Livros Espíritas
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“Mas, então, onde me conduzem? continua o sonâmbulo; num abrigo miserável! Lá está um homem ainda jovem, que morre do peito... a miséria é completa: nada para se aquecer, nada para comer! Sua esposa, esgotada de fadiga e de privações, não pode mais trabalhar... Ah! o último triste recurso!... não tem mais cabelos.... cortou-os e vendeu para obter alguns centavos!... Quantos dias isto os fará viver?... É horroroso!” Solicitado se pode indicar o domicílio dessa pobre gente, disse: “Esperai!” Depois parece escutar o que lhe dizem; toma um lápis e escreve um nome, com indicação da rua e número. Feita a verificação na manhã seguinte, tudo foi achado perfeitamente exato. Refeito da emoção e voltando seu Espírito ao local da sessão, ele ainda falou de várias outras pessoas e de diversas coisas, que foram para os nossos guias espirituais assunto de instruções de elevado alcance, e que teremos ocasião de referir de outra vez. De repente exclama: “Mas aqui há Espíritos de toda espécie! Alguns foram príncipes, reis! Um deles avança; tem o rosto longo e pálido, uma barbicha pontuda, uma espécie de gorro encimado por uma centelha. Ele me pede que vos diga: ‘O pergaminho de que falastes e que tendes sob os olhos foi mesmo escrito por minha mão, mas, a respeito, eu vos devo uma explicação. ‘Em meu tempo não se escrevia com tanta facilidade quanto hoje, sobretudo os homens de minha posição. Os materiais eram menos adequados e menos aperfeiçoados; a escrita era mais lenta, mais grossa, mais pesada; por isso refletia melhor as impressões da alma. Como sabeis, meu humor não era uniforme e, conforme eu estivesse em boa ou má disposição, minha escrita mudava de caráter. É o que explica a diferença que se nota nos meus manuscritos que restam. Quando escrevi esse pergaminho para o meu músico, enviando-lhe a espineta, estava num daqueles momentos de satisfação. Se procurardes em meus manuscritos aqueles cuja letra se assemelha à deste, reconhecereis, pelos assuntos tratados, que eu devia estar num desses bons momentos e aí tereis outra prova de identidade.” Por ocasião da descoberta deste escrito, do qual falou o Grand Journal em seu número de 14 de janeiro, o mesmo jornal estampa o artigo seguinte, em seu exemplar de 21 de janeiro: “Esgotemos a questão de correspondência, mencionando a carta da Sra. condessa de Martino, relativa à espineta do Sr. Bach. A condessa está persuadida de que o correspondente sobrenatural do Sr. Bach é um impostor, visto que devia assinar Baldazzarini e não Baltazarini, que é italiano macarrônico.” Primeiramente faremos notar que essa chicana a propósito da ortografia de um nome próprio é sofrivelmente pueril, e que o epíteto de impostor, em falta do correspondente invisível, no qual não acredita a senhora condessa, cai sobre um homem honrado, o que não é de muito bom-gosto. Em segundo lugar, Baldazzarini, simples músico, espécie de trovador, bem podia não dominar a língua italiana em sua pureza, numa época em que não se dava tanta importância à instrução. Contestariam a identidade de um francês que escrevesse em francês macarrônico, e não se vê gente incapaz de escrever corretamente o próprio nome? Por sua origem, Baldazzarini não devia estar muito acima do macarronismo. Mas essa crítica cai diante de um fato: é que os franceses, pouco familiarizados com as nuanças da ortografia italiana, ouvindo pronunciar esse nome, naturalmente o escrevem à francesa. O próprio rei Henrique III, na quadra encontrada e citada acima, o escreve simplesmente Baltasarini, embora não seja um ignorante. Assim foi com os que enviaram ao Grand Journal o relato do fato em questão. Quanto ao músico, nas diversas comunicações que ditou ao Sr. Bach, e das quais temos em mãos vários originais, assinou Baldazzarini e, às vezes, Baldazzarrini, como se pode confirmar; a falta, pois, não é dele, mas dos que, por ignorância, afrancesaram seu nome, nós em primeiro lugar. É realmente curioso ver as puerilidades a que se apegam os adversários do Espiritismo, prova evidente da escassez de boas razões.
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