Livros Espíritas
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A última sessão da Sociedade Espírita de Paris, antes das férias, foi uma das mais notáveis do ano, quer pelo número e pelo alcance das comunicações aí obtidas, quer pela produção de um fenômeno espontâneo de sonambulismo mediúnico. Por volta da metade da sessão, o Sr. Morin, membro da Sociedade e um dos médiuns habituais, adormeceu espontaneamente sob a influência dos Espíritos, o que jamais lhe acontecera. Então falou com ardor, com eloqüência, sobre um assunto de alta gravidade e do maior interesse, do qual nos ocuparemos posteriormente. A sessão de reabertura de sexta-feira, 5 de outubro, apresentou um fenômeno análogo, mas em mais largas proporções. Havia à mesa treze médiuns. Durante a primeira parte, dois deles, a Sra. C... e o Sr. Vavasseur, adormeceram sob a influência dos Espíritos, como havia ocorrido com o Sr. Morin, sem qualquer provocação e sem que ninguém nisto tivesse pensado. O Sr. Vavasseur é o médium poeta, que com a maior facilidade obtém poesias notáveis, das quais publicamos algumas amostras. O Sr. Morin estava a ponto de adormecer também. Ora, eis o que se passou durante o seu sono, que durou quase uma hora. O Sr. Vavasseur, com voz grave e solene, disse: “Toda vontade, toda ação magnética é e deve ficar estranha a este fenômeno. Ninguém deve falar à minha irmã, nem a mim.” Falando de sua irmã, designava a Sra. C..., isto é, irmã espiritual, já que não são parentes. Depois, dirigindo-se ao Sr. Morin, colocado no outro extremo da mesa, e estendendo a mão para ele com um gesto imperativo: “Proíbo-te de dormir.” O Sr. Morin, com efeito, já quase adormecido, despertou por si mesmo. Além disso, foi recomendado expressamente que ninguém tocasse nos dois médiuns. O Sr. V..., continuando: “Ah! sinto aqui uma corrente fluídica má, que me fatiga... Irmã, sofres também? – Sra. C...: Sim. – Sr. V...: Olha! a sociedade é numerosa esta noite. Vês? – Sra. C...: Ainda não muito claramente; – Sr. V...: Quero que vejas. – Sra. C...: Oh! sim; os Espíritos são numerosos! – Sr. V...: Sim, muito numerosos; não se os contam mais!... Mas, olha à tua frente; vês um Espírito mais luminoso, de auréola mais brilhante... Parece nos sorrir com benevolência!... Dizem que é meu patrono (São Luís)... Vamos, marchemos; vamos para ele... Oh! tenho muitos erros a reparar... (dirigindo-se ao Espírito): Caro Espírito! nascendo para a vida, minha mãe me deu vosso nome. Depois, lembro-me, essa pobre mãe me dizia todos os dias: ‘Oh! meu filho, ora a Deus; ora a teu anjo-da-guarda; ora, sobretudo, a teu patrono.’ Mais tarde, esqueci tudo... tudo! A dúvida, a incredulidade me perseguiram; em meu desvario eu vos desconheci, desconheci a vontade de Deus... Hoje, caro Espírito, venho pedir-vos o esquecimento do passado e o perdão no presente!... Ó São Luís, vede minha dor e meu arrependimento, esquecei e perdoai.” (Estas últimas palavras foram ditas com uma inflexão pungente de desespero). A Sra. C...: “Não deves chorar, irmão... São Luís te perdoa e te abençoa... Os Espíritos bons não têm ressentimento contra os que voltam atrás em seus erros. Digo-te que ele te perdoa!... Oh! este Espírito é bom!... Olha, ele nos sorri. (Levando a mão ao peito) Oh! como dói sofrer assim!” O Sr. V...: “Ele me fala... Escuta!... Coragem, diz ele, trabalha com teus irmãos. O ano que começa será fértil em grandes acontecimentos. Em torno de vós surgirão grandes gênios, poetas, pintores, literatos. A era das artes sucede a da filosofia. Se a primeira fez prodígios, a segunda fará milagres.” (O Sr. V... exprime-se com extraordinária veemência; está no supremo grau do êxtase). A Sra. C...: “Acalma-te, irmão; nisto pões muito ardor, e isto te faz mal; acalma-te.” O Sr. V... (continuando): “Mas aí começa a missão de vossa Sociedade, missão muito grande e muito bela para os que a compreendem... Foco da Doutrina Espírita, deve defendê-la e propagar os seus princípios por todos os meios disponíveis. Aliás, o seu presidente saberá o que deve fazer. “Agora irmã, ele se afasta; ainda nos sorri; diz-nos com a mão: até logo... Vamos, subamos, irmã; deves assistir a um espetáculo esplêndido, a um espetáculo que o olhar terreno jamais viu... jamais, jamais!... Sobe... sobe... eu o quero!... (Silêncio). Que vês?... Olha este exército de Espíritos!... Os poetas estão aqui e nos cercam... Oh! cantai também, cantai!... Vossos cantos são os cânticos do céu, o hino da Criação!... Cantai!... E seus murmúrios acariciam meus ouvidos... e seus acordes adormecem o meu espírito... Não ouves?...” A Sra. C...: “Sim, ouço... Parecem dizer que com o ano