Livros Espíritas
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Esta digressão, que foi além do que imaginava, tem um objetivo: o de demonstrar, com casos concretos, a dificuldade de uma decisão sensível e adequada a problemas emocionais. No caso dessa moça, entendo que o conhecimento do passado seria inócuo ou até prejudicial; ao passo que em outros episódios podemos encontrar as características de utilidade e até de necessidade no esclarecimento de problemas atuais ou de atitudes reprováveis, aparentemente gratuitas e inexplicáveis perante certas pessoas. Vimos, há pouco, um exemplo desses na aversão de Regina por determinada moça que não a hostilizava nem lhe causava contratempo algum. A regressão (aliás, espontânea, como vimos, embora assistida por um espírito amigo) serviu-lhe para mostrar que a culpada era a própria Regina que no entanto não estava disposta a perdoar a outra. Ela é que destruíra as vidas de suas filhas em um irracional acesso de ciúmes e de revolta. Mesmo neste caso, porém, o dramático impacto da realidade teve de ser atenuado para não causar novos conflitos. Daí a razão pela qual a cena final com as meninas foi cuidadosamente desmagnetizada da memória de vigília, embora continuando arquivada no inconsciente, ou seja, nos compartimentos da memória com os quais esquecemos, pois os arquivos são indestrutíveis. Por isso, costumo dizer que a única norma imutável, no trato com os fenômenos da mente, do espírito, do ser humano, enfim, é a de que não há normas imutáveis. Cada caso é um caso, cada situação, um problema diferente. O ser humano é uma realidade em contínuo estado de mutação. Não digo isto pelo gosto duvidoso pelos paradoxos, mas para reiterar velha tese pessoal de que há uma só constante na vida: a própria mutação. Deu para entender? (Ah, o doce mistério das palavras! ... Como é difícil falar sobre o infalável...) Bem, acho que já é tempo de voltar à nossa trilha. Regina jamais buscou informações desse tipo por mera curiosidade. Todas, mas todas mesmo, foram espontâneas e, usualmente, como respostas animadas a perplexidades que ela não tinha como entender. É certo que ela tem consciência de que essas 'explicações', dramatizadas e coloridas pela emoção que as autenticava, foram obviamente selecionadas e dirigidas por amigos espirituais interessados em ajudá-la nas difíceis provações que trouxe programadas para esta existência, É também certo que ela dispõe de créditos que lhe permitiram ser atendida em explicações que, de outra forma, não lhe teriam sido proporcionadas. Confirmação disto decorre do fato de que outras situações, igualmente traumatizantes, não foram esclarecidas. Há limites evidentes que não podem, ou não devem, ser desrespeitados, porque significariam indevida e indesejável interferência no seu livre-arbítrio, o que é válido para todos nós. Regina sempre teve lembranças do passado, desde a infância, quando ainda não tinha condições para entendê-las, o que a levava, como observamos, a viver duas realidades superpostas ou paralelas. À medida que foi crescendo e se envolvendo mais no processo doloroso de viver, foi se desajustando, porque do confronto daquelas duas realidades resultava uma clara opção pela que lhe proporcionava alegrias e abrigo contra as aspereezas da vida considerada normal e comum de toda gente, mas que para ela constituía fonte de excruciantes sofrimentos. Além disso, ela sentia a importância oculta das revelações e pedia a Deus, em suas preces, que lhe mostrasse o que estava errado com ela, a fim de que pudesse entender o que se passava e esforçar-se pelas correções porventura necessárias. Nesse sentido, sim, ela buscava certas revelações, mas isto não lhe teria sido proporcionado se, como dissemos, não dispusesse ela de um mínimo de crédito para consegui-las. Até os primeiros anos de juventude, porém, ainda não tinha conhecimento algum de espiritismo, a não ser que se tratava de algo meio estranho de que era melhor manter-se afastada. Não tinha, portanto, uma idéia precisa do que fosse reencarnação. Ouvira falar disso, mas considerava a doutrina das vidas sucessivas uma grande e fantasiosa tolice. Por outro lado, ela se manifesta bem consciente do fato de que seus amigos espirituais foram cautelosos na seleção do material de estudo a ser-lhe apresentado, através das suas vidências e sonhos, a fim de não se provocarem mais aflições em vez de aliviar as que ela já estava sofrendo. É certo também que eles sabiam avaliar sua capacidade de resistência íntima para saber o que ela teria condições de suportar sem desequilibrar-se. Mesmo assim, foi intenso seu sofrimento perante certas revelações, senão todas, pois nem sempre a lição é fácil de ser apreendida. 