Livros Espíritas
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Não mais ouviu os sarcasmos dos algozes inflexíveis, sentiu que sua alma dilatava -se ao infinito, experimentando sagradas emoções de indefinível ventura. Brando sono lhe anestesiou o coração e, somente pela madrugada, voltou a si do caricioso descanso, O sol visitava-o alegre, através das grades. O valoroso discípulo do Evangelho levantou-se bem disposto, recompôs as vestes e esperou pacientemente. Só depois do meio-dia, três soldados desceram ao cárcere das disciplinas judaicas, retirando o prisioneiro para conduzi -lo à presença do procônsul. Paulo compareceu à barra do tribunal, com imensa serenidade - O recinto estava cheio de israelitas exalta dos; mas o Apóstolo, notou que a assembléia se compunha, na maioria, de gregos d e fisionomia simpática, muitos deles seus conhecidos pessoais dos trabalhos de assistência da igreja. Júnio Gálio, muito cioso do seu cargo, sentou -se sob o olhar ansioso dos espectadores cheios de interesse. O procônsul, de conformidade com a praxe, teria de ouvir as partes em litígio, antes de pronunciar qualquer julgamento, apesar das queixas e acusações exaradas em pergaminho. Pelos judeus falaria um dos maiores da sinagoga, de nome Sóstenes; mas, como não aparecesse o repre sentante da igreja de Corint o para a defesa do Apóstolo, a autoridade reclamou o cumprimento da medida sem perda de tempo. Paulo de Tarso, muito surpreendido, rogava íntimamente a Jesus fosse o patrono de sua causa, quando se destacou um homem que se prontificava a depor em nome da Igreja. Era Tito Justo, o romano generoso, que não desprezava o ensejo do testemunho. Verificou -se, então, um fato inesperado. Os gregos da assembléia prorromperam em frenéticos aplausos. Júnio Gálio determinou que os acusadores inicias sem as declarações públicas necessárias. Sóstenes entrou a falar com grande aprovação dos judeus presentes. Acusava Paulo de blasfemo, desertor da Lei, feiticeiro. Referiu -se ao seu passado, acrimoniosamente. Contou que os próprios parentes o haviam abandonado. O procônsul o uvia atento, mas não deixou de manter uma atitude curiosa. Com o indicador da direita comprimia um ouvido, sem atender à estupefação geral. O maioral da sinagoga, no entanto, desconcerta va-se com aquele gesto. Terminando o libelo apaixo nado quanto injusto, Sóstenes interrogou o administrador da Acaia, relativamente à sua atitude, que exigia um esclarecimento, a fim de não ser tomada por desconsi deração. Gálio, porém, muito calmo, respondeu fazendo hu morismo: — Suponho não estar aqui para dar satisfação de meus atos pessoais e sim para atender aos imperativos da justiça. Mas, em obediência ao código da fraternidade humana, declaro que, a meu ver, todo administrador ou juiz em causa alheia deverá reservar um ouvido para a acusação e outro para a defesa. Enquanto os judeus franziam o sobrecenho extre mamente confundidos, os coríntios riam gostamente. O próprio Paulo achou muita graça na confissão do procônsul, sem poder disfarçar o sorriso bom que lhe ilumi nou repentinamente a fisionomia. Passado o incidente humorístico, Tito Justo aproxi mou-se e falou sucintamente da missão do Apóstolo. Suas palavras obedeciam a largo sopro de inspiração e beleza espiritual. Júnio Gálio, ouvindo a história do convertido de Damasco, dos lábios de um compatrício, mostrou -se muito impressionado e comovido. De quando em vez, os gregos prorrompiam em exclamações de aplauso e contentamento. Os israelitas compreenderam que perdiam terreno de momento a momento. Ao fim dos trabalhos, o chefe político da Acaia tomou a palavra para concluir que não via crime algum no discípulo do Evangelho; que os judeus deviam, antes de qualquer acusação injusta, examinar a obra gene rosa da igreja de Corinto, porqüanto, na sua opinião, não havia agravo dos princípios israelitas; que a só controvérsi a de palavras não justificava violências, con cluindo pela frivolidade das acusações e declarando não desejar a função de juiz em assunto daquela natureza. Cada conclusão formulada era ruidosamente aplau dida pelos coríntios. Quando Júnio Gálio declarou qu e Paulo devia considerar-se em plena liberdade, os aplausos atingiram ao delírio. A autoridade recomendou que a retirada se fizesse em ordem; mas os gregos aguardaram a descida de Sóstenes, e quando surgiu a figura solene do “mestre” atacaram sem piedade . Estabelecido enorme tumulto na escada longa que separava o Tribunal da via pública, Tito Justo acercou -se aflito do procônsul e pediu que interviesse. Gálio, entretanto, continuando a preparar -se para regressar a casa, dirigiu a Paulo um olhar de simpatia e acrescentou, calmamente: — Não nos preocupemos. Os judeus estão muito habituados a esses tumultos. Se eu, como juiz, resguardei um ouvido, parece -me que Sóstenes deveria resguardar o corpo inteiro, na qualidade de acusador. E demandou o interior do edi fício em atitude impassível. Foi então que Paulo, surgindo no topo da es cada, bradou: — Irmãos, apaziguai-vos por amor ao