Livros Espíritas
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Se a Humanidade está abandonada a si própria, se em nenhuma parte existe um poder inteligente e eqüitativo que a julgue, a guie e sustente, que socorro pode ela esperar? Que auxílio lhe tornará mais leve o peso das suas provações? Se não há no Universo razão, justiça, amor, nem outra coisa além da força cega prendendo os seres e os mundos ao jugo de uma fatalidade, sem pensamento, sem alma, sem consciência, então o ideal, o bem, a beleza moral são outras tantas ilusões e mentiras. Não é mais aí, porém na realidade bruta; não é mais no dever, mas sim no gozo, que o homem precisa ver o alvo da vida e, para realizá-lo, cumpre passar por cima de toda a sentimentalidade vã. Se viemos do nada para voltar ao nada, se a mesma sorte, o mesmo olvido, espera o criminoso e o homem dedicado; se, conforme as combinações do acaso, uns devem ser exclusivamente votados aos trabalhos e outros às honras; então, cumpre ter-se a ousadia de proclamar que a esperança é uma quimera, visto não haver consolação para os aflitos, justiça para as vítimas da sorte. A Humanidade rola, arrastada pelo movimento do planeta, sem fito, sem luz, sem moral, renovando-se pelo nascimento e pela morte, dois fenômenos entre os quais o ser se agita e passa, sem deixar outro vestígio mais do que uma faísca na noite. Sob a influência de tais doutrinas, a consciência só tem que emudecer e dar margem ao instinto brutal; o espírito de cálculo deve suceder ao entusiasmo, e o amor do prazer substituir as generosas aspirações da alma. Então cada um só cuidará de si próprio. O desgosto da vida, o pensamento do suicídio virão perseguir os desgraçados. Os deserdados só terão ódio para os que possuem bens e, em seu furor, reduzirão a pedaços esta civilização grosseira e material. Mas não, o pensamento e a razão erguem-se frementes e protestam contra essas doutrinas de desolação, afirmando que o homem luta, trabalha e sofre, não, porém, para acabar no nada; dizendo que a matéria não é tudo, que há leis superiores a ela, leis de ordem e de harmonia, e que o Universo não é somente um mecanismo inconsciente. Se tudo é matéria, qual a causa porque, sendo ela cega, mostra obedecer a leis inteligentes e sábias? Como, desprovida de razão, de sentimento, poderia a matéria produzir seres racionais e sensíveis, capazes de discernir o bem do mal, o justo do injusto? Pois quê! o ente humano é suscetível de amar até ao sacrifício, acha-se nele gravado o ideal do bem e do belo, e teria saído de um elemento que não possui estas qualidades em nenhum grau? Sentimos, amamos, sofremos e emanaríamos de uma causa inconsciente e insensível, de uma causa que é surda, inexorável e muda? Seríamos mais perfeitos ou melhores que ela? Tal raciocínio é um ultraje à lógica. Não se poderia admitir que a parte seja superior ao todo, que a inteligência derive de uma causa ininteligente, que de uma natureza sem intuitos possam sair seres suscetíveis de almejarem um alvo. Ao contrário, o senso comum diz-nos que, se a inteligência, se o amor do bem e do belo existem em nós, mister se faz que aí tenham sido colocados por uma causa que os possua em grau superior. E, se em todas as coisas se manifesta a ordem, se um plano se revela no mundo, cumpre também que um pensamento os tenha elaborado, que uma razão os tenha concebido. Mas não insistamos em problemas sobre os quais precisaremos fazer exame mais demorado e abordemos uma doutrina que com o Materialismo tem numerosos pontos de contacto. Queremos falar do Positivismo. Mais sutil, ou menos franca que o Materialismo, essa filosofia nada afirma, nada nega. Afastando qualquer estudo metafísico, qualquer investigação das causas primárias, ela estabelece que o homem nada pode saber do princípio das coisas; que, por conseguinte, é supérfluo o estudo do mundo e da vida. Todo o seu método refere-se à observação dos fatos verificados pelos sentidos e das leis que o ligam. Só admite a experiência e o cálculo. Mas o vigor deste método teve de dobrar-se perante as exigências da Ciência, e o Positivismo, como o Materialismo, apesar do seu horror à hipótese, foi constrangido a admitir teorias não verificáveis pelos sentidos. É assim que raciocina sobre a matéria e a força, cuja natureza íntima lhe é desconhecida; que admite a lei da atração, o sistema astronômico de Laplace, a correlação das forças, coisas estas impossíveis de demonstração experimental. Mais ainda, viu-se o fundador do Positivismo, Auguste Comte, depois de ter eliminado todos os problemas religiosos e metafísicos, voltar às qualidades ocultas e misteriosas das coisas,(lxxiv) e terminar sua obra estabelecendo o culto da Terra. Este culto tinha suas cerimônias e seus sacerdotes assalariados. É verdade que os positivistas renegaram essas aberrações. Não insistiremos sobre este ponto, nem