Livros Espíritas
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Quando sua mãe morreu, Regina não tinha a menor noção da realidade espiritual, sobrevivência, aparições, fenômenos mediúnicos e coisas assim. Desde que a mãe partira, contudo, passou a senti-la constantemente em sua casa. Identificava sua presença, sabia que era ela mesma e chegou a vê-la algumas vezes. Mas, sem saber ao certo o que se passava, não tinha como ajudá-la, mesmo porque não acreditava que a via e ficava a buscar as habituais 'explicações' alternativas: ilusão de ótica, alucinação, impressão ou o que quer que seja. No entanto, a mãe 'morta' estava lá, pelos cantos da casa, constantemente chamando por Regina ou tentando lavar a roupa que ficava de molho num balde. Isso durou anos. Certa noite, após recolher-se ao leito para dormir, já bem tarde, a campainha da porta principal tocou. (Nessa época Regina estava mais bem-informada acerca dos fenômenos espíritas). Levantou-se e dirigiu-se à porta, ou melhor, pensou que havia se levantado quando, de fato, já estava desdobrada em seu corpo perispiritual. Aproximava-se, ainda, da porta, quando se encontrou com sua mãe, que entrara. Nunca a vira, assim, tão nitidamente. Tal era o realismo da cena que Regina teve a ilusão de estar acordada, em estado de plena vigília no corpo físico. E por isso parecia-lhe que a mãe tambe estava ali, em carne e osso, viva. Não conseguiu falar muito. - Oh, minha mãe. É a senhora? Ela confirmou. Tinha um ar de cansaço e tristeza, a voz era lenta e rastada como se estivesse exausta. E começou a reclamar, muito confusa, de não estar entendendo as coisas. - Mamãe - disse Regina suavemente. - A senhora não está mais aqui, entre os vivos. A senhora já morreu, minha mãe. Não pode mais ficar aqui. A pobre senhora olhou-a, perplexa e confusa, e respondeu com outras perguntas: - Será, minha filha? Então é isso? - É, sim, mamãe. A senhora não vê? Eu nem abri a porta e a senhora entrou assim mesmo. Coitadinha, parece que pela primeira vez em todos aqueles anos - cerca de seis -, ela começou a entender o que lhe acontecera. Olhou a filha com profunda amargura e disse, angustiada: - Ah, minha filha, então é isso! Agora estou entendendo ... Deu-lhe um longo e comovido abraço e partiu. Regina sentiu naquele abraço toda a angústia e perplexidade que iam no seu espírito. Compreendeu, num instante. o quanto ela deveria ter sofrido durante aqueles anos todos sem saber o que se passava consigo mesma. Retornando ao quarto, Regina despertou, erguendo o corpo fisico, e ali ficou, chorando por muito tempo, sentada na cama, sob o peso daquela angústia, na solidariedade de uma dor que também era sua. Por muito tempo, depois desse dramático diálogo, Regina ficou sem vê-la ou ouvir seus constantes e lamentosos chamados. Só mais tarde, quando ela já estava bem, veio visitá-la. Estava em paz. E continua vindo, de vez em quando, agora certa de que é mais um dos habitantes do mundo espiritual e não uma pessoa perdida, desorientada, angustiada, que não sabe ao certo o que se passava consigo mesma. 12.CRIANÇAS DESENCARNADAS Há vários outros episódios vividos por Regina em desdobramento, mas os que a seguir relatamos se apresentam com características diferentes, pois em vez de serem fenômenos tipicamente anímicos, com um toque mediúnico, são tarefas nitidamente mediúnicas realizadas no contexto de um desdobramento, ou seja, de um fenômeno anímico por excelência. Vejamos alguns deles para ilustrar o que estou dizendo. O primeiro deles poderia ser catalogado como "O Caso dos Três Peraltas". Em seu relato pessoal deste episódio, Regina faz um preâmbulo para dizer que lamenta desapontar alguns eruditos "espiritólogos" - a palavra é dela, não tenho nada com isso -, que afirmam não existirem crianças no mundo espiritual, ou seja, que as crianças não se conservam como tal, do lado de lá. Ela afirma que durante muito tempo esteve, e eventualmente ainda está, com crianças no plano espiritual. Três delas eram realmente endiabradas e chegavam a perturbar-lhe os momentos de repouso. Puxavam-lhe as cobertas, davam-lhe pequenos beliscões, derrubavam coisas de cima dos móveis, mexiam nas panelas na cozinha, enfim, eram crianças levadas e irrequietas como muitas, autênticos 'diabinhos', mas sem maldade. Por algum tempo Regina apenas tomou conhecimento dos distúrbios que provocavam, mas não os via. Isso acontecia com freqüência. Um objeto que sumia e reaparecia ou era encontrado em lugar diferente daquele em que ela estava certa de havê-la deixado; desarrumações ou ruídos que Regina procurava explicar como conseqüência de seu permanente cansaço físico, ao cabo de longas horas de trabalho profissional e doméstico. Como nada entendia ainda de espiritismo a essa altura, não lhe ocorria que aquilo pudesse ser uma brincadeira dos peraltas invisíveis. Comentando o caso com uma amiga, certa vez, esta lhe disse que tais distúrbios deveriam estar sendo provocados por espíritos brincalhões e que Regina, provavelmente, deveria ser médium em potencial. Não muito