Livros Espíritas
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Acabamos de seguir o espírito do homem através das diferentes fases do desprendimento: sono ordinário, sono magnético, sonambulismo, transmissão do pensamento e telepatia, em todas as suas formas. Vimos a sua sensibilidade e os seus meios de percepção aumentarem na razão do afrouxamento dos laços que o prendem ao corpo. Vamos agora vê-lo no estado de liberdade absoluta, isto é, depois da morte, manifestando-se ao mesmo tempo física e intelectualmente aos seus amigos da Terra. Não há solução de continuidade entre esses diferentes estados psíquicos. Quer esses fenômenos se dêem durante a vida material ou depois, são idênticos nas suas causas, nas suas leis e nos seus efeitos; produzem-se segundo modos constantes. Há continuidade absoluta e graduação entre todos esses fatos, desvanecendo-se assim a noção de sobrenatural, que por muito tempo os tornou suspeitos à Ciência. O antigo adágio: “A Natureza não dá saltos” verifica-se mais uma vez. A morte não é um salto: é a separação e não a dissolução dos elementos que constituem o homem terrestre; é a passagem do mundo visível ao mundo invisível, cuja delimitação é puramente arbitrária e devida simplesmente à imperfeição dos nossos sentidos. A vida de cada um de nós no Além é o prolongamento natural e lógico da vida atual, o desenvolvimento da parte invisível do nosso ser. Há concatenação no domínio psíquico, como no domínio físico. Nas duas ordens de aparições, quer dos vivos exteriorizados, quer dos defuntos, é sempre, como vimos, a forma fluídica, o veículo da alma, reprodução ou, antes, esboço do corpo físico, que se concretiza e se torna perceptível para os sensitivos. A Ciência, depois dos trabalhos de Becquerel, Curie, Le Bon, etc., familiariza-se de dia para dia com os estados sutis e invisíveis da matéria, numa palavra, com os fluidos utilizados pelos Espíritos nas suas manifestações, e que os espíritas bem conhecem. Graças às descobertas recentes, a Ciência pôs-se em contacto com um mundo de elementos, de forças, de potências, cuja existência nem sequer imaginava, e mostrou-se-lhe afinal a possibilidade de formas de existência durante muito tempo ignoradas. Os sábios que estudaram o fenômeno espírita, Sir W. Crookes, R. Wallace, R. Dale Owen, Aksakof, O. Lodge, Paul Gibier, Myers, etc., verificaram numerosos casos de aparições de pessoas mortas. O Espírito Katie King, que durante três anos se materializou em casa de Sir W. Crookes, membro da Academia Real de Londres, foi fotografado em 26 de março de 1874, na presença de um grupo de experimentadores.(82) Sucedeu o mesmo com os Espíritos Abdullah e John King, fotografados por Aksakof. O acadêmico R. Wallace e o Dr. Thompson obtiveram a fotografia espírita de suas respectivas mães, falecidas havia muitos anos.(83) Myers fala de 231 casos de aparições de pessoas mortas. Cita alguns tirados dos Phantasms.(84) Assinalemos nesse número uma aparição anunciando uma morte iminente:(85) “Um caixeiro viajante, homem muito positivo, teve certa manhã a visão de uma sua irmã que falecera havia nove anos. Quando contou o fato à família, foi ouvido com incredulidade e cepticismo; mas, ao descrever a visão, mencionou a existência de uma arranhadura na face da irmã. Essa particularidade de tal maneira impressionou sua mãe, que ela caiu desmaiada. Depois que voltou a si, contou que fora ela que, sem querer, fizera essa arranhadura na filha, no momento em que a depunha no caixão; que, em seguida, para disfarçá-la, cobrira-a com pós, de modo que ninguém no mundo estava a par dessa particularidade. O sinal que seu filho vira, pois, prova a veracidade da visão e ela viu nele ao mesmo tempo o anúncio da sua morte que, efetivamente, sobreveio algumas semanas depois.” (86) Devem ser citados igualmente os casos seguintes: o de um mancebo que se comprometera, se morresse primeiro, a aparecer a uma donzela, sem lhe causar grande susto. Apareceu efetivamente um ano depois à irmã