mesmo sobre a particularidade que apresenta a vida de Littré, sábio eminente, chefe venerado do ateísmo moderno, que é a de se ter feito batizar em seu leito de morte, depois de haver aceito as visitas freqüentes de um sacerdote católico. Tal desmentido, feito por ele aos princípios da sua vida inteira, deve entretanto ser assinalado. Esses dois exemplos, dados pelos mestres do Positivismo, demonstram a impotência das doutrinas que não se interessam pelas aspirações do ser moral e religioso. Provam que a negação e a indiferença nada fundam; que, apesar de todos os sofismas, chega a hora em que, diante dos mais endurecidos cépticos, ergue-se o pensamento de além-túmulo. Todavia, não se pode desconhecer que tenha o Positivismo tido sua razão de ser e prestado incontestáveis serviços ao Espírito humano, constrangendo-o a fortificar mais seus argumentos, a determinar melhor suas teorias, a fazer maiores concessões à demonstração. Os seus fundadores, fatigados das abstrações metafísicas e das discussões de escola, quiseram firmar a Ciência em terreno sólido. Era porém tão limitada a base por eles escolhida que, ao seu edifício, faltaram simultaneamente amplidão e solidez. Querendo restringir o domínio do pensamento, aniquilaram as mais belas faculdades da alma. Repelindo as idéias sobre o espaço, sobre o infinito, sobre o absoluto, tiraram a certas ciências, à Matemática, à Geometria, à Astronomia, toda a possibilidade de se desenvolverem e progredirem. Com referência a isso, há um fato muito significativo: é no campo da Astronomia Estelar, ciência proscrita por Auguste Comte como sendo do domínio do incognoscível, que as mais belas descobertas têm sido realizadas. O Positivismo está na impossibilidade de fornecer à consciência uma base moral. Neste mundo o homem não tem só direitos a exercer, tem também deveres a cumprir; é a condição iniludível de qualquer ordem social. Mas, para preencher os deveres, cumpre conhecê-los; e como possuir esses conhecimentos sem indagar-se o alvo da vida, das origens e dos fins do ser? Como conformarmo-nos com a regra das coisas, segundo a própria expressão de Littré, se a nós mesmos nos interdizemos de explorar o domínio do mundo moral e o estudo dos fatos da consciência? Com louvável intuito, certos pensadores, materialistas e positivistas, quiseram instituir o que chamaram a moral independente, isto é, a moral desprendida de qualquer concepção religiosa. Acreditaram achar assim um terreno neutro em que todos os bons espíritos poderiam reunir-se. Porém, os materialistas não refletiram que, negando a liberdade, tornavam impotente e vã toda a moral. Teria também sido preciso que, para ser eficaz, a noção do dever fosse aceita por todos, mas poderia essa noção ser apoiada numa teoria mecânica do mundo e da vida? A moral não pode ser tomada por base, por ponto de partida. Ela é a conseqüência de princípios, o coroamento de uma concepção filosófica. Eis por que a moral independente ficou sendo uma teoria estéril, uma ilusão generosa, sem influência sobre os costumes. Com o estudo atento e minucioso da matéria, as escolas positivistas contribuíram para enriquecer certos ramos de conhecimentos humanos, mas perderam de vista o conjunto das coisas e as leis superiores do Universo. Encerrando-se no seu domínio exclusivo, imitaram o mineiro que se aprofunda mais e mais nas entranhas da terra, que aí descobre tesouros ocultos, mas que, ao mesmo tempo, perde de vista o grande espetáculo da Natureza que se mostra imponente sob os raios do Sol. Essas escolas nem mesmo têm sido fiéis ao seu programa, porque, depois de terem proclamado o método experimental como o único meio de se conhecer a verdade, deram desmentido a si próprias negando a priori toda a espécie de fenômenos, de manifestações psíquicas, que vamos examinar. Coisa notável, assim como os mais intolerantes homens da Igreja, elas também mostraram os mesmos preceitos e a mesma desdenhosa incredulidade perante esses fatos que vinham aluir as suas teorias. O Positivismo, portanto, não pode ser considerado como a última fase da ciência, porque esta é essencialmente progressiva e sabe completar-se avançando. O Positivismo não é senão uma das formas temporárias da evolução filosófica, pois os séculos não sucederam aos séculos, não se acumularam as obras dos sábios e dos filósofos para tudo ficar limitado à teoria do incognoscível. O pensamento humano avança, desenvolve-se e, dia a dia, penetra mais além. O que hoje é desconhecido não o será amanhã. A carreira do Espírito humano não está terminada. Fixar-lhe um limite é desconhecer a lei do progresso, é falsear a verdade.
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(lxxiv) A tal respeito, veja-se Ontologie, por Durand de Gros (1871), obra notável que refuta as doutrinas positivistas.
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