Livros Espíritas
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Para homens que só possuíam da espiritualidade da alma uma ideia confusa, o fogo material nada tinha que chocasse, até porque já fazia parte da crença comum, haurida no inferno dos pagãos, quase universalmente espalhada. Do mesmo modo, a eternidade das penas nada apresentava que pudesse repugnar a homens desde muitos séculos submetidos à legislação do terrível Jeová. No pensamento de Jesus, portanto, o fogo eterno não passaria de simples figura, pouco lhe importando que essa figura fosse tomada ao pé da letra, desde que servisse de freio às paixões humanas. Além disso, Ele sabia que o tempo e o progresso se incumbiriam de explicar o sentido alegórico, considerando-se ainda, segundo a sua predição, que o Espírito de Verdade viria esclarecer os homens sobre todas as coisas. O caráter essencial das penas irrevogáveis é a ineficácia do arrependimento. Ora, Jesus nunca disse que o arrependimento não encontraria graça diante do Pai. Ao contrário, sempre que se lhe apresentou oportunidade, Ele no-lo mostrou como um Deus clemente, misericordioso, pronto a receber o filho pródigo que voltasse ao lar paterno; inflexível, sim, para o pecador obstinado, porém sempre disposto a trocar o castigo pelo perdão do culpado sinceramente arrependido. Este não é, por certo, o caráter de um Deus sem piedade. Também convém assinalar que Jesus nunca pronunciou contra quem quer que fosse, mesmo contra os maiores culpados, a condenação irremissível.
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