Livros Espíritas
Sugerir Edição de Documento
Editar documento
Título:
Autor:
Espiritos:
Capítulo:
Conteúdo:
20000
caracteres restantes
19, 20 PERFECTIBILIDADE DA RAÇA NEGRA A raça negra é perfectível? Segundo algumas pessoas, esta questão é julgada e resolvida negativamente. Se assim é, e se esta raça é votada por Deus a uma eterna inferioridade, segue-se que é inútil nos preocuparmos com ela e que devemos nos limitar a fazer do negro uma espécie de animal doméstico, preparado para a cultura do açúcar e do algodão. Entretanto a Humanidade, tanto quanto o interesse social, requer um exame mais cuidadoso. É o que tentaremos fazer. Mas como uma conclusão desta gravidade, num ou noutro sentido, não pode ser tomada levianamente e deve apoiar-se em raciocínio sério, pedimos permissão para desenvolver algumas considerações preliminares, que nos servirão para mostrar, mais uma vez, que o Espiritismo é a única chave possível de uma multidão de problemas, insolúveis com o auxílio dos dados atuais da Ciência. A frenologia nos servirá de ponto de partida. Exporemos sumariamente as suas bases fundamentais para melhor compreensão do assunto. Como se sabe, a frenologia apóia-se no princípio de que o cérebro é o órgão do pensamento, como o coração o é da circulação, o estômago da digestão e o fígado da secreção da bile. Este ponto é admitido por todos, pois ninguém há que possa atribuir o pensamento a outra parte do corpo. Cada um sente que pensa pela cabeça e não pelo braço e pela perna. Mais ainda: sente-se instintivamente que a sede do pensamento está na fronte; é aí, e não no occipício, que se leva a mão para indicar que um pensamento acaba de surgir. Para todo o mundo o desenvolvimento da parte frontal leva a presumir mais inteligência do que quando ela é baixa e deprimida. Por outro lado, as experiências anatômicas e fisiológicas demonstraram claramente o papel especial de certas partes do cérebro nas funções vitais, e a diferença dos fenômenos produzidos pela lesão de tal ou qual parte. As pesquisas da Ciência não podem deixar dúvida a respeito; as do Sr. Flourens, sobretudo, provaram à evidência a especialidade das funções do cerebelo. Assim, é admitido como princípio que as diferentes partes do cérebro não exercem as mesmas funções. Além disso, é reconhecido que, originando-se do cérebro, os cordões nervosos, tal como os filamentos de uma raiz, se ramificam em todas as partes do corpo e são afetados de maneira diferente, conforme a sua destinação. É assim que o nervo óptico, que alcança o olho e se abre na retina é afetado pela luz e pelas cores e transmite essas sensações ao cérebro numa porção especial; que o nervo auditivo é afetado pelos sons, os nervos olfativos pelos odores. Se um desses nervos perder a sensibilidade por uma causa qualquer, não haverá mais a sensação: fica-se cego, surdo ou privado do odor. Esses nervos têm, pois, funções distintas e não podem de modo algum se substituir, embora o exame mais minucioso não mostre a mínima diferença na sua contextura. Partindo desses princípios, a frenologia vai longe: localiza todas as faculdades morais e intelectuais, atribuindo a cada uma um lugar especial no cérebro. É assim que confere a um órgão o instinto de destruição que, levado ao excesso, se torna crueldade e ferocidade; a outro a firmeza, cujo excesso, sem o contrapeso do julgamento, produz a obstinação; a outro o amor da progênie; finalmente, a outros, a memória das localidades, dos números, das formas, do sentimento poético, da harmonia dos sons, das cores, etc., etc. Aqui não é o lugar de fazer a descrição anatômica do cérebro. Diremos apenas que, se fizermos uma secção longitudinal na massa, reconheceremos que da base partem feixes fibrosos que vão desabrochar na superfície, apresentando mais ou menos o aspecto de um cogumelo cortado na sua altura. Cada feixe corresponde a uma das circunvoluções da superfície externa, de onde se segue que o desenvolvimento da circunvolução corresponde ao desenvolvimento do feixe fibroso. Sendo cada feixe, de acordo com a frenologia, a sede de uma sensação ou de uma faculdade, conclui ela que a energia da sensação ou da faculdade é proporcional ao desenvolvimento do órgão. No feto a caixa óssea do crânio ainda não se acha formada; inicialmente não passa de uma película, de uma membrana muito flexível, que se modela, conseguintemente, nas partes salientes do cérebro e lhes conserva a impressão, à medida que se endurece pelos depósitos de fosfato de cálcio, que é a base dos ossos. Das saliências do crânio a frenologia conclui o volume do órgão, e do volume do órgão conclui o desenvolvimento da faculdade. Tal é, em breves palavras, o princípio da ciência frenológica. Embora o nosso objetivo não seja desenvolvê-la aqui, ainda são necessárias algumas palavras quanto ao modo de apreciação. Enganar-se-ia redondamente quem acreditasse poder deduzir o caráter absoluto de uma pessoa pela simples inspeção das saliências do crânio. As faculdades se contrabalançam reciprocamente, se equilibram, se corroboram ou se atenuam umas às outras, de tal sorte que, para julgar um indivíduo, é preciso levar em conta o