dela, no momento em que ia subir para uma carruagem;(87) o caso do Sr. Town, cuja imagem foi vista por seis pessoas;(88) o caso da Sra. de Fréville, que gostava de freqüentar o cemitério e passear em volta da campa do marido e aí foi vista, sete ou oito horas depois do seu falecimento, por um jardineiro que por ali passava;(89) o de um pai de família, falecido em viagem e que apareceu à filha com um vestuário desconhecido que, depois de morto, uns estranhos lhe haviam vestido. Falou-lhe de uma quantia que ela ignorava estar em seu poder. A exatidão desses dois fatos foi reconhecida ulteriormente;(90) o caso de Edwin Russell, que se fez visível ao seu mestre de capela com a preocupação das obrigações e compromissos contraídos durante a vida.(91) Finalmente, o caso de Robert Mackenzie. Quando ainda o patrão ignorava a sua morte, apareceu-lhe ele para desculpar-se de uma acusação de suicídio que pesava sobre a sua memória. Foi reconhecida a falsidade dessa acusação, por ter sido acidental a sua morte.(92) Na memória apresentada ao Congrès International de Psychologie de Paris, em 1900, o Dr. Paul Gibier, diretor do Instituto Pasteur de Nova Iorque, fala das “materializações de fantasmas” (93) obtidas por ele no seu próprio laboratório, na presença de muitas senhoras da sua família e dos preparadores que habitualmente o auxiliavam nos seus trabalhos de biologia. As ditas senhoras tinham especialmente o encargo de vigiar a médium, Sra. Salmon, despi-la antes da sessão para lhe examinarem os vestidos, sempre pretos, ao passo que os fantasmas apareciam de branco. Por excesso de precaução, metiam a médium dentro de uma gaiola metálica fechada com cadeado e, durante as sessões, o Dr. Gibier não largava a chave. Foi nessas condições que se produziram, à meia-luz, formas numerosas, talhes diferentes, desde aparições de crianças até fantasmas de alta estatura. A formação é gradual, opera-se à vista dos assistentes. As formas falam, passam de um lugar para outro, apertam as mãos dos experimentadores. “Interrogadas – diz Paul Gibier –, declaram todas ser entidades, pessoas que viveram na Terra, Espíritos desencarnados, cuja missão é nos mostrarem a existência da outra vida.” A identidade de um desses Espíritos foi estabelecida com precisão: a de uma entidade chamada Blanche, parenta falecida de duas senhoras que assistiam às sessões, as quais puderam abraçá-la repetidas vezes e conversar com ela em francês, língua ignorada da médium. No congresso espiritualista realizado no mesmo ano em Paris, na sessão de 23 de setembro, o Dr. Bayol, senador das Bocas do Ródano, ex-governador de Dahomey, expunha verbalmente os fenômenos de aparição dos quais foi testemunha em Arles e Eyguières. O fantasma de Acella, donzela romana, cujo túmulo está em Arles, no antigo cemitério de Aliscamps, materializou-se a ponto de deixar uma impressão do seu rosto em parafina fervente, não em entalhe, como se produzem habitualmente as moldagens, mas em relevo, o que seria impossível a qualquer ser vivo. Essas experiências, cercadas de todas as precauções necessárias, efetuaram-se na presença de personagens tais como o prefeito das Bocas do Ródano, o poeta Mistral, um general de Divisão, médicos, advogados, etc.(94) Numa ata, com a data de 11 de fevereiro de 1904, publicada pela Revue des Études Psychiques, de Paris,(95) o Prof. Milèsi, da Universidade de Roma, “um dos campeões mais estimados da nova escola psicológica italiana”, conhecido na França por suas conferências na Sorbonne sobre a obra de Auguste Comte, deu público testemunho da realidade das materializações de Espíritos, entre outras a de sua própria irmã falecida em Cremona havia três anos. Damos aqui um extrato dessa ata: “O que de mais maravilhoso houve nessa sessão foram as aparições, que eram de natureza luminosa, posto que se produzissem na meia claridade. Foram em número de nove; todos os assistentes as viram... As três primeiras foram as que reproduziram as feições da irmã do Prof. Milèsi, falecida