Livros Espíritas
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O moço tarsense não prestou atenção naquela ati tude de profunda humildade, e, franzindo o sobrolho, acrescentou ameaçadoramente: — Achas que podes mentir a um doutor da Lei? — Senhor, eu juro... — dizia o jovem ansiosamente. Saulo não se dignou fixar -lhe o gesto suplicante. Dirigindo -se a um dos guardas, exclamou impassível: — Júlio, não temos tempo a perder. Necessito da informação necessária. Aplica-lhe o tormento das unhas. Acredito que, por esse processo, não se animará a prosseguir na dissimulação da verdade. A ordem foi logo cumprida. Agu çadas pontas de ferro foram tiradas de um grande armário cheio de pó. Em poucos instantes, Júlio e o companheiro, depois de amarrarem o pobre rapaz num tronco rústico, aplicavam -lhe os instrumentos pontiagudos na ponta dos dedos, provocando -lhe gritos lancinantes. O jovem prisioneiro clamava, em vão, suas dores atrozes. Os verdugos ouviam-no com indiferença. Quando o sangue começou a gotejar da unha arrancada violentamente, a vítima bra dou em altas vozes: — Por piedade!... Confessarei tudo, direi onde ele está!... Tende compaixão de mim!... Saulo ordenou sustassem a punição por momentos, a fim de ouvir as novas declarações. — Senhor! — acrescentou o infeliz entre lágrimas Ananias não se encontra mais em Jerusalém. – Em nossa última reunião, três dias ante s de cairmos no cárcere, o velho discípulo do Evangelho se despediu, afir mando que ia fixar-se em Damasco. Aquela voz lamentosa era um eco de profundas amarguras a se represarem num coração moço, mas repleto de penosas desilusões da vida. Saulo, entretanto, parecia não ter olhos de ver sofrimentos tão comove dores. — É tudo quanto sabes? — perguntou secamente. — Juro-o — tornou o rapaz humildemente. Diante daquela afirmação categórica, transparente no olhar sincero e na inflexão da voz comovente e triste, o doutor da Lei deu-se por satisfeito, mandando recolher o prisioneiro ao calabouço. Daí a dois dias, o moço tarsense convocava uma reu nião no Sinédrio, à qual atribuía singular importância. Os colegas acorreram ao chamado, sem exceção. Abertos os traba lhos, o doutor de Tarso esclareceu o motivo da convocação. — Amigos — declarou ciosamente —, há tempos nos reunimos para examinar o caráter da luta religiosa que se criara em Jerusalém com as atividades dos asseclas do carpinteiro de Nazaré. Felizmente, no ssa intervenção chegou a tempo de evitar grandes males, dada a argúcia dos falsos taumaturgos exportados da Galiléia. Á custa de grandes esforços, a atmosfera desanuviou-se. É verdade que os cárceres da cidade transbordam, mas a medida se justifica, porqü anto é indispensável reprimir o instinto revolucionário das massas ignorantes. A chamada igreja do “Caminho” restringiu suas atividades àassistência aos enfermos desamparados. Nossos bairros mais humildes estão em paz. Voltou a serenidade aos nossos afaze res no Templo. Entretanto, não se pode afirmar o mesmo quanto às cidades vizinhas. Minhas consultas às autoridades religiosas de Jope e Cesaréia dão a conhecer os distúrbios que os adeptos do Cristo vêm provocando, acintosamente, com prejuízo sério para a ordem pública. Não somente nesses núcleos precisamos desenvolver a obra saneadora, mas, ainda agora, che gamme notícias alarmantes de Damasco, a requererem providências imediatas. Localizam-se ali perigosos elementos. Um velho, chamado Ananias, lá está perturbando a vida de quantos necessitam de paz nas sinago gas. Não é justo que o mais alto tribunal da raça se desinteresse das coletividades israelitas noutros setores. Proponho, então, estendermos o benefício dessa cam panha a outras cidades. Para esse fim, ofereço todos os meus préstimos pessoais, sem ônus para a casa a que servimos. Bastar -me-á, tão-só, o necessário documento de habilitação, a fim de acionar todos os recursos que me pareçam acertados, inclusive o da própria pena de morte, quando a julg ue necessária e oportuna. A proposta de Saulo foi recebida com demonstrações de simpatia. Houve mesmo quem chegasse a propor um voto especial de louvor ao seu zelo vigilante, com aplausos unânimes da reduzida assembléia. Faltava ao cenáculo a ponderação de um Gamaliel, e o sumo -sacerdote, compelido pela aprovação geral, não hesitou em conceder as cartas indispensáveis, com ampla autorização para agir discricionariamente. Os presentes abraçaram o jovem ra bino com muitos encômios ao seu espírito arguto e e nérgico. Francamente, aquela mentalidade moça e vigorosa constituía auspicioso penhor de um futuro maior, com a emancipação política de Israel. Alvo das referências lisonjeiras e estimuladoras dos amigos, Saulo de Tarso aguçava o orgulho de sua raça, esperançoso nos dias do porvir. Verdade é que sofria amargamente com a derrocada dos sonhos da juventude, mas empregaria a soledade da existência nas lutas que reputava sagradas, ao serviço de Deus. De posse das cartas de habilitação para agir con venientemente, em cooperação com as Sinagogas de Damasco, aceitou a companhia de três varões