Livros Espíritas
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Sabemos, por exemplo, que a pessoa pode dispor de excelentes faculdades mediúnicas numa existência e não ter nenhuma delas em outra, da mesma forma que numa delas nasce rico, em berço de ouro, ao passo que na seguinte, talvez retorne para mendigar nos portões (dos fundos) dos palácios que outrora foram seus. Tudo são lições e nada faz Deus, segundo nos advertem os espíritos sem um fim útil e necessário. A telepatia é, pois, uma faculdade anímica resultante de disposiçõe psicossomáticas que habilitam a pessoa dotada a captar, por algum processo ainda desconhecido, pensamentos, emoções e impressões alheias. Já se tem observado que o termo em si é inadequado, de vez que gregos pathos quer dizer moléstia, doença, sofrimento ou paixão. Telepatia seria, portanto, a captação, à distância, de impressões patológicas. É difícil, contudo, desalojar um termo de seu uso corrente depois que ele criou raízes. Com todo o seu mistério e suas incógnitas, a telepatia aí está como realidade incontestável. É um fenômeno anímico, ocasionalmente produzido com a colaboração de entidades desencarnadas, mas, basicamente, um processo de transmissão de pensamento em estado puro, de mente a mente, sem necessidade de palavras para traduzi-lo. 3. PREMONIÇÃO E PREVISÃO Dotada de variadas faculdades, Regina é habitual viajante do tempo, tanto no sentido presente/passado como no presente/futuro. Vimos algumas das experiências do primeiro tipo no início deste livro e voltaremos a esse aspecto mais adiante. Cuidemos agora do futuro. De duas maneiras suas incursões no futuro podem ocorrer: apenas pressentindo os eventos, sem defini-los com a desejada nitidez ou vendo-os como se à sua visão espiritual passasse o filme de amanhã. Para melhor definição das diferentes manifestações, ela resolveu caracterizar as primeiras (pressentimento) como premonição e as segundas (vidência) como previsão. Fenômenos de premonição ocorrem quando ela 'sabe' (sem saber como) que alguém esteve em sua casa na sua ausência, ou irá chamar ao telefone, ou quando, caminhando, sente, de repente, que uma pessoa amiga está vindo em sentido contrário, seja naquela mesma calçada, seja na oposta. A convicção leva-a a atravessar a rua para encontrar-se com a pessoa, o que realmente ocorre. Acho que os casos de pessoas que estiveram em sua casa ou que pretendem chamá- la ao telefone podem ser, alternativamente, classificados como de telepatia, embora não fique excluída a hipótese da premonição. Já o do encontro fortuito na rua apresenta-se com maiores possibilidades de ser premonição mesmo, a não ser que a pessoa esperada viesse pensando nela e lhe 'transmitisse' a mensagem, voluntária ou involuntariamente, o que é difícil apurar. Também os casos em que a visita está marca da e a pessoa muda de planos mais de uma vez tanto podem ser atribuídos à premonição como à telepatia. Entendo que esta última explica melhor o fenômeno. Há outros que são de legítima premonição, pois não há como identificar transmissão de pensamento. Um desses é o que ela chama de "o caso sorteio" . Ocorreu-lhe em um almoço de confraternização em final de ano escolar - reuniões essas, aliás, que não eram muito do seu agrado. Foram todos almoçar em uma churrascaria, lá pelas tantas, alguém levantou-se e disse que havia um brinde a sortear para que ficasse uma lembrança da festa. Preparou os pedacinhos de papel e pediu que cada um dos presentes neles escrevesse seu nome. Não foi mencionado o objeto do sorteio, que, obviamente, era uma surpresa. Ao colocar seu nome no papel, Regina sentiu-se um tanto constrangida porque teve a certeza de que o objeto era uma echarpe e que sairia para ela. Não deu outra ... Nesse episódio ela poderia até ter captado, por via telepática, a imagem da echarpe, mas não havia como conseguir pelo mesmo processo a certeza de que seria ela a premiada. A não ser que algum amigo espiritual invisível lhe houvesse transmitido tal convicção, o que é pouco provável. Os espíritos menos evoluídos dificilmente têm condições de penetrar pelo futuro, ainda que cinco ou dez minutos adiante. Os de mais elevada condição evolutiva não se interessam por brincadeiras, como a de proclamar quem vai ganhar o que ou que número vai dar na loteria. Acontece, ainda, alguém comunicar-lhe, por exemplo, que vai viajar determinado dia e ela saber, antecipadamente, que a viagem não será realizada por motivos que ela ignora, mas sabe que são reais e respeitáveis. É o que acontece. Em vários dos casos de premonição que Regina colocou à minha disposição, em relato pessoal, feito a meu pedido, vejo interferências telepáticas ou episódios de desdobramento, fenômenos mistos nos quais mais de uma faculdade foi acionada. Um desses é o seguinte: Em determinado período de sua vida, Regina partilhava um apartamento alugado com outras três moças. O entrosamento pessoal entre elas não era dos