Cristo!... A exortação caiu em cheio sobre a turba numerosa e tumultuária. O efeito foi imediato. Cessaram os rumo res e os impropérios. Os últimos contendores paralisaram os braços inquietos. O convertido de Damasco acorreu pressuroso em socorrer Sóstenes, cujo rosto sangrava. O acusador implacável do dia foi conduzido à sua residência pelos cristãos de Corinto, por atenderem aos ape los de Paulo, com extremos cuidados. Grandemente despeitados com o insucesso, os israe litas da cidade maquinaram novas investidas, mas o Apóstolo, reunindo a comunidade do Evangelho, declarou que desejava partir para a Ásia, a fim de atender a insistentes chamados de João (1), na fundação definitiva (1) João iniciou suas atividades na igreja mista de Éfeso, muito cedo, embora não se desligasse de Jerusalém. — (Nota de Emmanuel.) da igreja de Éfeso. Os coríntios protestaram amistosa mente, procurando retêlo, mas o ex-rabino expôs com firmeza a conveniência da viagem, contando regressar muito breve. Todos os cooperadores da igreja estavam desolados. Principalmente Febe, notável colaboradora do seu esforço apostólico em Corinto, não conseguia ocultar as lágrimas do coração. O devotado discípulo de Jesus fez ver que a igreja estava fundada, solicitando apenas a continuidade de atenção e carinho dos compa nheiros. Não seria justo, a seu ver, enfrentar novamente a ira dos israelitas, parecendo -lhe razoável esperar o concurso do tempo para as realizações necessárias. Dentro de um mês, partiu em demanda de Éfeso, levando consigo Áquila e a esposa, que se dispuseram a acompanhá -lo. Despedindo-se da cidade, teve o pensamento voltado para o pretérito, para as esperanças de ventura terrestre que os anos haviam absorvido. Visitou os sítios onde Abigail e o irmão haviam brincado na infância, saturou -se de recordações suaves e inesquecíveis e, no porto de Cencréia, lembrando a partida da noiva bem-amada, rapou a cabeça, renovando os votos de fidelidade eterna, consoante os costumes populares da época. Depois de viagem difícil, repleta de incidentes pe nosos, Paulo e os companheiros chegaram ao ponto des tinado. A igreja de Éfeso enfrentava problemas torturantes. João l utava seriamente para que o esforço evangélico não degenerasse em polêmicas estéreis. Mas os tecelões chegados de Corinto deram -lhe mão forte na cooperação imprescindível. Em meio das acaloradas discussões que houve de manter com os judeus, na sinagoga, o ex-rabino não olvidou certas realizações sentimentais que almejava desde muito. Com delicadeza extrema, visitou a Mãe de Jesus na sua casinha singela, que dava para o mar. Impressionou -se fortemente com a humildade daquela criatura simples e amorosa, que mais se assemelhava a um anjo vestido de mulher. Paulo de Tarso interes sou-se pelas suas narrativas caridosas, a respeito da noite do nascimento do Mestre, gravou no íntimo suas divinas impressões e prometeu voltar na primeira opor tunidade, a fim de recolher os dados indispensáveis ao Evangelho que pretendia escrever para os cristãos do futuro. Maria colocou-se à sua disposição, com grande alegria. O Apóstolo, entretanto, depois de cooperar algum tempo na consolidação da igreja, considerando que Áquila e Prisca se encontravam bem instalados e satisfeitos, resolveu partir, buscando novos rumos. Debalde os ir mãos procuraram dissuadi-lo, rogando ficasse na cidade por mais tempo. Prometendo regressar logo que as cir cunstâncias permitissem, alegou que precisava ir a Jerusalém, levar a Simão Pedro o fruto da coleta de anos consecutivos nos lugares que percorrera. O filho de Zebedeu, que conhecia o projeto antigo, deu-lhe razão para empreender a viagem sem mais demora. Como já se encontrassem novamente a seu la do, Silas e Timóteo fizeram lhe companhia nessa nova ex cursão. Através de enormes dificuldades, mas pregando sem pre a Boa Nova com verdadeiro entusiasmo devocional, chegaram ao porto de Cesaréia, - onde permaneceram alguns dias, instruindo os interessado s no conhecimento do Evangelho. Dali, dirigiram -se a pé para Jerusalém, distribuindo consolações e curas, ao longo dos caminhos. Chegados à capital do judaísmo, o ex -pescador de Cafarnaum recebeu-os com júbilos inexcedíveis. Simão Pe dro apresentava grande abatimento físico, em virtude das lutas terríveis e incessantes para que a igreja suportasse, sem maiores abalos, as tempestades primitivas; seus olhos, porém, guardavam a mesma serenidade caracte rística dos discípulos fiéis. Paulo entregou-lhe, alegremente, a pequena fortuna, cuja aplicação iria assegurar maior independência à ins tituição de Jerusalém, para o desenvolvimento justo da obra do Cristo. Pedro agradeceu comovido e abraçou -o com lágrimas. Os pobres, os órfãos, os velhos desampa rados e os convalescentes teriam doravante uma escola abençoada de trabalho santificante. Pedro notou que o ex-rabino também estava alque brado de corpo. Muito magro, muito pálido, cabelos já grisalhos, tudo nele denunciava a intensidade das lutas empenhadas.
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