conhecedora do assunto, porém, acrescentou que era perigoso aquilo e que poderia até provocar nela um imprevisível esgotamento de forças, o que a deixou preocupada. Certa noite a temperatura estava mais fresca e ela se cobrira com um lençol ao deitar- se para dormir. Aí eles entraram em ação. Puxavam a coberta para um lado e ela puxava para outro. Ela acabou cansada da brincadeira sem gosto. De repente percebeu que havia ali três crianças - dois meninos e uma menina - que deixaram afinal o lençol aos pés da cama e foram se afastando, devagar, até desaparecerem. Passou a admitir a partir daí que sua amiga tinha razão, mas em vez de assustar-se ante a realidade de que convivia com seres 'do outro mundo', passou a dar-lhes aquela bronca toda vez que praticavam travessuras. - Olhem, eu sei que vocês não precisam dormir e só querem brincar, mas eu sou gente, sabem? E tenho de dormir porque amanhã preciso trabalhar, por favor, vão para casa, tá? Parece que os demoninhos aceitaram bem o apelo e pararam com as brincadeiras em horas impróprias. As vezes, ao acordar durante a noite, ela os via ao lado da cama. Comportadinhos como anjos. Sorria para eles que lhe sorriam de volta. Ela virava para o canto e tornava a adormecer. Acabou gostando daqueles 'diabinhos desencarnados! .. .' Nesse ponto Regina interrompe seu relato, para uma especulação. O desaparecimento de objetos, em casa, ocorria de duas maneiras distintas. As vezes eles removiam os objetos de onde estavam para outro local completamente impróprio e inesperado. Regina só os encontrava quando eles mesmos acabavam lhe mostrando o lugar. De outras vezes processo era mais elaborado, Por exemplo: ela colocava a tesoura sobre a mesinha de centro da sala, enquanto costurava à mão. De repente, num gesto automático, estendia o braço para apanhar a tesoura e ela não mais estava ali. Mas não estava mesmo, literalmente. Ela se abaixava, procurava embaixo da mesa, à volta. Quem sabe havia caído e ela não prestara atenção? Nada. Quem sabe estaria debaixo de alguma revista ou pedaço de pano? Nada, nada. Aí ela se lembrava dos peraltas e ficava brava, fingia-se indignada. No momento seguinte, lá estava a tesoura, de volta ao seu lugar, como se nunca houvesse sido retirada de sua posição. Jamais ocorreu-lhe perguntar como é que os danadinhos conseguiam fazer aquela verdadeira mágica. É possível - julga ela - que eles recobrissem a tesoura com algum 'material' que a tornava invisível aos olhos dela, mas como é que ela não a descobria, nem mesmo pelo tato? Será que a desmaterializavam e depois a rematerializavam? Ficou sem saber. Quanto à 'arte', porém, não havia dúvida ... eles a praticavam mesmo. Não eram essas, porém, as únicas crianças desencarnadas que freqüentavam a casa de Regina. Durante muito tempo aparecia, de vez em quando, um senhor (espírito, naturalmente), acompanhado por três crianças, para uma visita. (Não eram as três 'pestinhas' das artes, das quais ela também gostava). O homem era alto, empertigado, um pouquinho formal. Lembrava um lorde inglês de postura elegante e discreta. Usava roupa clara e não dispensava a bengala de cabo de prata. Trazia as crianças e, após entregá-las a Regina, retirava-se discretamente e só voltava para apanhá-las na hora de irem embora. De alguma forma não-articulada, Regina sabia que aquelas crianças haviam sido seus filhos no passado. O senhor solene e elegante fora tio ou avô delas, ela não sabe ao certo. A mais velhinha - aí pelos doze anos de idade - deitava-se ao lado de Regina e ali ficavam as duas, em longas conversas, enquanto os dois menores - um menino que aparentava oito anos e uma menina de cerca de dois - divertiam-se pela casa. A menorzinha era mais arteira e gostava de subir em cima de Regina a fim de brincar de cavalinho. Regina adorava tais visitas e, quando ficavam sem aparecer por um período mais longo, ela sentia falta e pedia a Deus, nas suas preces, que os mandasse de volta. Certa vez ela teve uma experiência marcante e enigmática com a menorzinha, a de dois anos. Como sempre, era uma tarde de domingo e ela estava repousando em seu habitual sofá, após o almoço. E como sempre, cansadíssima, pois nessa época tinha três empregos e no fim de semana estava compreensivelmente exausta. Deixava o pensamento vagar à vontade, sem rumo específico, quando observou que a menina se aproximava, vindo da saleta de entrada, como se acabasse de chegar da rua. Era moreninha, cabelos lisos, pretos, cortadinhos na altura das orelhas, penteados à Romeu, ou seja, com as pontas viradas para dentro. Usava um vestidinho tipo avental com babados nas alças e na bainha da saia e por dentro, uma blusinha. Surpresa, sem saber ao certo o que dizer, Regina olhou-a com curiosidade. O ambiente estava bem claro, pois no lado de fora brilhava o sol das quatro horas da tarde. Ela se aproximou do sumier onde Regina repousava e falou: - Momõe (assim mesmo, com os dois o, em vez de a), vim ti visitá. E Regina meio atônita: - É, filhinha?
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