espírita que se inicia, começa uma nova fase para o Espiritismo... fase brilhante, de triunfo e de alegria para os corações sinceros, de vergonha e de confusão para os orgulhosos e os hipócritas! Para estes, as decepções, o abandono, o esquecimento, a miséria; para os outros, a glorificação.” O Sr. V...: “Eles já o disseram, e isto se confirma.” A Sra. C...: “Oh! que festa! que magnificência! que esplendor deslumbrante! Mal pode meu olhar sustentar o seu brilho. Que suave harmonia se faz ouvir e penetra a alma!... Vê todos esses Espíritos bons que preparam o triunfo da Doutrina sob a condução dos Espíritos superiores e do grande Espírito de Verdade!... Como são resplandecentes, e quanto lhes deve custar descer para habitar um globo como o nosso! Isto é doloroso, mas faz progredir.” O Sr. V...: “Escuta!... escuta, digo-te!” O Sr. V... começa o improviso seguinte em versos. Era a primeira vez que fazia poesia mediúnica verbalmente. Até então as poesias deste gênero sempre tinham sido dadas por escrito, espontaneamente. Noite de tempestade, Mortos rolava o mar, Na praia sem piedade Em lúgubre cantar!... Uma criança pequena, De pé sobre um rochedo Esperava, serena, Da aurora o brilho ledo Para ir pela praia Procurar sua irmã Que do naufrágio saía, Ou... dê-lha esta manhã. Poderia de um alto, Vê-la, pois, como outrora, Sorridente e de um salto Ouvir-lhe a voz sonora? Mas nesta noite horrível, Sobre as vagas inquietas, Essa mão invisível Que os separou tem metas De voltar as unir? Foi esperança vã! Surge a aurora a sorrir, Mas... nada, só manhã; Nada... a triste certeza De um barco destruído! Nada... da onda a frieza Levando o que é perdido. A vaga, com mistério, Tocava deslizando, Em seu ágil critério, Só abismo expressando Que a vítima escondia, Seu soluço a abafar, De seu crime estaria As ondas a exculpar A brisa lamentosa! A criança a procurar, Pela praia, ansiosa, Não mais podia andar... Sem respirar poder, Coxeante... fraca... aflita... E mal a se suster, Se fizera sem dita E sobre a pedra quente De um rochedo polido, Faz uma prece ardente, Ante um desconhecido. E surpreso ele o vê Em tocante oração. – Oh, filho! Deus te dê Amor; ergue-te então!... Foi Deus que, por teu pranto, Me pôs em teu caminho Para acalmar-te quanto Eu possa com carinho! Na dor não te retenhas; Meu lar será teu lar, Minha família tenhas, Faço meu teu penar. Vem; fala-me, criança; Tem em meu peito amor, Bem depressa a esperança Lenirá tua dor. (Dirigindo-se à Sra. C...) – “Tu o vês, ele pára!... mas deve falar ainda!... Sim, aproxima-se!... os sons tornam-se mais distintos... Ouço... ah!... Eu sou... o pobre perdido... És (dirigindo-se a Allan Kardec) o desconhecido, Mestre, quero-te honrar! Pois me viestes mostrar Que existe: ... Eternidade E... imortalidade! Dois nomes: Deus, que é Luz! O outro, alma que reluz! E vós, meu caro amigo, Me ofereceis abrigo, Minha família sois Onde tranqüilo, pois, Vou terminar meus dias! Amai-me! Sois meus guias!... “Ele foge... Casimir Delavigne!... Oh! caro Espírito... ainda!... Ele foge!... Vamos, não sou bastante forte para assistir a este concerto divino... Sim, é belo demais... é belíssimo!... A Sra. C...: “Ele falaria ainda se tivesses querido, mas tua exaltação o impediu. Eis-te alquebrado, aflito, ofegante; não podes mais falar.” O Sr. V...: “Sim, eu o sinto; é ainda uma fraqueza (com um vivo sentimento de pesar), e devo despertar-te!... muito cedo... Por que não ficar sempre neste lugar? Por que voltar à Terra? Vamos, já que é preciso, irmã, devemos obedecer sem murmurar... Desperta, eu o quero. (A Sra C... abre os olhos). Para mim podes despertar-me agitando teu lenço. Sufoco!... ar!... ar!” Estas palavras, e sobretudo os versos, foram ditos com uma inflexão, uma efusão de sentimento e um calor de expressão, cujas cenas mais dramáticas e mais patéticas apenas podem dar uma idéia. A emoção da assembléia era geral, porque se sentia que não era declamação, mas a própria alma desprendida da matéria que falava... Esgotado de fadiga, o Sr. V... foi obrigado a deixar a sala e por muito tempo ficou arrasado, dominado por um sono de onde só saiu pouco a pouco, por si mesmo, sem querer que ninguém o ajudasse. Esses fatos vêm confirmar as previsões dos Espíritos no tocante às novas formas que não tardaria a tomar a mediunidade. O estado de sonambulismo espontâneo, no qual se desenvolve, ao mesmo tempo, a mediunidade falante e vidente, é, com efeito, uma faculdade nova, no sentido em que parece generalizar-se; é um modo particular de comunicação que tem, mais que nunca, sua razão de ser neste momento.
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