Livros Espíritas
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Longe de se impressionar com a pergunta, o orador respondeu com a mesma franqueza: — Temos, sim, um direito: — o de viver com a verdade, o de abominar a hipocrisia, e, o que é mais sagrado — o de salvar o nome de Simão das arremetidas farisaicas, cujas sinuosidades conheço, por constituírem o báratro escuro de onde pude sair para as claridades do Evangelho da re denção. A palestra do ex-rabino continuou rude e franca. De quando em quando, Barnabé surgia com um aparte, tornando a contenda mais remida. Entretanto, em todo o curso da discussão, a figura de Pedro era a mais impressionante pela augusta sere nidade do semblante tranqüilo. Naqueles rápidos instantes, o Apóstolo galileu con siderou a sublimidade da sua tarefa no campo de batalha espiritual, pelas vitórias do Evangelho. De um lado estava Tiago, cumprindo elevada missão junto do judaísmo; de suas atitudes conservadoras surgiam incidentes felizes para a manutenção da igreja de Jerusalém, erguida como um ponto inicial para a cristianização do mundo; de outro lado estava a figura poderosa de Paulo, o amigo desassombrado dos gentios, na execução de uma ta refa sublime; de seus atos heróicos, derivava toda uma torrente de iluminação para os povos idólatras. Qual o maior a seus olhos de companheiro que convivera com o Mestre e dele recebera as mais altas lições? Naquela hora, o ex -pescador rogou a Jesus lhe concede sse a inspiração necessária para a fiel observância dos seus deveres. Sentiu o espinho da missão cravado em pleno peito, impossibilitado de se justificar com a só intencionalidade de seus atos, a menos que provocasse maior escândalo para a instituição cri stã, que mal alvorecia no mundo. De olhos úmidos, enquanto Paulo e Bar nabé se debatiam, teve a impressão de ver novamente o Senhor, no dia do Calvário. Ninguém o compreendera. Nem mesmo os discípulos amados. Em seguida, pareceu vê -lo expirante na cruz do martírio. Uma força oculta conduzia -o a ponderar o madeiro com atenção. A cruz do Cristo parecia-lhe, agora, um símbolo de perfeito equilíbrio. Uma linha horizontal e uma linha vertical, justa postas, formavam figuras absolutamente retas. Sim, o instrument o do suplício enviava-lhe uma silenciosa men sagem. Era preciso ser justo, sem parcialidade ou falsa inclinação, O Mestre amara a todos, indistintamente. Repartira os bens eternos com todas as criaturas. Ao seu olhar compassivo e magnânimo, gentios e judeu s eram irmãos. Experimentava, agora, singular acuidade para examinar conscienciosamente as circunstâncias. Devia amar a Tiago pelo seu cuidado generoso com os israelitas, bem como a Paulo de Tarso pela sua dedicação extraordinária a todos quantos não conheciam a idéia do Deus justo. O ex-pescador de Cafarnaum notou que a maioria da assembléia lhe dirigia curiosos olhares. Os compa nheiros de Jerusalém deixavam perceber cólera íntima, na extrema palidez do rosto. Todos pareciam convocá -lo à discussão. Barnabé tinha os olhos vermelhos de chorar e Paulo parecia cada vez mais franco, verberando a hipocrisia com a sua lógica fulminante. O Apóstolo preferiria o silêncio, de modo a não perturbar a fé ardente de quantos se arrebanhavam na igreja sob as luzes do Eva ngelho; mediu a extensão da sua responsabilidade naquele minuto inesquecível. Encolerizar -se seria negar os valores do Cristo e perder suas obras; inclinar -se para Tiago seria a parcialidade; dar absoluta razão aos argumentos de Paulo, não seria justo. Procurou arregimentar na mente os ensinamentos do Mestre e lembrou a inolvidável sentença: — o que desejasse ser o maior, fosse o servo de todos. Esse preceito proporcionou-lhe imenso consolo e grande força espiritual. A polêmica ia cada vez mais ardida. Extremavam-se os partidos. A assembléia estava repleta de cochichos abafados. Era natural prever uma franca explosão. Simão Pedro levantou-se. A fisionomia estava se rena, mas os olhos estavam orvalhados de lágrimas que não chegavam a correr. Valendo-se de uma pausa mais longa, ergueu a VOZ que logo apaziguou o tumulto: — Irmãos! — disse nobremente — muito tenho errado neste mundo. Não é segredo para ninguém que cheguei a negar o Mestre no instante mais doloroso do Evangelho. Tenho medido a misericórdia do Senhor pela profundidade do abismo de minhas fraquezas. Se errei entre os irmãos muito amados de Antioquia, peço perdão de minhas faltas. Submeto -me ao vosso julgamento e rogo a todos que se submetam ao julgamento do Altíssimo. A estupefação foi geral. C ompreendendo o efeito, o ex -pescador concluiu a justificativa, dizendo: — Reconhecida a extensão das minhas necessida des espirituais e recomendando-me às vossas preces, passemos, irmãos, aos comentários do Evangelho de hoje. A assistência estava assombrad a com o desfecho imprevisto. Esperava -se que Simão Pedro fizesse um longo discurso em represália. Ninguém conseguia recobrar-se da surpresa. O Evangelho deveria ser comentado pelo Apóstolo