Livros Espíritas
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2. A Sra. R... cita igualmente um caso de aparição pessoal, do Espírito de uma pessoa viva. Esse Espírito tinha uma caixa de rapé, do qual tomava pitadas. Experimentava ele a sensação que experimenta um indivíduo que faz o mesmo? Resp. –Não. 3. Aquela caixa de rapé tinha a forma da de que ele se servia habitualmente e que se achava guardada em sua casa. Que era a dita caixa nas mãos da aparição? Resp. – Sempre aparência. Era para que a circunstância fosse notada, como realmente foi, e não tomassem a aparição por uma alucinação devida ao estado de saúde da vidente. O Espírito queria que a senhora em questão acreditasse na realidade da sua presença e, para isso, tomou todas as aparências da realidade. 4. Dizes que é uma aparência; mas uma aparência nada tem de real, é como uma ilusão de óptica. Desejaríamos saber se aquela tabaqueira era apenas uma imagem sem realidade, por exemplo, a de um objeto que se reflete num espelho. [O Sr. Sanson, um dos membros da Sociedade, faz observar que na imagem reproduzida no espelho há qualquer coisa de real; se ela não fica nele é que nada a fixa; mas se fosse projetada sobre uma chapa do daguerreótipo deixaria uma impressão, prova evidente de que é produzida por uma substância qualquer e não simplesmente uma ilusão de óptica]. A observação do Sr. Sanson é perfeitamente justa. Teríeis a bondade de dizer-nos se existe alguma analogia com a caixa de rapé, isto é, se nela havia alguma coisa de material? Resp. – Certamente. É com o auxílio deste princípio material que o perispírito toma a aparência de vestuários semelhantes aos que o Espírito usava quando encarnado. Observação – É evidente que a palavra aparência deve ser aqui tomada no sentido de aspecto, imitação. A caixa de rapé real não estava lá; a que o Espírito deixava ver era apenas uma reprodução daquela: era, pois, com relação ao original, uma simples aparência, embora formada de um princípio material. Ensina a experiência que nem sempre se deve dar significação literal a certas expressões usadas pelos Espíritos. Interpretando-as de acordo com as nossas idéias, expomo-nos a grandes equívocos. Daí a necessidade de aprofundar-se o sentido de suas palavras, toda vez que apresentem a menor ambigüidade. É essa uma observação que os Espíritos constantemente nos fazem. Sem a explicação que provocamos, o termo aparência, que de contínuo se reproduz nos casos análogos, poderia prestar-se a uma interpretação falsa. 5. Dar-se-á que a matéria inerte se desdobre? Ou que haja no mundo invisível uma matéria essencial, capaz de tomar a forma dos objetos que vemos? Numa palavra, terão estes o seu duplo etéreo no mundo invisível como os homens são nele representados pelos Espíritos? Observação – Trata-se de uma teoria como qualquer outra e esse era o nosso pensamento; o Espírito, porém, não a levou em consideração, o que absolutamente não nos humilhou, porque a sua explicação nos pareceu muito lógica e sustentada num princípio mais geral, cuja aplicação muitas vezes encontramos. Resp. – Não é assim que as coisas se passam. Sobre os elementos materiais disseminados por todos os pontos do espaço, na vossa atmosfera, têm os Espíritos um poder que estais longe de suspeitar. Podem, pois, concentrar à vontade esses elementos e dar-lhes a forma aparente que corresponda à dos objetos materiais. 6. Formulo novamente a questão, de modo categórico, a fim de evitar todo e qualquer equívoco: São alguma coisa as vestes de que os Espíritos se cobrem? Resp. – Parece que a minha resposta precedente resolve a questão. Não sabes que o próprio perispírito é alguma coisa? 7. Resulta, desta explicação, que os Espíritos fazem passar a matéria etérea pelas transformações que queiram e que, portanto, em relação à caixa de rapé, o Espírito não a encontrou completamente feita; fê-la ele próprio, no momento em que teve necessidade dela. E, do mesmo modo que a fez, pôde desfazê-la. Outro tanto naturalmente se dá com todos os demais objetos, como vestuários, jóias, etc. Será assim? Resp. – Mas, evidentemente. 8. A caixa de rapé se tornou tão visível para a senhora de que se trata que lhe produziu a ilusão de uma tabaqueira material. Teria o Espírito podido torná-la tangível para ela? Resp. – Teria. 9. Aquela senhora poderia tê-la tomado nas mãos, crente de estar segurando uma caixa de rapé verdadeira? Resp. – Sim. 10. Se a abrisse, teria achado nela rapé? E, se o aspirasse, ele a faria espirrar? Resp. – Sem dúvida. 11. Pode, então, o Espírito dar a um objeto não só a forma, mas, também propriedades especiais? Resp. – Se o quiser. Baseado neste princípio foi que respondi afirmativamente às perguntas anteriores. Tereis provas da poderosa ação que os Espíritos exercem sobre a matéria, ação que estais longe de suspeitar, como eu disse há pouco. 