Livros Espíritas
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A diferença de atmosfera, entre o dia e a noite, na Casa Transitória de Fabiano, era quase inalterável. Não conseguiria estabelecer comparações apreciáveis, mesmo porque, durante todo o tempo de nossa permanência no instituto, estiveram acesas as luzes artificiais. Denso nevoeiro abafava a paisagem, sob o céu de chumbo e, ao que fui informado, grandes aparelhos destinados à fabricação de ar puro funcionavam incessantemente, na casa, renovando o ambiente geral. Víamos o Sol, fundamente diferençado, em pleno crepúsculo. Semelhava-se a um disco de ouro velho, sem qualquer irradiação, a perder-se num oceano de fumo indefinível. Cotejando a situação com os quadros primaveris da Crosta Planetária, os ocasos da Esfera carnal parecem verdadeiras decorações do paraíso. Permanecíamos em região onde a matéria obedecia a outras leis, interpenetrada de princípios mentais extremamente viciados. Congregavam-se aí longos precipícios infernais e vastíssimas zonas de purgatório das almas culpadas e arrependidas. Na verdade, muita vez viajara entre a nossa colônia feliz e o Plano crostal do planeta, atravessando lugares semelhantes, mas nunca me demorara tanto em círculo desagradável e escuro como esse. A ausência de vegetação, aliada à neblina pesada e sufocante, infundia profunda sensação de deserto e tristeza. Os amigos, porém, com a Irmã Zenóbia à frente, faziam quanto possível por converter o pouso socorrista num oásis confortador. Alguém chegou à gentileza de lembrar a oportunidade do quadro externo para que nos voltássemos para dentro de nós, com o proveito necessário. — Sim, — assentiu o Assistente Jerônimo num abrigo de pronto socorro espiritual, é conveniente que não haja facilidade para distrações prejudiciais aos nossos deveres. Estampou riso franco nos lábios e acentuou: — Por isso mesmo, quando na Crosta da Terra, nunca tivemos descrições de infernos floridos ou de purgatórios sob árvores acolhedoras. Nesse ponto, os escritores teológicos foram exatos e coerentes. Aos culpados e penitentes confessos não convém a fuga mental. Em favor deles próprios, é mais razoável sejam mantidos em regiões desprovidas de encanto, a fim de permanecerem a sós com as criações mentais inferiores a que se ligaram intensivamente. A conversação, rica de particularidades interessantes, compensava a aspereza exterior, valorizando o tempo, acerca do qual não se conseguia fazer nenhum cálculo, a não ser pela observação dos cronômetros que eram, aí, aparelhos preciosos e indispensáveis. Ao soar das dezenove horas, orientados pela administradora da casa, preparamo-nos para pequena jornada ao abismo. Convocou Zenóbia vinte cooperadores para as tarefas de colaboração eventual e imediata, três mulheres e dezessete homens, que, à primeira vista, não pareciam pessoas de cultura e sensibilidade extremamente apuradas, mas que mostravam, no olhar sereno e firme, boa vontade, dedicação leal e caráter resoluto no espírito de serviço. Mais tarde, vim a saber que o instituto asila constantemente variados grupos de entidades, repletas de característicos humanos primitivistas, mas portadoras de virtudes e valores apreciáveis, que colaboram na execução das tarefas gerais e se educam ao mesmo tempo, preparando-se para reencarnações e experiências de mais elevada expressão. Dirigindo-se ao subalterno que recebera atribuições de subchefia, indagou Zenóbia, serena: — Ananias, temos o material de serviço devidamente arregimentado? Não devemos esquecer, principalmente, as faixas de socorro, as redes de defesa e os lança-choques. — Tudo pronto, — respondeu, satisfeito, o colaborador. Voltou-se, em seguida, para o nosso orientador e disse, bem-humorada: — Irmão Jerônimo, convirá, desse modo, iniciar a marcha. E detendo-se, ao nosso lado, acrescentou: — De antemão, rogo desculpas a todos se lhes tomar tempo para atendermos ao desventurado irmão a que me referi, satisfazendo a interesse que me é particular. A clarividência de Luciana e a oração de todos os amigos, porém, constituirão fatores decisivos em benefício da renovação dele, a fim de que aceite as providências redentoras do futuro. É serviço que prestarão a mim própria, pelo qual serei devedora reconhecida. Ligeiro véu de melancolia inexplicável toldou-lhe repentinamente o olhar, mas, cobrando ânimo novo, considerou: — Além disso, o padre Hipólito endereçará apelos cristãos aos infelizes que choram na zona abismal. O fogo purificador passará amanhã e poderemos ministrar-lhes aviso edificante. O ex-sacerdote comentou, confortado: — A cooperação será para nós um prazer. Dirigindo-se, então, a grande número de companheiros e subordinados de serviço, a Irmã Zenóbia consolidou a atenção de todos para o desempenho do mapa de trabalhos que havia planejado para tão significativa noite. A casa deveria permanecer atenta à contribuição que receberia dos institutos