7. A BUSCA DA SANIDADE Lembra Regina, ainda, que muitas dessas experiências reveladoras ocorriam em plena vigília, sem nenhum transe, desdobramento ou sono/ sonho. Conforme vimos, ela vivia literalmente duas realidades fundidas em uma só, sem entender o que se passava com ela. A continuar aquilo, caminharia irremediavelmente para o desequilíbrio mental e a alienação, que provavelmente não estavam no seu programa. Aliás, profissionais da área de saúde mental não teriam - como não tiveram - a menor hesitação em enquadrar aqueles estados nos seus esquemas acadêmicos, aplicando- lhes os rótulos definidos pelos tratados científicos que ornam prateleiras eruditas. Quando procurou dirigentes e entendidos, nos centros espíritas, encontrou um novo tipo de dificuldade: a incompreensão e o açodamento dos que identificam qualquer desequilíbrio emocional resultante de visões do passado - fato mais comum do que muita gente pensa - como obsessão, sendo a pessoa em tais condições logo despachada, sem apelo, para as reuniões de desobsessão ou para as de desenvolvimento da mediunidade. São assim interpretados estados de angústia inexplicáveis, medo não-identificado, visões, vozes e coisas desse tipo. É possível, convém admitir, que isto resulte mesmo de problemas obsessivos, mas não é a regra geral, rígida e única. Temos tido oportunidade de verificar isto pessoalmente, quando procurados por pessoas que estão (ou estavam) sendo tratadas em centros espíritas como obsediadas, claro que sem nenhuma possibilidade de êxito pelo contrário, com visíveis sinais de agravamento dos problemas. Não há dificuldades insuperáveis em delinear um procedimento de ajuda mais racional a essas pobres criaturas desarmonizadas. Em primeiro lugar, é preciso apurar se a pessoa quer, de fato, ficar boa. Muitos se dizem aflitos para se livrarem daquilo, mas, no fundo mesmo, preferem continuar como estão em situação que lhes proporciona certas (e doentias) 'vantagens'. Outro porque, embora reconhecendo que o trabalho de recuperação, de volta e sanidade mental tenha de ser individual, ficam buscando, aqui e ali, que possa realizar a mágica de resolver todos os seus problemas. Desejam apenas (ou exigem), que lhe tirem a dor quanto antes, mas não estão dispostas a realizar os esforços, as modificações íntimas, os sacrifícios e renúncia para que a tarefa seja viabilizada. A esses não há como ajudar. Aqueles, contudo, que se revelam realmente interessados em se curar e dispostos aos trabalhos que isso implica, não é difícil ajudar. A primeira medida que a pessoa procurada para essa tarefa precisa tomar é de despojada simplicidade e se resume em poucas palavras: disponha-se a ouvir o que a outra tem a dizer! (Isto também é válido em relação aos espíritos desencarnados, nas sessões de doutrinação e desobsessão). A maioria dos dirigentes de grupos e doutrinadores parece desconhecer essa condição elementar. Pessoas apressadas e superficiais não estão preparadas para ajudar aquele que tem um problema íntimo e busca ajuda. É mais fácil 'diagnosticar' logo a disfunção como obsessão ou mediunidade embotada e despachar a pessoa para a mesa mediúnica. A realidade, porém, pode ser (e é, com freqüência) bem outra. Instruída por suas próprias experiências pessoais e assistida pelas suas faculdades de percepção, Regina costuma distinguir com clareza uma coisa (problemas emocionais próprios da pessoa) da outra (envolvimento com espíritos desencarnados). Em casos do primeiro tipo, é preciso ajudar a pessoa a entender o que se passa e a conviver com o problema, até conseguir superá-lo, aceitando porém condições muitas vezes impostas por complicações cármicas nada fáceis ou decididamente impossíveis de serem desatadas no momento. Isto se faz com um entendimento aberto, sem cronometragem apressada de tempo, permitindo-se que a pessoa exponha todo o seu problema, coloque suas dúvidas em debate, seja ouvida, enfim, com paciência e interesse. Só assim o núcleo do problema poderá ser identificado para uma orientação segura do que pode e deve ser feito. Como foi dito há pouco, até é possível que a solução seja mesmo a de encaminhar o caso ao tratamento desobsessivo ou à tarefa do treinamento mediúnico. Qualquer que seja a indicação, a preliminar é a de recomendar-se ao paciente o estudo criterioso do assunto, não em livros eruditos e essencialmente teóricos, logo de início, mas em trabalhos mais acessíveis e de fácil entendimento. É preciso que a pessoa tenha um mínimo de entendimento do que está se passando consigo mesma antes de entregar- se a uma experiência sobre a qual tudo ignora. Muitas vezes Regina consegue apreender, com suas faculdades, aspectos importantes do caso, tendo vidências do passado da pessoa ou sendo esclarecida a respeito pelos seus amigos espirituais. Para ilustrar, é oportuno citar um caso específico, embora a matéria esteja reservada para um capítulo especial.
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