Livros Espíritas
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Conhecendo as faculdades de que era dotado, a rainha Luísa Ulrica o havia encarregado, um dia, de saber do Espírito de seu irmão, o príncipe da Prússia, porque, algum tempo antes de sua morte, ele não respondera a uma carta que ela lhe havia enviado para pedir conselhos. Ao cabo de vinte e quatro horas Swedenborg teria relatado à rainha, em audiência secreta, a resposta do príncipe, concebida de tal sorte que esta, plenamente convencida de que ninguém, exceto ela e seu falecido irmão, conheciam o conteúdo daquela carta, foi tomada da mais profunda estupefação, reconhecendo o poder miraculoso do grande homem. Eis a explicação que dá a esse fato um de seus antagonistas, o cavaleiro Beylon, leitor da rainha: “Consideravam a rainha como um dos principais autores da tentativa de revolução que ocorreu na Suécia, em 1756, e que custou a vida ao conde Barbé e ao marechal Horn. Pouco faltou para que o partido dos chapéus, que então triunfava, não a tonasse responsável pelo sangue derramado. Nesta crítica situação, ela escreveu ao irmão, o príncipe da Prússia, para lhe pedir conselho e assistência. A rainha não recebeu resposta. Como o príncipe tivesse morrido logo depois, jamais soube ela a causa do seu silêncio, razão por que encarregou Swedenborg de interrogar o Espírito do príncipe a tal respeito. Justamente à chegada da mensagem da rainha, estavam presentes os senadores conde T... e conde H... Este último, que havia interceptado a carta, sabia tão bem quanto seu cúmplice, o conde T..., por que aquela carta havia ficado sem resposta, e ambos resolveram aproveitar a circunstância para fazer com que seus conselhos, a respeito de muitas coisas, pudessem chegar à rainha. Foram, então, à noite procurar o visionário e lhe ditaram a resposta. À falta de inspiração, Swedenborg aceitou-a prontamente. No dia seguinte correu à casa da rainha e, no silêncio de seu gabinete, disse-lhe que o Espírito do príncipe lhe aparecera e o havia encarregado de anunciar-lhe o seu descontentamento e assegurar-lhe que, se não respondera à carta, é que desaprovara sua conduta e que sua política imprudente e sua ambição eram a causa do sangue derramado; que ela era culpada diante de Deus e que teria de expiar essa culpa. Ele a fazia prometer não mais se envolver nos negócios do Estado, etc., etc. Convencida por esta revelação, a rainha acreditou em Swedenborg e abraçou a sua defesa com ardor. Essa anedota deu origem a uma polêmica contínua entre os discípulos de Swedenborg e seus detratores. Um eclesiástico sueco, chamado Malthesius, que veio a enlouquecer, tinha publicado que Swedenborg, do qual era inimigo declarado, se havia retratado antes de morrer. O boato espalhou-se na Holanda, pelo outono de 1785, o que levou Robert Hindmarck a instaurar um inquérito a respeito e demonstrar toda a falsidade da calúnia inventada por Malthesius. A história da vida de Swedenborg prova que a visão espiritual, de que era dotado, em nada prejudicou o exercício de suas faculdades naturais. Seu panegírico, pronunciado após sua morte pelo acadêmico Landel perante a Academia de Ciências de Estocolmo, mostra quanto era vasta a sua erudição e, pelos discursos pronunciados na Dieta, em 1761, vemos a parte que ele tomava na direção dos negócios públicos de seu país. A doutrina de Swedenborg fez numerosos prosélitos em Londres, na Holanda e mesmo em Paris, onde deu origem às Sociedades de que tratamos em nosso número do mês de outubro, a dos Martinistas, dos Teósofos, etc. Se nem todos a aceitaram em todas as suas conseqüências, teve, pelo menos, o mérito de propagar a crença na possibilidade da comunicação com os seres de além-túmulo, crença bastante antiga, como se sabe, mas até agora oculta às pessoas simples pelas práticas misteriosas de que se achava envolvida. O mérito incontestável de Swedenborg, seu profundo saber, sua alta reputação de sabedoria tiveram um grande peso na propagação dessas idéias, que hoje se popularizam cada vez mais, pois crescem em plena luz e, longe de buscar a sombra do mistério, fazem apelo à razão. Malgrado os erros de seu sistema, Swedenborg não deixa de ser uma dessas grandes figuras cuja lembrança ficará ligada à história do Espiritismo, do qual foi um dos primeiros e mais