Livros Espíritas
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Não consultaria os filhos, que, possivelmente, dobrariam o seu espírito, incli nados à tolerância e à benignidade. Jochedeb recuou alguns passos e, recorrendo ao material de serviço ali guardado nas proximidades, fez o fogo com que acendeu um feixe de ervas ressequidas. O rastilho comunicou -se, célere, e em rápidos minutos o incêndio das pastagens propagava -se com a velocidade do relâmpago. Terminada a tarefa, sob a penosa impressão dos ossos doloridos, regressou cambaleante ao lar, onde Abi gail o inquiriu, inutilmente, dos motivos de tão profundo abatimento. Jochedeb deitou -se à espera do filho; mas, dentro em pouco, um ruído ensurdecedor ecoava -lhe aos ouvidos. Não longe da chácara, o fogo destruía árvores amigas e frondes robustas, reduzindo pastos verdes a punhados de cinzas. Grande área ardia, irremediavel mente, escutando-se os gritos lamentosos das aves que fugiam espavoridas. Pequenas benfeitorias do questor, inclusive algumas termas pitorescas de sua predileção, construídas entre as árvores, ardiam igualmente, con vertendo-se em negros escombros. Aqui e acolá, o ala rido dos trabalhadores do campo, em espantosa correria por salvar da destruição a residência campestre do pode roso patrício, ou procurando insular a serpente de fogo que lambia a terra em todas as direções, aproximando -Se dos pomares vizinhos. Algumas horas de ansi edade espalharam as mais angustiosas expectativas; mas, ao fim da tarde, o incên dio fora dominado, depois de ingentes esforços. Debalde o velho judeu enviara mensagens à pro cura do filho, dentro dos círculos de serviço da sua pequena herdade. Desejava fa lar a Jeziel das suas necessidades e da situação tormentosa em que se encontravam novamente, ansioso por descansar a mente atormentada nas palavras dulcificantes da sua ternura filial. Entretanto, somente à noite, com as vestes chamuscadas e as mãos ligeiramente feridas, o jovem entrou em casa, deixando entrever no cansaço da fisionomia a laboriosa tarefa a que se impusera. Abigail não se surpreendeu com o seu aspecto, entendendo que o irmão não deixara de auxiliar os companheiros de trabalho da vizinhanç a, nas ocorrências da tarde, preparando-lhe aos pés cansados e às mãos doloridas o banho de água aromatizada; mas, tão logo o viu e notou as mãos feridas, foi com espanto que Jochedeb exclamou: — Onde estiveste, filho meu? Jeziel falou da cooperação espont ânea no salvamento da propriedade vizinha e, à medida que relatava os tristes sucessos do dia, o pai deixava trair a própria angústia nas fácies sombrias, em que se estereotipavam os traços rudes da revolta que lhe devorava o coração. Ao cabo de alguns mi nutos, erguendo a voz desalentada, falou com profunda emoção: — Meus filhos, custa dizer -lhes, mas fomos espo liados na derradeira migalha que nos resta... Repro vando minha reclamação sincera e justa, o legado de César determinou o seqüestro do nosso próp rio lar. A iníqua sentença é o passaporte da nossa ruína total. Pelas suas disposições, somos obrigados a abandonar a chácara em três dias! E, elevando os olhos para o Alto, como a insistir junto à divina misericórdia, exclamava com o olhar em baciado de lágrimas: — Tudo perdido!... Por que fui assim desampa rado, meu Deus? Onde a liberdade do vosso povo fiel, se, em toda parte, nos exterminam e perseguem sem piedade? Grossas lágrimas escorriam -lhe pelas faces, enquan to com a voz trêmula narrava aos filhos os pesados tormentos de que fora vítima. Abigail osculava lhe as mãos enternecidamente, e Jeziel, sem qualquer alusão à rebeldia paterna, abraçava-o depois da sua dolorosa exposição, consolando -o com amor: - Meu pai, por que vos atemorizardes? Deus nunc a é avaro de misericórdia. Os Escritos Sagrados nos ensi nam que Ele, antes de tudo, é o Pai desvelado de todos os vencidos da Terra! Essas derrotas chegam e passam. Tendes os meus braços e o cuidado afetuoso de Abigail. Por que lastimar, se amanhã mesmo, com o socorro divino, poderemos sair desta casa, para buscar outra em qualquer parte, a fim de nos consagrarmos ao trabalho honesto? Deus não guiou o nosso povo expulso do lar, através do oceano e do deserto? Por que negaria, então, seu apoio a nós que ta nto o amamos neste mundo? Ele é a nossa bússola e a nossa casa. Os olhos de Jeziel fixavam o velho genitor numa atitude de súplica profundamente cariciosa. Suas pala vras revelavam o mais doce enternecimento no coração. Jochedeb não era insensível àquelas formosas manifestações de carinho; mas, ante a revelação de tanta confiança no poder divino, sentia-se envergonhado, depois do ato extremo que praticara. Descansando na ternura que a presença dos filhos lhe oferecia ao espírito desolado, dava curso às lágrimas dolorosas que lhe fluíam da alma pungida por acerbas desilusões. Entretanto, Jeziel continuava: — Não choreis meu pai, contai conosco! Amanhã, eu próprio providenciarei a nossa retirada, como se faz preciso. Foi nesse instante que a voz pate rnal se