congêneres, no dia imediato, pela manhã; alguns servidores seguiriam para a Crosta, prestando apoio à expedição Fabrino, nalguns casos difíceis de reencarnação compulsória; certos departamentos abrir-se-iam à visitação dos encarnados parcialmente libertos da Crosta, em momentos de sono físico, para receberem benefícios magnéticos, de conformidade com as solicitações autorizadas; determinadas dependências seriam preparadas devidamente para a eventual recepção de missionários do bem, procedentes das Esferas elevadas; organizar-se-iam leitos para alguns desencarnados prestes a serem trazidos, segundo notificação anteriormente recebida; duas enfermeiras, orientadoras de colônias espirituais para regeneração, trariam vinte crianças recém-libertas dos laços carnais, no sentido de se avistarem com as mães que viriam da Crosta, amparadas por amigos para reencontro confortador, em caráter temporário; variadas delegações de trabalho espiritual, junto a instituições piedosas, encontrar-se-iam no abrigo para combinar providências; duas novas missões de socorro alcançariam o asilo, dentro de breves horas, e demorar-se-iam até pela manhã, conforme aviso prévio; todos os trabalhos preparatórios da mudança assinalada para o dia seguinte deveriam ser levados a efeito; medidas outras de menor significação foram recomendadas e, por fim, a diretora notificou que o recinto de orações deveria aguardá-la, em posição de iniciar a prece de reconhecimento da noite, sem nenhuma delonga. Não conseguia disfarçar a surpresa, examinando semelhante quadro de obrigações, porque, segundo cálculo efetuado momentos antes, a Irmã Zenóbia estaria ausente apenas quatro horas. Ultimando providências, acenou para nós, convidando-nos a acompanhá-la. E ao transpormos o limiar, explicou-nos, cuidadosa: — Convém manter apagado, no trajeto, todo o material luminoso. — E fitando-nos, resoluta, informou: — Quanto a nós, sigamos silenciosos, a pé. Não será razoável utilizar a volitação em distância tão curta. Mais justo assemelharmo-nos aos pobres que habitam estes sítios, perante os quais, enquanto perdure a pequena caminhada, deveremos guardar a maior quietude. Qualquer desatenção prejudicar-nos-á o objetivo. Decorridos alguns instantes, atravessávamos as barreiras magnéticas de defesa e púnhamo-nos a caminho. Noutras circunstâncias e noutro tempo, não conseguiria eu dominar o pavor que nos infundia a paisagem escura e misteriosa, à nossa frente. Vagavam no espaço estranhos sons. Ouvia perfeitamente gritos de seres selvagens e, em meio deles, dolorosos gemidos humanos, emitidos, talvez, a imensa distância… Aves de monstruosa configuração, mais negras do que a noite, de longe em longe se afastavam de nosso caminho, assustadiças. E embora a sombra espessa, observava alguma coisa da infinita desolação ambiente. Após alguns minutos de marcha, surgiu-nos a Lua, como bola sangrenta, através do nevoeiro, espalhando escassos raios de luz. Poderíamos identificar, agora, certas particularidades do terreno áspero. A Irmã Zenóbia colocara adestrado auxiliar diante de nós, especialista na travessia daquelas sendas estreitas, e, conforme recomendação inicial, guardávamos rigoroso silêncio, em fila móvel, ganhando a estrada hostil. Atingimos zona pantanosa, em que sobressaía rasteira vegetação. Ervas mirradas e arbustos tristes assomavam indistintamente do solo. Fundamente espantado, porém, ao ladear imenso charco, ouvi soluços próximos. Guardava a nítida impressão de que as vozes procediam de pessoas atoladas em repelentes substâncias, tais as emanações desagradáveis que pairavam no ar. Oh! Que forças nos defrontavam, ali! A treva difusa não deixava perceber minudências; todavia, convencera-me da existência de vítimas vizinhas de nós, esperando-nos amparo providencial. Estaríamos ante o abismo a que se referia a administradora da Casa Transitória? Optei pela negativa, porque a expedição não se deteve em tão angustioso lugar. Jerônimo seguia rente aos meus passos e não contive a indagação que me escapou, célere: — Jazem aqui almas humanas? O interpelado, em atitude discreta, somente respondeu num gesto mudo, em que me pedia calar. Bastaram, no entanto, minhas quatro palavras curtas para que os lamentos indiscriminados se transformassem, de súbito, em rogativas tocantes e estertorosas: — Ajude-nos, quem passa, por amor de Deus! — Salvai-nos, por caridade!… — Socorro, viandantes! Socorro! Socorro!… Verificou-se, então, o imprevisto.
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[Vide: ao uso de itens materiais no Mundo Invisível do Plano Espiritual, como edificações providas dos mais diversos objetos, aparelhos, veículos de transporte, etc.]
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[No original: “organizações preciosas e indispensáveis.”]
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[No original: “expedição Fabiano,”]
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