respeitáveis, que se ofereceram a acompanhá -lo na qualidade de servidores muito amigos. Ao fim de três dias, a pequena caravana se deslocou de Jerusalém para a extensa planície da Síria. Na véspera da chegada, quase a termo da viagem difícil e penosa, o moço tarsense sentia agravarem -se as recordações amargas que lhe assomavam constantes. Forças secretas impunham -lhe profundas interrogações. Passava em revista os primeiros son hos da juventude. Sua alma desdobrava -se em perguntas atrozes. Desde a adolescência que encarecia a paz interior: tinha sede de estabilidade para realizar a sua carreira. Onde en contrar aquela serenidade, que, tão cedo, fora objeto das suas cogitações mai s íntimas? Os mestres de Israel preconizavam, para isso, a observância integral da Lei. Mais que tudo, havia ele guardado os seus princípios. Desde os impulsos iniciais da juventude, abominava o pecado. Consagrara -se ao ideal de servir a Deus com todas as suas forças. Não hesitara na execução de tudo que considerava dever, ante as ações mais violentas e rudes. Se era incontestável que tinha inúmeros admiradores e amigos, tinha igualmente poderosos adversá rios, graças ao seu caráter inflexível no cumprimen to das obrigações que considerava sagradas. Onde, então, a paz espiritual que tanto almejava nos esforços comuns? Por mais energias que despendesse, via -se como um laboratório de inquietações dolorosas e profundas. Sua vida assinalava -se por idéias poderosas, mas, no seu íntimo, lutava com antagonismos irreconciliáveis. As noções da Lei de Moisés pareciam não lhe bastar à sede devoradora. Os enigmas do destino empolgavam -lhe a mente. O mistério da dor e dos destinos diferenciais crivava -o de enigmas insolúveis e sombrias interrogações. Entretanto, aqueles adeptos do carpinteiro crucificado ostentavam uma serenidade desconhecida! A alegação de ignorância dos problemas mais graves da vida não prevalecia no caso, pois Estevão era uma inteligência poderosa e mo strara, ao morrer, uma paz impressionante, acompanhada de valores espirituais que infundiam assombro. Por mais que os companheiros lhe chamassem a atenção para os primeiros quadros de Damasco, que se desenhavam ao longe, Saulo não conseguia forrar-se ao solilóquio sombrio. Parecia não ver os camelos resigna dos, que se arrastavam pesadamente sob o sol de brasas, a pino, do meio -dia. Embalde foi convidado à refeição. Detendo-se por minutos num pequeno oásis delicioso, esperou que terminasse o leve repasto dos companheiros e prosseguiu na marcha, absorvido pela intensidade dos pensamentos íntimos. Ele próprio não saberia explicar o que se passava. Suas reminiscências atingiam os períodos da primeira infância. Todo o seu passado laborioso aclarava-se, nitidamente, naquele exame introspectivo. Dentre todas as figuras familiares, a lembrança de Estevão e de Abigail destacava -se, como a solicitálo para mais fortes inter rogações. Por que haviam adquirido, os dois irmãos de Corinto, tal ascendência em todos os pr oblemas do seu ego? Por que esperava Abigail através de todas as estra das da mocidade, na idealização de uma vida pura? Recordava os amigos mais eminentes, e em nenhum deles encontrou qualidades morais semelhantes às daquele jo vem pregador do “Caminho”, que afrontara a sua autoridade político-religiosa, diante de Jerusalém em peso, desdenhando a humilhação e a morte, para morrer depois, abençoando -lhe as resoluções iníquas e implacáveis. Que força os unira nos labirintos do mundo, para que o seu coração nunca mais os esquecesse? A verdade dolorosa é que se encontrava sem paz interior, não obstante a conquista e gozo de todas as prerrogativas e privilégios, entre os vultos mais destacados da sua raça. Enfileirava, no pensamento, as jovens que havia conhec ido no transcurso da vida, as afeiçoadas da infância, e em nenhuma podia encontrar as mesmas características de Abigail, que lhe adivinhava os mais recônditos desejos. Atormentado pelas indagações profundas que lhe assoberbavam a mente, pareceu despertar de um grande pesadelo. Devia ser meio -dia. Muito distante ainda, a paisagem de Da masco apresentava os seus contornos: pomares espessos, cúpulas cinzentas que se esboçavam ao longe. Bem montado, evidenciando o aprumo de um homem habituado aos prazeres do esporte, Saulo ia à frente, em atitude dominadora. Em dado instante, todavia, quando mal despertara das angustiosas cogitações, sente-se envolvido por luzes diferentes da tonalidade solar. Tem a impressão de que o ar se fende como uma cortina, sob pressão invisível e poderosa. Íntimamente, considera -se presa de inesperada vertigem após o esforço mental, persistente e doloroso. Quer voltar -se, pedir o socorro dos companheiros, mas não os vê, apesar da possibilidade de suplicar o auxílio. — Jacob!... Demétrio!... Socorram-me!... — grita desesperadamente. Mas a confusão dos sentidos lhe tira a noção de equilíbrio e tomba do animal, ao desamparo, sobre a areia ardente. A visão, no entanto, parece dilatar-se ao infinito.
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