melhores, especialmente porque uma das moças, racista convicta, alimentava rancores e frustrações que se traduziam em hostilidade surda a Regina e tudo fazia para criar contra ela um clima de rejeição. Certa feita, essa moça armou contra Regina um dos seus esquemas malignos e expôs a trama em um bilhete dirigido às demais companheiras, no qual não poupava sua vítima predileta. A mensagem do ódio e da mentira foi alojada debaixo da almofada do meio do 'sumier' onde dormiam as moças. Ao acordar, pela manhã, Regina sabia de tudo, embora ninguém lhe houvesse contado nada, mesmo porque suas companheiras já haviam saído para o trabalho. Ela não apenas sabia que as outras ainda não haviam recebido (e lido) o bilhete, como seu conteúdo e onde havia sido escondido. Foi à sala, deslocou a almofada e lá estava o papel venenoso. Embora possa ter ocorrido aqui um episódio de premonição, o mais provável, a meu ver, é que ela tenha tomado conhecimento de tudo em espírito, desdobrado pelo sono fisiológico. Os casos de premonição podem, portanto, ter explicações alternativas, ainda que não fique excluída a hipótese admitida por Regina. Quanto aos de previsão, contudo, a participação da telepatia é inaceitável, como veremos. Um deles é singelo, mas bem característico. Vivia-se ainda na era do bonde, no Rio de Janeiro, e Regina se dirigia ao seu local de trabalho carregando um daqueles primitivos e pesadíssimos gravadores de som, que hoje parecem verdadeiros mastodontes ao lado dos microgravadores produzidos pela moderna tecnologia. Ficou exausta de arrastar o aparelho até a rua em busca de seu bonde habitual. A essa altura, 'viu', com o sistema visual interno, chegar um bonde no qual vinha, ao estribo, um funcionário da escola onde ela trabalhava. Parou, arriou no chão a pesada carga e sentou-se. (O ponto era na proximidade de um jardim público e havia bancos). Agora era só esperar a chegada do bonde com o serventuário da escola ... Decorridos alguns minutos, foi o que aconteceu. Lá estava ele pendurado no estribo, tal como ela o vira minutos antes. Regina chamou-o pelo nome, ele desceu, pegou o gravador e incumbiu-se de levá-lo ao seu destino para alívio e satisfação dela. Há outro caso, no qual não detectamos o fator telepatia. Durante as horas de repouso, Regina assistiu, desdobrada, a um grave acidente com um ônibus interestadual que caíra de um viaduto. Viu ainda um homem sendo retirado do veículo acidentado e 'soube' que era o único sobrevivente. Era como se estivesse no local, na cabeça do viaduto, assistindo à tragédia sem nada poder fazer para evitá-la ou ajudar alguém. Limitava-se a testemunhá-la. Pareceu-lhe apenas um sonho, como tantos outros, embora de impressionante realismo. Uma semana mais tarde, porém, teve a desagradável surpresa de 'conferir' o sonho. Ao passar por uma banca, lá estava um jornal aberto com as manchetes de um acidente de ônibus e a foto correspondente. Lembrou-se logo do sonho. Era exatamente - mas exatamente mesmo - a visão que ficara documentada em sua memória. Era como se a foto tivesse sido tirada por alguém que estivera no mesmo ponto de observação que havia estado. Comprou o jornal e ao ler a notícia verificou que era mesmo o acidente que já 'vira' acontecer, até o detalhe de que apenas uma pessoa sobrevivera - um homem. Seu caso mais impressionante, contudo, e no qual vários ingredientes e faculdades se conjugam, é o que podemos identificar como "a trágica viagem a Brasília". Embora muito jovem - cursava ainda a faculdade -, Regina já exercia o magistério e fizera muitos amigos entre colegas e alunos. A nova capital do país havia sido recém inaugurada e era grande o interesse em visitá-la. Organizou-se, no colégio, uma caravana que seguiria de ônibus, especialmente fretado para a ocasião, e todos se programaram para a excursão que se realizaria durante as férias de julho. Regina aderiu, preparando-se para a viagem. Um casal amigo, contudo, resolveu convidá-la para ir com eles de carro. Ele era colega de trabalho e a esposa, muito amiga de Regina. Desejavam sua companhia para a longa viagem que fariam, sem pressa, parando pelas cidades que desejassem conhecer melhor. Uma pessoa a mais, e amiga de ambos, tornaria o passeio mais agradável. Ficou combinado que sairiam do Rio com uma semana de antecedência em relação ao ônibus, a fim de chegarem mais ou menos no mesmo dia. Regina aceitou e agradeceu o convite que lhe proporcionaria viagem mais cômoda e interessante do que a que estava planejada. Começaram os preparativos. ficando a data da partida combinada para um domingo. Desde a segunda-feira daquela semana, contudo, Regina começou a sentir uma forte compulsão para não ir. Não havia a menor razão para aquilo, mas o sentimento era inequívoco e insistente. E ela resolveu ceder à sua intuição, ainda que sem saber como justificá-la. Só sabia que não desejava ir e que não iria mesmo.
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