zelosos fomentadores. COMUNICAÇÃO DE SWEDENBORG PROMETIDA NA SESSÃO DE 16 DE SETEMBRO (Sociedade, 23 de setembro de 1859) Meus bons amigos e crentes fiéis. Desejei vir entre vós para vos encorajar no caminho que seguis com tanta firmeza, relativamente à questão espírita. Vosso zelo é apreciado no mundo dos Espíritos. Prossegui, mas não vos descuideis, porque os obstáculos ainda vos entravarão por algum tempo; a vós não faltarão detratores, como também ocorreu comigo. Há um século preguei o Espiritismo e tive inimigos de todos os gêneros; mas tive também fervorosos adeptos, e isso sustentou a minha coragem. A minha moral espírita e a minha doutrina não estão isentas de grandes erros, que hoje reconheço. Assim, as penas não são eternas; vejo que Deus é muito justo e muito bom para punir eternamente a criatura que não tem força suficiente para resistir às paixões. O que eu também dizia do mundo dos anjos, que é o que pregam nos templos, não passava de ilusão dos meus sentidos; acreditei vê-lo, agia de boa-fé, mas enganei-me. Vós, sim, estais no melhor caminho, porque estais mais esclarecidos do que estávamos em meu tempo. Continuai, mas sede prudentes, a fim de que os vossos inimigos não tenham armas muito fortes contra vós. Vede o terreno que ganhais todos os dias. Coragem, pois, porque o futuro vos está garantido. O que vos dá forças é o fato de falardes em nome da razão. Tendes perguntas a dirigir-me? Eu vo-las responderei. Swedenborg 1. Foi em 1745, em Londres, que tivestes a primeira revelação. Vós a desejáveis? Naquele tempo já vos ocupáveis de questões teológicas? Resp. – Já me ocupava com isso, mas não desejara absolutamente essa revelação: ela me veio espontaneamente. 2. Qual foi o Espírito que vos apareceu, dizendo ser o próprio Deus? Era realmente Deus? Resp. – Não. Acreditei no que me falava porque nele via um ser sobre-humano e fiquei lisonjeado. 3. Por que ele tomou o nome de Deus? Resp. – Para ser mais bem obedecido. 4. Pode Deus manifestar-se diretamente aos homens? Resp. – Certamente o poderia, mas não o faz mais. 5. Então já houve um tempo em que ele se teria manifestado? Resp. – Sim, nas primeiras idades da Terra. 6. Aquele Espírito vos fez escrever coisas que hoje reconheceis como errôneas. Ele o fez com boa ou com má intenção? Resp. – Não o fez com má intenção; ele próprio se enganou, porque não era suficientemente esclarecido. Agora percebo que as ilusões do meu próprio Espírito e de minha inteligência o influenciavam, mau grado seu. Entretanto, no meio de alguns erros de sistema, fácil é reconhecer grandes verdades. 7. O princípio de vossa doutrina repousa sobre as correspondências. Continuais acreditando nessas relações que encontráveis entre cada coisa do mundo material, e cada coisa do mundo moral? Resp. – Não; é uma ficção. 8. Que entendeis por estas palavras: Deus é o próprio homem? Resp. – Deus não é o homem, mas o homem é uma imagem de Deus. 9. Poderíeis desenvolver o vosso pensamento? Resp. – Digo que o homem é a imagem de Deus porque a inteligência, o gênio que ele recebe algumas vezes do céu é uma emanação da Onipotência Divina. Ele representa Deus na Terra pelo poder que exerce na Natureza inteira e pelas grandes virtudes que está em seu poder adquirir. 10. Devemos considerar o homem como uma parte de Deus? Resp. – Não, o homem não é uma parte da Divindade: é apenas sua imagem. 11. Poderíeis dizer-nos de que maneira recebíeis as comunicações dos Espíritos? Escrevíeis aquilo que vos era revelado à maneira de nossos médiuns, ou por inspiração? Resp. – Quando me achava em silêncio e em recolhimento, meu Espírito ficava como que maravilhado, extasiado, e eu via claramente uma imagem diante de mim, que me falava e ditava o que deveria escrever; algumas vezes minha imaginação se misturava nisso. 12. Que devemos pensar do fato narrado pelo cavaleiro Beylon, a propósito da revelação que fizestes à rainha Luísa Ulrica? Resp. – Essa revelação é verdadeira. Beylon a desnaturou. 13. Qual a vossa opinião sobre a Doutrina Espírita, tal qual é hoje? Resp. – Eu vos disse que estais num caminho mais seguro que o meu, tendo em vista que as vossas luzes são em geral mais amplas. Eu tinha de lutar contra uma ignorância maior e, sobretudo, contra a superstição.
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