Livros Espíritas
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Deixaram, primeiramente, disseminar-se a idéia em meios mais bem preparados, para, daí, ir lavrando até aos centros refratários por diferentes caminhos, visíveis e ocultos, e, sob a ação simultânea dos agentes dos dois mundos, infiltrar-se neles paulatinamente, como está sucedendo no momento presente. A educação protestante não deixa no pensamento dos crentes ortodoxos lugar algum para a noção das vidas sucessivas. No seu modo de pensar, a alma, por ocasião da morte, é julgada e fixada definitivamente ou no paraíso ou no inferno. Para os católicos existe um termo médio: é o purgatório, lugar indefinido, não circunscrito, onde a alma tem de expiar suas faltas e purificar-se por meios incertos. Essa concepção é um encaminhamento para a idéia dos renascimentos terrestres. O católico pode assim relacionar as crenças antigas com as novas, ao passo que o protestante ortodoxo se vê na necessidade de fazer tábua rasa e de edificar no seu entendimento doutrinas absolutamente diferentes das que lhe foram sugeridas por sua religião. Daí, a hostilidade que o princípio das vidas múltiplas encontrou logo de princípio nos países anglo-saxônicos adeptos do Protestantismo; daí, os preconceitos que persistem, mesmo depois da morte, numa certa categoria de Espíritos. Vimos que, na atualidade, pouco a pouco se vai produzindo uma reação, a crença nas vidas sucessivas vai ganhando todos os dias mais algum terreno nos países protestantes, à medida que a idéia do inferno se lhes vai tornando estranha. Conta já, na Inglaterra e na América, numerosos partidários; os principais órgãos espíritas desses países adotaram-na, ou pelo menos a discutem com uma imparcialidade de bom quilate. Os testemunhos dos Espíritos em seu favor, tão raros ao princípio, multiplicam-se hoje. Damos alguns exemplos. Em Nova Iorque foi publicada, em 1905, uma obra importante com o título The Widow's Mite, na qual se fala da reencarnação. Diz J. Colville, na Light: “O autor, Sr. Funck, é homem muito conhecido e altamente respeitado nos centros literários americanos como o mais antigo sócio da firma comercial Funck and Wagnalls, editora do famoso Standard Dictionary, cuja autoridade é reconhecida em toda parte onde se fala inglês. É um homem prudente, que, passo a passo e com as maiores precauções, chegou à conclusão de que a Telepatia e a comunicação com os Espíritos estão, de ora em diante, demonstradas. Tomou como princípio pesar toda aparência de prova que se apresente e, graças a isso, chegou, após vinte e cinco anos de observações conscienciosas, a editar uma obra que provocará, com certeza, em muitos espíritos, convicção mais profunda do que provocaria se ele tivesse ligado atenção menos escrupulosa às minúcias. Esse livro contém uma grande variedade de fenômenos psíquicos observados nas condições mais variadas e relatados com o maior cuidado por uma testemunha céptica a princípio, e merece lugar elevado na literatura especial.” Na obra de que se trata, o autor expõe, primeiramente, as condições de experimentação: “O leitor deve considerar que a médium é uma senhora de idade, sem instrução, e a quem, tendo-a encontrado já nuns quarenta círculos, tivemos todo o vagar de estudar sob o ponto de vista moral. Na presente ocasião estou absolutamente convencido de que ela não tinha nenhum cúmplice. A primeira comunicação, de natureza muito elevada, dizia respeito às leis da Natureza; deixamo-la de parte, apesar do seu interesse, e chegamos à segunda, que tratava da reencarnação. A voz do Espírito-guia do grupo, Amos, fazendo-se ouvir, disse: – Está aqui um Espírito luminoso que hoje vos apresento; vem dar-vos esclarecimentos a respeito da reencarnação, que foi o objeto de uma de vossas perguntas; é um Espírito muito elevado, que consideramos como instrutor para nós mesmos, e vem a instâncias nossas. Estais lembrados de que as perguntas que haveis feito, em várias reuniões, não receberam resposta satisfatória; por isso recorremos a ele, que consentiu em vir. Sinto vivamente que o Prof. Hyslop