havia três anos em Cremona, no convento das Filhas do Sacré-Coeur, com a idade de 32 anos. Apareceu sorrindo, com o esquisito sorriso que lhe era habitual. Do mesmo modo o Sr. Squanquarillo viu uma aparição, na qual reconheceu sua mãe. Foi a quarta. As cinco restantes reproduziam as feições dos dois filhos do Sr. Castoni. Este afirma ter sido abraçado pelos filhos. ter conversado com eles várias vezes, ter recebido respostas suas e apertos de mãos; sentiu-os, mesmo, sentarem-se nos seus joelhos.” Assinaram J. B. Milèsi, P. Cartoni, F. Simmons, J. Squanquarillo, etc. No seu artigo do Figaro de 9 de outubro de 1905, intitulado: Par delà la Science, Ch. Richet, da Academia de Medicina de Paris, dizia, a propósito de outros fenômenos da mesma ordem: “O mundo oculto existe. Correndo embora o risco de ser tido pelos meus contemporâneos como insensato, creio que há fantasmas.” O célebre Prof. Lombroso, da Universidade de Turim, no número de junho de 1907 da revista italiana Arena, expõe o resultado de suas experiências com Eusápia Paladino: fenômenos de levitação, transportes de flores, etc. e acrescenta: “O leitor vai interpelar-me com ar de compaixão e perguntar-me: “Não se deixou simplesmente ludibriar por farsantes vulgares?” O fato indiscutível é que com Eusápia tomaram-se as medidas de precaução mais absolutamente rigorosas contra a possibilidade de qualquer fraude, porque se lhe ligavam as mãos e os pés, ficando uns e outros cercados por um fio elétrico que, ao menor movimento, punha em ação uma campainha. O médium Politi foi, na Sociedade de psicologia de Milão, metido nu em pêlo, num saco, e a Sra. d’Espérance ficou imobilizada numa rede como um peixe e, não obstante, os fenômenos se produziram.
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(82) Ver W. Crookes - Recherches sur les Phénomènes du Spiritisme.
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(83) Aksakof - Animismo e Espiritismo, págs. 620 e 621.
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(84) F. Myers - La Personnalité Humaine, pág. 268.
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(85) Idem, pág, 280.
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(86) Há necessidade de fazer notar que o Espírito quis aparecer com esse “arranhão” somente para dar, por esse meio, uma prova da sua identidade. O mesmo se dá em muitos dos casos que se vão seguir, em que Espíritos se mostraram com trajes ou atributos que constituíam outros tantos elementos de convicção para os percipientes.
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Nota 6:
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(87) Proceedings, X, 284.
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Nota 7:
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(88) Idem, X, 292.
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Nota 8:
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(89) Phantasms of the Living, I, 212.
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Nota 9:
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(90) Proceedings, X, 283.
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Nota 10:
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(91) Proceedings, VIII, 214.
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Nota 11:
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(92) Proceedings, II, 95.
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Nota 12:
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(93) Ver Compte rendu officiel du IV Congrès de Psychologle, Paris, F. Alcan, fevereiro de 1901, reproduzido in extenso pelos Annales des Sciences Psychiques.
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Nota 13:
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(94) Ver Compte rendu du Congrès Spiritualiste International de 1900, pág. 241 e seguintes. Leymarie, editor.
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(95) Número de março de 1904.
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