se tornava visível para esse povo, para quem sua missão trouxe tantos espinhos e tantas perturbações. O progresso não se realiza sem dificuldade; é à sua custa, é por seus sofrimentos e cruéis vicissitudes que a Humanidade toma consciência do objetivo do seu destino e do poder daquele a quem deve a existência.
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