12. Suponhamos, então, que quisesse fazer uma subs-tância venenosa. Se uma pessoa a ingerisse, ficaria envenenada? Resp. – Teria podido, mas não faria, por não lhe ser isso permitido. 13. Poderá fazer uma substância salutar e própria para curar uma enfermidade? E já se terá apresentado algum caso destes? Resp. – Já, muitas vezes. Observação – Encontramos um fato semelhante, acompanhado de interessante explicação teórica, no artigo que damos a seguir, sob o título Um Espírito serviçal. 14. Então, poderia fazer também uma substância alimentar? Suponhamos que tenha feito uma fruta, uma iguaria qualquer: se alguém pudesse comer a fruta ou a iguaria, ficaria saciado? Resp. – Ficaria, sim; mas, não procureis tanto para achar o que é tão fácil de compreender. Basta um raio de sol para tornar perceptíveis aos vossos órgãos grosseiros essas partículas materiais que enchem o espaço onde viveis. Não sabeis que o ar contém vapores d'água? Condensai-os e os fareis voltar ao estado normal. Privai-as de calor e eis que essas moléculas impalpáveis e invisíveis se tornarão um corpo sólido e bem sólido; e, assim, muitas outras substâncias de que os químicos tirarão maravilhas ainda mais espantosas. Simplesmente, o Espírito dispõe de instrumentos mais perfeitos do que os vossos: a vontade e a permissão de Deus. Observação – A questão da saciedade é aqui muito importante. Como pode produzir a saciedade uma substância cuja existência e propriedades são meramente temporárias e, de certo modo, convencionais? O que se dá é que essa substância, pelo seu contato com o estômago, produz a sensação da saciedade, mas não a saciedade que resulta da plenitude. Desde que uma substância dessa natureza pode atuar sobre a economia e modificar um estado mórbido, também pode, perfeitamente, atuar sobre o estômago e produzir a impressão da saciedade. Rogamos, todavia, aos senhores farmacêuticos e inventores de reconstituintes que não se encham de zelos, nem creiam que os Espíritos lhes venham fazer concorrência. Esses casos são raros, excepcionais e nunca dependem da vontade. Doutro modo, toda gente se alimentaria e curaria a preço baratíssimo. 15. Da mesma forma poderia o Espírito fabricar moedas? Resp. – Pela mesma razão. 16. Os objetos que, pela vontade do Espírito, se tornam tangíveis, poderiam permanecer com esse caráter de permanência e de estabilidade? Resp. – Isso poderia dar-se, mas não acontece. Está fora das leis. 17. Têm todos os Espíritos, no mesmo grau, esse poder? Resp. – Não, não! 18. Quais são os que têm mais particularmente esse poder? Resp. – Aqueles a quem Deus concede, quando isso é útil. 19. A elevação do Espírito tem alguma utilidade? Resp. – Por certo; quanto mais elevado o Espírito, mais facilmente obtém esse poder; mas isso ainda depende das circunstâncias: Espíritos inferiores também podem ter esse poder. 20. A produção dos objetos semimateriais resulta sempre de um ato da vontade do Espírito, ou algumas vezes exerce ele esse poder, mau grado seu? Resp. – Ele o exerce freqüentemente, mesmo sem o saber. 21. Seria, então, esse poder um dos atributos, uma das faculdades inerentes à própria natureza do Espírito? Seria, de algum modo, uma de suas propriedades, como a de ver e ouvir? Resp. – Certamente, embora muitas vezes ele próprio o ignore. Então, outro o exerce por ele, mau grado seu, quando as circunstâncias o exigem. O alfaiate do zuavo era justamente o Espírito de que acabo de falar e ao qual ele fazia alusão na sua linguagem espirituosa. Observação – Encontramos uma comparação desta faculdade na de certos animais – o peixe-elétrico, por exemplo – que emite eletricidade sem saber o que faz, nem como isso se dá e, menos ainda, sem conhecer o mecanismo que a põe em ação. Fre-qüentemente nós mesmos não produzimos certos efeitos por atos espontâneos, dos quais não nos damos conta? – Parece-nos, portanto, muito natural que o Espírito possa agir nesta circunstância por uma espécie de instinto. Ele produz por sua vontade, sem saber como, assim como andamos sem calcular as forças que estão em jogo. 22. Nos dois casos citados pela Sra. R..., compreendemos que um dos Espíritos quisesse ter um cachimbo e o outro uma caixa de rapé, para ferir os olhos de uma pessoa viva. Pergunto, porém, se o Espírito poderia pensar que possuía esses objetos, caso não tivesse chegado a fazê-la ver, criando, assim, uma ilusão para si mesmo. Resp. – Não, se ele tiver uma certa superioridade, porque tem perfeita consciência de sua condição. Outro tanto não se dá com os Espíritos inferiores.
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(18) N. do T.: Vide O Livro dos Médiuns – Segunda Parte – Capítulo VII – item 116.
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(19) N. do T.: Vide O Livro dos Médiuns – Segunda Parte – Capítulo VIII.
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