grau de influência de cada uma, em razão do seu desenvolvimento, depois pesar na balança o temperamento, o meio, os hábitos e a educação. Suponhamos um homem com o órgão da destruição muito pronunciado, com atrofia dos órgãos das faculdades morais e afetivas: será miseravelmente feroz. Mas se à destruição aliar a benevolência, a afeição, as faculdades intelectuais, a destruição será neutralizada e terá o efeito de lhe dar mais energia; poderá ser um homem muito honrado, ao passo que o observador superficial, que o julgasse apenas pela inspeção do primeiro órgão, o tomaria por um assassino. Concebem-se, assim, todas as modificações de caráter que podem resultar do concurso das outras faculdades, como a astúcia, a circunspeção, a auto-estima, a coragem, etc. A só sensação da cor fará o colorista, mas não fará o pintor; só a da forma não fará o desenhista; as duas reunidas apenas farão um bom copista se, ao mesmo tempo, não houver o sentimento da idealidade ou da poesia, e as faculdades reflexivas e comparativas. Basta isto para mostrar que as observações frenológicas práticas apresentam grande dificuldade e repousam sobre considerações filosóficas, que não estão ao alcance de todos. Estabelecidas estas preliminares, encaremos a coisa de outro ponto de vista. Dois sistemas radicalmente opostos dividiram, desde o início, os frenologistas em materialistas e espiritualistas. Não admitindo nada fora da matéria, dizem os primeiros que o pensamento é um produto da substância cerebral; que o cérebro secreta o pensamento, como as glândulas salivares secretam a saliva, como o fígado secreta a bile. Ora, como a quantidade de secreção geralmente é proporcional ao volume e à qualidade do órgão secretor, dizem que a quantidade de pensamentos é proporcional ao volume e à qualidade do cérebro; que cada parte do cérebro, secretando uma ordem particular de pensamentos, os diversos sentimentos e as diversas aptidões estão na razão direta do órgão que os produz. Não refutaremos esta monstruosa doutrina, que faz do homem uma máquina, sem responsabilidade por seus atos maus, sem méritos pelas suas boas qualidades, e que apenas deve o seu gênio e as suas virtudes ao acaso de sua organização21. Com semelhante sistema toda punição é injusta e todos os crimes são justificados. Os espiritualistas dizem, ao contrário, que os órgãos não são a causa das faculdades, mas os instrumentos da manifestação das faculdades; que o pensamento é um atributo da alma e não do cérebro; que a alma, possuindo por si mesma aptidões diversas, a predominância de tal ou qual faculdade impele o desenvolvimento do órgão correspondente, como o exercício de um braço induz o desenvolvimento dos músculos desse braço. Daí se segue que o desenvolvimento de um órgão é o efeito, e não a causa. Assim, um homem não é poeta porque tenha o órgão da poesia: ele tem o órgão da poesia porque é poeta, o que é muito diferente. Mas aqui se apresenta uma outra dificuldade, ante a qual forçosamente tropeçam os frenologistas: se for espiritualista, dirá que o poeta tem o órgão da poesia porque é poeta; mas não nos diz por que ele é poeta, porque o é, em vez de seu irmão, embora educado nas mesmas condições; e, assim, em relação a todas as outras aptidões. Só o Espiritismo o explica. Com efeito, se a alma fosse criada ao mesmo tempo que o corpo, a do sábio do Instituto seria tão nova quanto a do selvagem. Então, por que há na Terra selvagens e membros do Instituto? Direis que depende do meio em que vivem. Seja. Dizei, então, por que homens nascidos nos meios mais ingratos e mais refratários tornam-se gênios, ao passo que outros, que recebem a Ciência desde a infância, são imbecis? Os fatos não provam à evidência que há homens instintivamente bons ou maus, inteligentes ou estúpidos? É preciso, pois, que haja na alma um germe. De onde vem ele? Pode dizer-se razoavelmente que Deus os fez de todos os tipos, uns chegando sem esforço e outros nem sequer com um trabalho obstinado? Seria isso justiça e bondade?
Mais opções
Nota 1:
5000
caracteres restantes
(20) Nota da Editora: Ver “Nota Explicativa”, p. 529.
Formatar
Nova Nota
Nota 2:
5000
caracteres restantes
(21) Vide a Revista de março de 1861: A Cabeça de Garibaldi.
Formatar
Nova Nota
Nota 3:
5000
caracteres restantes
(22) Vide a Revista Espírita de outubro de 1861: Os cretinos.
Formatar
Nova Nota
Nota 4:
5000
caracteres restantes
(23) N. do T.: Allan Kardec, por certo, está se referindo aos Espíritos encarnados nas tribos incultas, selvagens, então existentes em algumas regiões do planeta e que hoje, em contato com outros pólos de civilização, vêm evoluindo progressivamente, como sói acontecer com as demais raças, seja qual for a coloração de sua pele.
Formatar
Nova Nota
Nota 5:
5000
caracteres restantes
(19) N. do T.: Vide Revista Espírita, julho de 1860: Frenologia e Fisiognomonia.
Formatar
Nova Nota
TAG
Valor
Mensagem para o avaliador (caso precise explicar suas sugestões):
3000
caracteres restantes
Criado por (coloque telefone ou e-mail caso seja necessário entrar em contato):
Cancelar
Salvar
Aguarde um momento...
×
Deseja sair do sistema?
×
Confirma a operação?
×