esteja ausente, já que fez várias perguntas a esse respeito, em outra ocasião. Uma voz, muito mais forte que a precedente e absolutamente diversa, toma assim a palavra: – Meus amigos, a reencarnação é a lei do desenvolvimento do Espírito na via do seu progresso (e todos devemos progredir, lentamente, é verdade, com pausas mais ou menos prolongadas, desenvolvimento que demanda longos séculos). Vem um momento em que o Espírito torna a nascer, entrando em outra esfera mais elevada da sua existência. Não falo somente da reencarnação na Terra. Não é freqüente que um Espírito elevado, que tenha vivido na Terra, torne a nascer nela. Algumas vezes, no entanto, os Espíritos são afeiçoados à Terra e aos seus atrativos, e tornam a tomar corpos humanos e a viver outra vez na Terra; mas isso não é necessário para os Espíritos elevados. Os progressos são mais rápidos no corpo espiritual e nas regiões onde nos achamos do que nas condições da vida terrena. O que acabamos de dizer é aplicável a cada uma das Esferas que sucessivamente percorremos. Diz, depois, que Jesus desceu de uma Esfera superior para desempenhar missão junto aos homens e trazer-lhes a verdade.” Friedrich Myers, em sua obra magistral La Personnalité Hummaine (edição inglesa) cap. X, 1.011, exprime opinião análoga: “Nosso novo conhecimento, em Psiquismo, confirmando o pensamento antigo, confirma também, em relação ao Cristianismo, as narrativas das aparições do Cristo depois da morte e faz-nos entrever a possibilidade da reencarnação benfazeja de Espíritos que atingiram um nível mais elevado que o homem.” Depois, na pág. 403: “Das três hipóteses que têm por objetivo explicar o mistério das variações individuais, do aparecimento de qualidades e propriedades novas, a teoria das reminiscências de Platão parece-nos a mais verossímil, com a condição de assentar a base nos dados científicos estabelecidos em nossos dias.” E à pág. 329: “A doutrina da reencarnação nada encerra que seja contrário à melhor razão e aos instintos elevados do homem. Não é, decerto, fácil estabelecer uma teoria firmando a criação direta de Espíritos em fases de adiantamento tão diversas como aquelas em que tais Espíritos entram na vida terrena, com a forma de homens mortais; deve existir certa continuidade, certa forma de passado espiritual. Por enquanto, nenhuma prova possuímos em favor da reencarnação.” Myers não conhecia as experiências recentes de que falamos no capítulo XIV; no entanto afirma novamente (pág. 407): “a evolução gradual (das almas) tem estádios numerosos, aos quais é impossível assinalar um limite”. Mais recentemente, as Cartas do Mundo dos Espíritos, de Lord Carlingford, publicadas na Inglaterra, admitem as reencarnações como conseqüência necessária da lei de evolução. A doutrina das vidas sucessivas vai-se insinuando mansamente, na atualidade, por toda parte, do outro lado da Mancha. Aí vemos um filósofo como o Professor Taggart adotá-la de preferência às outras doutrinas espiritualistas e declarar, como o fizera Hume antes dele, que “ela é a única que apresenta vistas razoáveis acerca da imortalidade”. No último congresso da Igreja Anglicana, em Weymouth, o venerável arcediago Colley, reitor de Stockton (Warwickshire), fez uma conferência sobre a reencarnação, em sentido favorável. Esse fato indica-nos que as novas idéias abrem brecha até no seio das igrejas da Inglaterra (Light of Truth). Enfim, em seu discurso de abertura, como presidente da Society for Psychical Research, o Rev. W. Boyd-Carpenter, bispo de Ripon, a 23 de maio de 1912, diante de seleto e distinto auditório, fez ressaltar a utilidade das pesquisas psíquicas, a fim de se obter um conhecimento mais completo do “eu” humano e precisar as condições de sua evolução. “O interesse desse discurso, dizem os Annales des Sciences Psychiques de maio de 1912, reside especialmente nisto: o ver-se aí um alto dignitário da Igreja Anglicana afirmar, como certos padres da Igreja, a preexistência da alma e aderir à teoria da evolução e das existências múltiplas.”
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