Livros Espíritas
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Está, pois, demonstrado, tanto pela teoria quanto pela experiência, que não há mais médiuns universais para as evocações, como não os há aptos a todos os gêneros de manifestações. Aquele que pretendesse receber à vontade e no momento certo as comunicações de todos os Espíritos e, por conseguinte, satisfazer aos legítimos desejos de todos os que querem entreter-se com os seres que lhes são caros, ou daria prova de radical ignorância dos princípios mais elementares da ciência, ou de charlatanismo e, em todo o caso, de uma presunção incompatível com as qualidades essenciais de um bom médium. Pôde-se acreditar nisto em certo tempo, mas hoje os progressos da ciência teórica e prática demonstram, em princípio, a sua impossibilidade. Quando um Espírito se comunica pela primeira vez a um médium, sem qualquer dificuldade, isto se deve a uma afinidade fluídica excepcional ou anterior, entre o Espírito e seu intérprete. É, pois, um erro impor um médium ao Espírito que se quer invocar. É preciso deixar-lhe a escolha de seu instrumento. Mas, indagarão, como fazer quando só se tem um médium, o que é muito freqüente? Primeiro, se contentar com o que se tem e abster-se do que não se tem. Não está no poder da ciência espírita mudar as condições normais das manifestações, assim como não cabe à química mudar as da combinação dos elementos. Contudo, há aqui um meio de atenuar a dificuldade. Em princípio, quando se trata de uma evocação nova, o médium deve sempre evocar o seu guia espiritual, previamente, e indagar se ela é possível. Em caso afirmativo, perguntar ao Espírito evocado se encontra no médium a aptidão necessária para receber e transmitir seu pensamento. Se houver dificuldade ou impossibilidade, pedir-lhe que o faça através do guia do médium ou ser por ele assistido. Neste caso, o pensamento do Espírito chega de segunda mão, isto é, depois de ter atravessado dois meios. Compreende-se, então, quanto importa que o médium seja bem assistido, porque se o for por um Espírito obsessor, ignorante ou orgulhoso, a comunicação será alterada. Aqui, as qualidades pessoais do médium forçosamente representam um papel importante, pela natureza dos Espíritos que atrai a si. Os médiuns mais indignos podem dispor de poderosas faculdades; os mais seguros, porém, são os que a essa força juntam as melhores simpatias no mundo invisível. Ora, de modo algum essas simpatias garantem os nomes mais ou menos imponentes dos Espíritos que assinam as comunicações recebidas por via mediúnica. Esses princípios fundamentam-se ao mesmo tempo na lógica e na experiência. As próprias dificuldades que revelam provam que a prática do Espiritismo não deve ser tratada levianamente. Outro fato ressalta igualmente da comunicação acima: é a confirmação do princípio de que os Espíritos inteligentes prosseguem na vida espiritual os trabalhos e estudos que empreenderam na vida corporal. É por isso que damos preferência, nas comunicações que publicamos, àquelas de onde pode sair um ensinamento útil. Quanto à carta do irmão vivo ao seu irmão morto, é uma ingênua e tocante expressão da fé sincera na sobrevivência da alma, na presença dos seres que nos são caros e da possibilidade de continuar com estes as relações de afeição, que a eles nos uniam. Sem dúvida os incrédulos rirão daquilo que, aos seus olhos, é uma pueril credulidade. Por mais que façam, o nada que preconizam jamais terá encanto para as massas, porque parte o coração e aniquila as mais santas afeições; gela, em vez de aquecer; apavora e desespera, em vez de fortalecer e consolar. Como suas diatribes contra o Espiritismo têm por eixo a doutrina apavorante do nada, não se deve admirar da sua impotência em desviar as massas das novas idéias. Entre uma doutrina desesperadora e outra consoladora, a escolha da maioria não poderia ser duvidosa. Depois da horrível catástrofe da igreja de Santiago do Chile, em 1864, nela encontraram uma caixa de cartas, nas quais os fiéis depositavam as missivas que dirigiam à Santa Virgem. Poder-se-ia estabelecer uma paridade entre o fato que excitou a verve dos zombadores e a carta acima? Seguramente, não. Contudo, o erro não era dos que acreditavam na possibilidade de corresponder-se com o outro mundo, mas dos que exploravam essa crença, respondendo às cartas previamente seladas. Há poucas superstições que não tenham seu ponto de partida numa verdade desnaturada pela ignorância. Acusado de as ressuscitar, o Espiritismo vem, ao contrário, reduzi-las ao seu justo valor.
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