galileu, mediante combinação prévia, mas o ex -pescador, antes de s entar-se de novo, exclamou muito sereno: — Peço ao nosso irmão Paulo de Tarso o obséquio de consultar e comentar as anotações de Levi. Não obstante o constrangimento natural, o ex -rabino considerou o elevado alcance daquele pedido, renovou num ápic e todos os sentimentos extremistas do coração ardente e, num formoso improviso, falou da leitura dos pergaminhos da Boa Nova. A atitude ponderada de Simão Pedro salvara a igreja nascente. Considerando os esforços de Paulo e de Tiago, no seu justo valor, ev itara o escândalo e o tumulto no recinto do santuário. À custa de sua abnegação fraternal, o incidente passou quase inapercebido na história da cristandade primitiva, e nem mesmo a referên cia leve de Paulo na epístola aos Gálatas, a despeito da forma rígida, expressional do tempo, pode dar idéia do perigo iminente de escândalo que pairou sobre a institui ção cristã, naquele dia memorável. A reunião terminou sem novos atritos. Simão apro ximou-se de Paulo e felicitou-o pela beleza e eloqüência do discurso. Fez questão de voltar ao incidente para versá-lo com referências amistosas. O problema do gen tilismo, dizia ele, merecia, de fato, muito interesse. Como deserdar das luzes do Cristo o que havia nascido dis tante das comunidades judaicas, se o próprio Mes tre afirmara que os discípulos chegariam do Ocidente e do Oriente? A palestra suave e generosa reaproximou Paulo e Barnabé, enquanto o ex pescador discorria intencionalmente, acalmando os ânimos. O ex-doutor da Lei continuou a defender sua tese com argume ntação sólida. Constrangido a princípio, em face da benevolência do galileu expandiu se naturalmente, readquirindo a serenidade íntima. O problema era complexo. Transportar o Evangelho para o judaísmo não seria asfixiar -lhe as possibilidades divinas? — perguntava Paulo, firmando seu ponto de vista. Mas, e o esforço milenário dos judeus? — interrogava Pedro, advertindo que, a seu ver, se Jesus afirmara sua missão como o exato cumprimento da Lei, não era possível afastar-se a nova da antiga revelação. Proc eder de outro modo seria arrancar do tronco vigoroso o galho verde jante, destinado a frutescer. Examinando aqueles argumentos ponderosos, Paulo de Tarso lembrou, então, que seria razoável promover em Jerusalém uma assembléia dos correligionários mais dedi cados, para ventilar o assunto com maior ampli tude. Os resultados, a seu ver, seriam benéficos, por apresentarem uma norma justa de ação, sem margem a sofismas tão de gosto e hábito farisaicos. Como alguém que se sentisse muito alegre por en contrar a chave de um problema difícil, Simão Pedro anuiu de bom grado à proposta, assegurando interessar-se para que a reunião se fizesse quanto antes. Íntimamente, considerou que seria ótima oportunidade para os discípulos de Antioquia observarem as dificuldades cre scentes em Jerusalém. À noite, todos os irmãos compareceram à igreja para as despedidas de Simão e para as preces habituais. Pedro orou com santificado fervor e a comunidade sentiu-se envolvida em benéficas vibrações de paz. O incidente a todos deixara ta l ou qual perplexidade, mas, as atitudes prudentes e afáveis do pescador conseguiram manter a coesão geral em torno do Evangelho, para continuação das tarefas santificantes. Depois de observar a plena reconciliação de Paulo e Barnabé, Simão Pedro regressou a Jerusalém com os mensageiros de Tiago. Em Antioquia, a situação continuou instável. As dis cussões estéreis prosseguiam acesas. A influência judaizante combatia a gentilidade e os cristãos livres opunham resistência formal ao convencionalismo preconc eituoso. O ex-rabino, entretanto, não descansava. Convocou reu niões, nas quais esclareceu as finalidades da assembléia que Simão lhes prometera em Jerusalém, na primeira oportunidade. Combatente ativo, multiplicou as energias próprias na sustentação da independência do Cristianis mo e prometeu publicamente que traria cartas da igreja dos Apóstolos galileus, que garantissem a posição dos gentios na doutrina consoladora de Jesus, alijando -se as imposições absurdas, no caso da circuncisão. Suas providências e promessas acendiam novas lutas. Os observadores rigorosos dos preceitos antigos duvida vam de semelhantes concessões por parte de Jerusalém. Paulo não desanimou. Íntimamente, idealizava sua chegada à igreja dos Apóstolos, passava em revista, na imaginação superexcitada, toda a argumentação poderosa a empregar, e via -se vencedor na questão que se deli neava a seus olhos como de essencial importância para o futuro do Evangelho. Procuraria mostrar a elevada capacidade dos gentios para o serviço de Jesus. Contaria os êxitos obtidos na longa excursão de mais de quatro anos, através das regiões pobres e quase desconhecidas, onde a gentilidade havia recebido as notícias do Mestre com intenso júbilo e compreensão muito mais elevada que a dos seus irmãos de raça.
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