ergueu soturna e acentuou: — Mas não é tudo, meu filho!... E, pausadamente, Jochedeb pintou o quadro de suas angústias reprimidas, da sua cólera justa, que culminara com a decisão de atear fogo à propriedade do verdugo execrando. Os filhos ouviam -no espantados, entremos trando a dor sincera que a conduta paterna lhes causava. Depois de um olhar de infinito amor e funda preocupação, o jovem abraçou -o, murmurando: — Meu pai, meu pai, por que levantastes o braço vingador? por que não esperastes a ação da justiça divina?... Embora perturbado pelas afetuosas admoestaçõeS, o interpelado esclarecia: — Está escrito nos mandamentos: — “não furtarás”; e, fazendo o que fiz, procurei retificar um desvio da Lei, porqüanto fomos espoliados de tudo que constituía o nosso humilde patrimônio. — Acima de todas as determinações, porém, meu pai — acentuou Jeziel sem irritação -, Deus mandou gravar o ensinamento do amor, recomendando que o amássemos sobre todas as coisas, de todo o coração e todo o entendimento. — Amo o Altíssimo, mas não posso amar o ro mano cruel — suspirou Jochedeb, amargurado. — Mas, como revelarmos dedicação ao Todo -Poderoso que está nos Céus — continuou o jovem compa decido —, destruindo suas obras? No caso do incêndio, não temos só a consid erar o nosso testemunho de des confiança para com a justiça de Deus, mas os campos que nos fornecem agasalho e pão sofreram com a nossa atitude e os dois melhores servos de Licínio Minúcio, Caio e Rufílio, foram feridos de morte quando tentavam salvar as t ermas prediletas do amo, numa luta inútil para livrá -las do fogo que as destruiu; ambos, apesar de escravos, têm sido nossos melhores amigos. As ár vores frutíferas e os canteiros de legumes de nossa pro priedade devem quase tudo a eles, não só no concerne nte às sementes vindas de Roma, mas também no esforço e cooperação com o meu trabalho. Não seria justo hon rarmos sua amizade, dedicada e diligente, evitando -lhes a punição e os sofrimentos injustos? Jochedeb pareceu meditar profundamente nas obser vações filiais, ditas em tom carinhoso. Enquanto Abigail chorava em silêncio, o moço acrescentava: — Nós que estávamos em paz, nas derrotas do mun do, porque trazíamos a consciência pura, precisamos re solver, agora, em face do que nos advirá em represálias. Quando dava o meu esforço contra o fogo, observei que muitos afeiçoados de Minúcio me contemplavam com indisfarçável desconfiança. A esta hora, já ele terá re gressado dos serviços da Corte Provincial. Precisamos encomendar-nos ao amor e à complacência de Deus , pois não ignoramos os tormentos reservados pelos romanos a todos os que lhes desrespeitam as determinações. Penosa nuvem de tristeza mergulhara os três em sombrias preocupações. No velho observava-se uma ansiedade terrível, que se misturava à dor do remorso pungente e, em ambos os jovens, notava -se, no olhar, inexcedível amargura, angustiosa e intraduzível. Jeziel tomou de sobre a mesa os velhos pergaminhos sagrados e disse à irmã, com triste acento: — Abigail, vamos recitar o Salmo que nos foi ensi nado pela mamãe para as horas difíceis. Ambos se ajoelharam e suas vozes comovidas, como a de pássaros torturados, cantavam baixinho uma das formosas orações de David, que haviam aprendido no colo maternal: “O Senhor é o meu Pastor, Nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, Guia-me mansamente A águas mui tranqüilas, Refrigera minhalma, Guia-me nas veredas da justiça Por amor do seu nome. Ainda que eu andasse Pelo vale das sombras da morte, Não temeria mal algum, Porque Tu estás comigo... A Tua vara e o Teu cajado me consolam. Prepara-me o banquete do amor Na presença dos meus inimigos, Unges de perfume a minha cabeça, O meu cálice transborda de júbilo!... Certamente, A bondade e a misericórdia Seguirão todos os dias de minha vida E habitarei na Casa do S enhor Por longos dias...“ (1) O velho jochedeb acompanhava o cântico dolorido, sentindo -se opresso de amargosas emoções. Começava a compreender que todos os sofrimentos enviados por Deus sãO proveitosos e justos. e que todos os males procurados pelaS mãos do homem trazem, invariavel mente, torturas infernais à consciência invigilante O cântico abafado dos filhos enchia -lhe o coração de tristezas pungentes. Lembrava, agora, a companheira que rida que Deus havia chamado à vida espiritual. Quantas vezes, aca lentar-lhe ela o espírito atormentado com aqueles versos inesquecíveis do profeta? Bastava que sua observação amiga e fiel se fizesse ouvir para que o sentido da obediência e da justiça lhe falasse mais alto ao coração. Ao ritmo da harmOnia caridOSa e tris te, que apresentava acento singular na voz dos filhos idolatrados, Jochedeb chorou longamente. Da pequenina janela aberta no aposento humilde, seus olhos buscaram ansiosamente o céu azul, que se enchera de sombras tranqüilas. A (1) Salmo 23º. — (Nota de Emmanuel.) noite abraçara a Natureza e, muito longe, no alto, come çavam a luzir as primeiras estrelas.
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